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O companheiro fantasma da supernova

Por 31 ago 1988, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h35
  • Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

    Em 25 de março de 1987, um mês após a estrela Sanduleak 69.202 pode ter explodido, dando origem à Supernova 1987 A, os astrônomos americanos Costa Papaliolioa, Peter Nisenson, Margarita Korovska e Robert Noyes, do Centro de Astrofísica do Instituto Smithsonian, iniciaram a sua observação (SUPERINTERESSANTE, números 1 e 2, ano 2), com o telescópio de 4 metros do Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile. Usando uma moderna técnica observacional, denominada interferometria granular, que consiste na reconstrução das imagens estelares defórmadas pela turbulência atmosférica, a equipe do Smithsonian esperava observar a expansão das camadas externas formadas pela Supernova. Como havia transcorrido pouco tempo desde a explosão, eles não tinham esperança de distinguir nada de especial antes dos próximos anos. Entretanto, ignorando os preconceitos iniciais sobre a sua tentativa de observar os princípios da expansão, acabaram por fazer a mais surpreendente de todas as descobertas sobre a SN 1987 A. As imagens não apresentavam sinal de uma expansão mensurável. No entanto, descobriu-se um segundo objeto claramente visível, a uma distância de 18 dias-luz, ao sul da Supernova. Atordoados, os astrônomos questionaram qual seria a origem do objeto, somente doze vezes menos luminoso que a Supernova, ou seja, 150 vezes mais luminoso que a Sanduleak 69.202 antes de sua explosão. O mais notável é o fato de as fotografias, obtidas anteriormente à explosão, mostrarem que Sanauleak era o único astro muito brilhante daquela região. Era evidente que a misteriosa mancha estava associada ao aparecimento da Supernova.

    Inexplicável e inesperado teoricamente, o misterioso companheiro exigia uma elucidação de sua origem e aparência. Seria uma nuvem de poeira iluminada pela explosão? Ou seriam gases que após participarem da explosão teriam sido ejectados à velocidade de 0,6 vezes a da luz? Seria o fragmento da estrela de nêutrons que foi catapultado numa velocidade relativista? Lógico que para responder a estas questões foi necessária uma série de novas observações pela equipe do Smithsonian, que usou a sua interferometria granular nos meses seguintes.

    Para espanto geral, nas observações realizadas em maio e junho, a mancha não foi registrada, o que significava que se ela ainda existisse deveria estar quarenta vezes menos luminosa que a Supernova. Em julho, novas observações foram tentadas sem sucesso. Parecia que o objeto fantasma havia desaparecido.

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    A hipótese mais extravagante foi a que sugeriu tratar-se de uma miragem gravitacional provocada pela curvatura dos raios luminosos emitidos pela Supernova. Assim, uma parte desses raios seria desviada por um objeto compacto que se encontrava entre a Supernova e o planeta Terra, o que provocaria o desdobramento da imagem. O caráter fora de série desta hipótese é que a massa necessária para produzir este desvio deveria ser equivalente a dez massas solares se ela se encontrasse na Via Láctea, ou a 100 mil massas solares se ela se encontrasse na galáxia da Supernova. Assim, a presença próxima de tal objeto tão maciço, na escala cósmica, evidentemente já teria sido localizada hámuito tempo pelos astrônomos.

    A observação de um anel luminoso ao redor da Supernova, no Observatório Europeu Austral, em La Sitla, Chile, em 13 de fevereiro de 1988, ou seja, com atraso de quase um ano em relação à explosão, está sendo vista por alguns astrônomos como a chave para solucionar o problema do companheiro que desapareceu. Acredita-se que a Supernova, ao emitir a luz em todas as direções, tenha iluminado as nuvens de gases ou de poeira interestelar que a circundam, desenhando anéis em seu redor. Um fragmento de anel, ou melhor, uma região mais densa de poeira cósmica, seria talvez a explicação desse enigma.

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