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Sol e vento em alta tensão

Sem alarde, mas em ritmo acelerado, cresce o número de megawatts gerados por usinas muito pouco ortodoxas, instaladas em regiões estratégicas dos países desenvolvidos.

Flávio Dieguez

A fontes alternativas de energia, como o sol ou o vento, não levaram propriamente a uma revolução, como se previa há cerca de uma década. Nem por isso, no entanto, saíram inteiramente derrotadas do embate com o carvão e o petróleo: sem alarde, elas vêm ocupando nichos estratégicos na produção energética dos países desenvolvidos, e já não há dúvida de que vieram para ficar. Tal conclusão se justifica, antes de mais nada, porque painéis solares e moinhos de vento, muito aprimorados, passaram a produzir energia bem mais barata que há dez anos. E a um ritmo tal que, em apenas cinco anos, se tornarão mais econômicos que as usinas tradicionais.

Diversas outras fontes alternativas participam dessa corrida — como óleo e álcool obtidos dos vegetais, gás fermentado por matéria em decomposição, ou mesmo a força das ondas e o calor interno do planeta. Basta ver que há muitos anos se emprega a cana brasileira para gerar álcool em grande escala, e nos Estados Unidos, em menor proporção, se tira álcool do milho. No entanto, o que é realmente novidade, nesse campo, é a evolução da energia solar e eólica. Nos países menos desenvolvidos, como no Brasil, as experiências ainda são tímidas. Mas, nos Estados Unidos especialmente, em muitas circunstâncias, a balança dos custos pende claramente a seu favor. Tanto que a potência do vento já alcança 1600 megawatts, algo como 10% de Itaipu. Não é muito — quase 1 milésimo da eletricidade total gerada no país, com a agravante de que poucas regiões se prestam à instalação de novos moinhos. O que conta é que a tecnologia foi aprovada no teste da prática e assegurou um pedaço do pacote energético que começa a ser montado. “Ela terá participação significativa de imediato”, avalia o jornalista Philip Abelson, que tratou do assunto em editorial para a influente revista americana Science. Seu argumento é que o preço atual do quilowatt-hora (kWh) gerado pelo vento está abaixo de 10 centavos de dólar — praticamente o mesmo que o carvão —, contra cerca de 30 centavos, na década passada.

Além disso, esse valor deverá cair para 5 centavos quando começar a funcionar uma turbina recém-desenhada, cujas pás, em vez de girar com velocidade fixa, acompanham o ritmo do vento. Assim, convertem mais energia e funcionam mesmo em locais de vento inconstante, onde falham as turbinas atuais. O obstáculo do custo é um pouco maior, no caso dos geradores solares, ou células fotovoltaicas, cujo kWh ainda está saindo, em média, por 25 ou 30 centavos. Por isso mesmo, porém, é sugestivo que as células tenham encontrado inúmeras aplicações comerciais, como nas baterias de relógios e calculadoras — os exemplos mais conhecidos. Já são 1,2 milhão os edifícios americanos equipados com geradores desse tipo, que também são usados para alimentar correntes de alta tensão em mais de 700 linhas elétricas.

Dentro de meia década, o número de instalações desse último tipo deverá chegar a nada menos de 40 000. É certo que as células solares dependem muito da geografia: tanto que 92% da potência mundial vem de uma única usina existente no luminoso Deserto do Mojave, na Califórnia, que produz 350 megawats de força, metade da capacidade de uma instalação nuclear média. E a um custo excepcional, de apenas 8 centavos de dólar por kWh. O sistema emprega um conjunto de espelhos que concentram raios solares sobre longos tubos cheios de óleo; ao se aquecer, o óleo gera vapor que faz girar as turbinas de um dínamo.

Apesar de engenhoso e econômico, tal processo só atinge máxima eficiência em regiões de muita luz. Mais promissoras são as chamadas células fotovoltaicas, equipadas com cristais capazes de converter luz diretamente em eletricidade — em vez de transformar luz em calor para aquecer água. Na década de 70, a parcela de força convertida era pequena, cerca de 16%, mas hoje se transmutam em eletricidade 36% da luz absorvida. Em projeto, já há semicondutores ainda mais eficientes, construídos na forma de uma película superfina, cinco vezes menos espessa que um fio de cabelo. Mesmo assim, as células fotovoltaicas ainda são caras, e o kWh gerado por elas não sai por menos de 30 dólares.

De longe, o aspecto mais importante dessas mudanças é a necessidade de evitar danos ao meio ambiente e à saúde humana. Como resultado, elevam-se os preços dos combustíveis comuns e, por comparação, perde-se menos produzindo energia limpa, como a do Sol e a dos ventos. Um único cálculo ilustra de maneira dramática o que isso significa: as faltas ao trabalho devido a doenças pulmonares, nos Estados Unidos, representam um prejuízo de 40 bilhões de dólares anuais.

Divulgada pela Associação Americana para o Pulmão, essa estatística leva em conta apenas males causados pela poluição do ar, gerada em escala maciça pela queima de carvão ou petróleo. Na verdade, é impossível estimar todos os “custos embutidos” na queima de combustíveis tradicionais. O que se espera é que eles possam ser evitados ou contornados por meio de uma criteriosa utilização de antigas e novas fontes energéticas. Essa, pelo menos, é fórmula imaginada pelo atual secretário da Energia dos Estados Unidos, almirante James Watkins. “Devemos aprender com o passado e forjar idéias realistas para o futuro”.

 

 

 

 

Para saber mais:

O mundo sem petróleo

(SUPER número 6, ano 7)

 

 

 

 

Idéias sobre a força das ondas

Quando viu o mar pela primeira vez, há muitos anos, o técnico em mecânica industrial Natalino Michelin ficou de tal maneira impressionado com a força das ondas, que decidiu aproveitá-la como fonte de eletricidade. Acabou construindo a maquete de um modelo que considera bastante eficiente. Trata-se, basicamente, de um conjunto de conchas metálicas que a onda empurra ao avançar sobre a praia; quando se move, a concha aciona um pistão capaz de comprimir um fluido, como a água. Este fluido, então, faz girar as pás de uma turbina. A concha fica presa a um eixo e o mar a empurra na horizontal; não na vertical, como ocorre em muitos outros sistemas. “Não tenho meios nem conhecimentos para desenvolver o projeto, mas estou convencido de que ele daria bons resultados em qualquer praia.” Gaúcho de Erechim, um centro industrial e agropecuário de 90 mil habitantes, a 370 quilômetros de Porto Alegre, Michelin pode até estar enganado mas demonstra quanta confiança existe na possibilidade de se obter energia limpa e barata. Filho de colonos, ele teve a sorte de sair da roça aos 14 anos, formar-se em uma escola técnica federal, e assim adquirir experiência e sensibilidade como construtor de ferramentas para máquinas agrícolas e pequenas fábricas. Esse é o ofício a que se dedica até hoje, como autônomo. Aos 38 anos, pai de dois filhos, ainda tem esperança de ver o seu projeto concretizado. “No Brasil, a maior dificuldade é saber se existem e quem são as pessoas capazes de fazer uma avaliação de projetos que interessem ao desenvolvimento do pais.”

 

 

 

Onde as linhas não chegam

Há dez anos, a população de Gravatá, a 80 quilômetros do Recife, PE, viu surgir junto à cidade um curioso conjunto habitacional. Composto por apenas cinqüenta casas e equipado com painéis e células solares, moinhos de vento e fermentadores de matéria orgânica, seu objetivo era verificar se uma pequena comunidade pode viver sem estar ligada à rede elétrica convencional. Este ano batizado de Centro Latino-americano de Tecnologia Energética, o conjunto está pronto para receber seus primeiros moradores. Espera-se que em curto prazo eles sejam recrutados entre famílias carentes da região, diz Glauber Cabral, da Secretaria de Transportes, Comunicações e Energia do Estado. Cada casa tem um painel capaz de aquecer, diariamente, 200 litros de água, usada no banho ou na cozinha. Os painéis têm a forma de finos tanques retangulares de alumínio, e são pintados de preto para converter o máximo de luz em calor. Os fermentadores, por sua vez, geram gás em quantidade suficiente para cinqüenta fogões, e a iluminação virá dos moinhos e das células solares, que convertem luz diretamente em eletricidade. No total, os geradores têm potência de 5 quilowatts. Uma experiência parecida foi a instalação de células solares pela Cesp, Centrais Elétricas de São Paulo, na isolada região do Vale do Ribeira, sul do Estado. A idéia é fornecer energia onde há poucas linhas convencionais. Em sete postos de saúde, as vacinas ficam em refrigeradores ligados às células solares, conta o engenheiro Fernando Almeida Prado, da Cesp. “A potência ainda é baixa, mas é útil.”