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Microoperárias, as bactérias que valem ouro

Elas não recebem salário, não têm direito a férias e trabalham sem folga até a morte. Mesmo assim não justificam uma denúncia. São as bactérias especializadas em extrair o ouro aprisionado em minerais sem valor.

Débora Pinheiro

Imagine um bolo inglês, desses que têm uvas passas em seu interior. Agora imagine que você quer separar as passas, pois não gosta da massa. É mais ou menos esse o problema enfrentado por mineradoras que precisam resgatar pequenas quantidades de ouro embutidas em grãos de minerais como a pirita (“ouro de tolo”), a arsenopirita e a pirrotita. Para fazer essa limpeza delicada, uma empresa brasileira, a São Bento Mineração, a 200 quilômetros de Belo Horizonte, conta com bilhões de funcionárias invisíveis ao olho humano. São todas bactérias das espécies Thiobacillus ferrooxidans, Thiobacillus thioxidans e Leptospirilum ferrooxidans. Seu trabalho é comer a massa indesejada do bolo. Elas lançam enzimas digestivas sobre o minério e assim vão oxidando-o. Depois de algumas horas de ataque os grãos ficam porosos, como queijos suíços em que o ouro, ainda aprisionado, se torna mais acessível a um tratamento químico posterior (veja os infográficos). Todos os dias as microoperárias da São Bento dão duro em 300 toneladas de minério bruto, das quais extraem cerca de 250 quilos de ouro.

Separando a jóia do lixo

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As rochas ricas em ouro são extraídas, na maioria das vezes, de minas subterrâneas. Até que se separe todo o metal precioso contido nelas, incluindo o tratamento com as bactérias, gasta-se cerca de dois dias e meio.

Lei da gravidade

Depois de britado e moído, o material passa por mesas vibratórias que funcionam como as bateias dos garimpeiros, separando as partículas de ouro livre, que são mais pesadas, das demais.

Espuma preciosa

A lama restante vai para um tanque no qual é adicionado um tensoativo, produto usado para fazer espuma. O mineral que contém ouro, gruda nas bolhas de ar e transborda.

Banquete

O material já traz certa quantidade de bactérias que normalmalmente o oxidam na natureza. Num tanque, ele vai receber mais desses microorganismos, recolhidos previamente da mina e cultivados em laboratório.

Enfim livres

Depois da ação as bactérias, os grãos vão para outro tanque, ao qual acrescenta-se cianeto de sódio, substância que reage apenas com o ouro, fazendo com que tome a forma líquida, que pode ser facilmente separada das impurezas.

Um pingo dourado

Aqui você vê o corte transversal de um grão como o da foto que ilustra o item acima. O amarelo brilhante é o ouro. O preto são as trilhas abertas pelas bactérias. As demais tonalidades são outras substâncias que compõem o grão. Veja como é pequena a quantidade de metal precioso contida nele.

Eficientes e seguras

Estas são as bactérias Thiobacillus ferrooxidans, as principais estrelas da operação. São especialistas em oxidar ferro e enxofre, dos quais tiram a energia para sua sobrevivência. Enquanto se alimentam, vão abrindo caminho em direção ao ouro embutido nos grãos. Começaram a ser usadas na mineração em 1986, na África do Sul, e se mostraram econômicas para usinas grandes, que manipulam grandes quantidades de minério por dia. Além disso, não agridem o ambiente, como outros métodos adotados para fazer o mesmo serviço, que implicam na queima ou cozimento do minério e podem produzir gases perigosos. Elas são retiradas da mina, junto com o material rico em ouro, e multiplicadas em laboratório. Muitas vezes trabalham junto com auxiliares, as Thiobacillus thioxidans, suas sósias, que oxidam apenas enxofre, e as Leptospirilum ferrooxidans, que têm forma de espiral e oxidam o ferro.

Queijo suíço

O grão de minério já corroído pelas bactérias fica assim, todo esburacado, como um queijo suíço. Este mede menos de 1 centésimo de milímetro. É menor que um grão de areia, que costuma ter mais do que 2 centésimos de milímetro. O ouro fica lá dentro, escondido em um ou mais nichos.