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Quebrando o gelo com o novo navio

Márcia Turcato

Para se mover com rapidez e segurança no último continente selvagem, os cientistas brasileiros precisavam de um navio novo, equipado com a mais moderna tecnologia de navegação. Com o Ary Rongel, finalmente, eles estão preparados para enfrentar nevascas, vendavais e icebergs

O Ary Rongel não é um navio comum. Comprado da Noruega em março de 1994, por 16 milhões de dólares, ele passou mais de um ano nos estaleiros da Marinha, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, recebendo o que existe de mais avançado em termos de tecnologia de navegação e de comunicação. O objetivo era ganhar mais autonomia nas águas desertas da Antártida, onde o tempo muda sem aviso, os icebergs vagueiam por todos os lados e quem fica perdido nem sempre tem como pedir socorro. A SUPER esteve a bordo do navio em seu primeiro teste para valer, realizado entre os dias 7 de novembro de 1995 e 30 de março de 1996. E conta para vocês, com exclusividade, como foram os 144 dias de pura aventura na terra dos pingüins, focas e leões-marinhos. Conclusão do puxado rally científico: o Brasil já pode trabalhar em pé de igualdade com pesquisadores de qualquer outro país.

Com hélices extras o navio anda de lado

Até o ano passado, boa parte da Antártida ficava, na prática, fora do alcance dos pesquisadores brasileiros. O motivo era o precário navio de que dispunham, o velho Barão de Teffé. Apesar de ter viabilizado a exploração do continente, na década passada, o Barão não havia sido construído para navegar no gelo e, com 40 anos de uso, já estava passando da hora de se aposentar. Para brecá-lo bastava um vento de 50 quilômetros por hora soprando pela proa. Na Antártida as tempestades geralmente são bem mais violentas que isso.

Foi por esse motivo que o governo decidiu comprar o Ary Rongel – um verdadeiro quebra-gelo, para o qual pancadas no casco são apenas rotina de viagem. Nas fotos à direita você vai ver todos os trunfos tecnológicos do novo navio brasileiro. Como o casco, recoberto com aço de 2 centímetros de espessura. Ou então os thrusters, propulsores que giram hélices situadas nas laterais do casco, com os quais o Ary Rongel pode andar de lado e fazer manobras onde há pouco espaço, como no meio de um enxame de icebergs. Outro recurso essencial é um radar de última geração que pode localizar até dez icebergs ao mesmo tempo, e acompanhar o seu movimento posteriormente.

Em novembro, o quebra-gelo saiu do Rio de Janeiro sob o comando do capitão-de-fragata Marcos de Andrade Pinto para testar seus novos equipamentos. Antes de mais nada, tomou a direção da base brasileira, a Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George. Foi a primeira e a mais tranqüila etapa de uma longa viagem – que você vai acompanhar, passo a passo, nas páginas seguintes.

Driblando o gelo no Mar de Weddell

As bases de pesquisa da Antártida ficam geralmente bem distantes do Pólo Sul. Em média, a mais de 3 000 quilômetros de distância, em ilhas mais acessíveis aos navios do que o próprio continente. Não é brincadeira explorar um território que tem 14 milhões de quilômetros quadrados, quase duas vezes a área do Brasil. Tudo isso coberto por uma capa de gelo que em alguns pontos alcança 5 quilômetros de espessura (doze vezes a altura do Pão de Açúcar).

Dessa “montanha” soltam-se todos os anos 4 bilhões de toneladas de fragmentos – e isso, na maior parte do tempo, cria obstáculos intransponíveis para qualquer embarcação. Mesmo as mais bem equipadas, como o Ary Rongel. Em sua expedição de novembro a março, ele precisou recuar em pelo menos duas tentativas de passar pelo Mar de Weddell, a leste da Ilha Rei George (veja o infográfico ao lado). Numa delas, os icebergs simplesmente fecharam o acesso às Ilhas Orcadas, onde desembarcaria uma equipe de geólogos. Os blocos eram tantos que havia risco de ficar preso entre eles enquanto se procurava chegar à costa.

No final, tudo terminou bem. Com habilidade – e com o auxílio inestimável dos instrumentos – as armadilhas foram evitadas a tempo de recuar. Os geólogos, pacientemente, escolheram outra área para estudar, a Ilha Elefante, onde o bloqueio, menor, pôde ser furado sem risco. A visita às Orcadas ficou para outra oportunidade, ensinando uma lição fundamental sobre a Antártida: para conhecê-la, é preciso saber exatamente a hora de ser ousado e a de ser humilde.

Para navegar com o termômetro abaixo de zero

Força e agilidade se aliam à alta tecnologia dos propulsores, dos radares e da comunicação por satélites.

Apoio aéreo e garras a bordo

O helicóptero é pau para toda obra. O navio sempre leva dois, modelo Esquilo, cada um com capacidade para levantar 2,5 toneladas de carga. O guindaste no meio do navio ergue 17,5 toneladas e o da popa, 5 toneladas.

Videogame real

Os joysticks acionam hélices extras. Duas delas ficam nas laterais do casco e servem para andar para a esquerda ou para a direita. Em emergências, o navio pode manobrar com elas, sem precisar do leme.

Casa de força

São dois motores com potência total de 4 500 HP. Com eles o navio viaja cerca de 50 000 quilômetros sem reabastecer, ou 98 dias a 22 quilômetros por hora. O consumo de óleo diesel não é revelado, por segurança. A reserva anual para as operações na Antártida é de 1,5 milhão de litros

O perigo está aqui

Um super-radar pode ver até dez alvos ao mesmo tempo e em seguida acompanhar cada um dos seus movimentos. Os alvos na foto (assinalados com pequenos círculos) são icebergs próximos

No cérebro da máquina

No passadiço, além do radar, fica a sonda Simrad, que emite sons, escuta o eco e assim mapeia o fundo do mar. Já a orientação do navio é feita por computador e satélite: se eles dizem que o navio está a 100 quilômetros de um certo lugar, o erro não será maior do que 2 metros.

Números rápidos

Comprimento: 75,20 m

Velocidade com um motor: 11 nós (22 km/h)

Com dois motores: 15 nós (30 km/h)

Aço que cobre o casco: 2 cm de espessura

Geradores de eletricidade: 2 200 quilowatts

Produção de água potável: 12 000 litros por dia

Tripulação: 50 (mais 30 passageiros no máximo)

Gincana científica nas fronteiras do Pólo Sul

Da base Comandante Ferraz, o Ary Rongel partiu para uma série de missões nas ilhas próximas. Você acompanha no mapa abaixo.

1 – Recuo tático

Durante mais de 10 horas, o navio tenta manobrar entre os icebergs e chegar às Orcadas. Para não ficar preso entre os blocos, já com arranhões no casco, muda de rota.

2 – Bloqueio furado

Os fragmentos de gelo não impedem o desembarque de uma equipe de geólogos nas ilhas Elefante e Cornwallis

3 – Serviço de táxi

Resgate, por helicóptero, dos glaciólogos que por dois meses, isolados do mundo, exploravam a Ilha Livingston em motos de neve

4 – Plantas no vulcão

A menor das Ilhas Shetland do Sul, Decepción, é de fato a cratera de um enorme vulcão inativo. Uma equipe de botânicos gaúchos ficou por lá, examinando as espécies locais.

5 – Longe de casa

Início de fevereiro. Gelo e nevoeiro atrapalham a instalação de uma estação meteorológica automática na Ilha Joinville. O navio vai até o ponto mais afastado da base e retorna.

6 – Chamado de emergência

Convocado às pressas pelo rádio, o Ary Rongel socorre uma lancha brasileira jogada pelo vento contra as pedras perto da base polonesa de Arctowski, na Ilha Rei George.