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Ver por dentro

Os equipamentos usados nos exames médicos entraram na era digital. Eles fazem imagens do corpo com precisão jamais vista. E ainda podem transmiti-las pela Internet.

Ivonete D. Lucírio

Identificar alguma coisa no ultra-som convencional de um feto é um exercício de imaginação para qualquer um que não seja médico – ou o pai ou a mãe. A face não é mais do que uma mistura de manchas.

Mas dê uma olhada na imagem aí embaixo. O narizinho está bem definido, o contorno da boca é claro e dá até para ver a expressão serena do bebê. Tamanha definição é dada por um equipamento de ultra-som 3D. Além de deixar as mães derretidas com o primeiro retrato fiel da cria, o exame ajuda a identificar possíveis más-formações. “Por enquanto ele não vai acabar com o exame convencional”, explica o radiologista Miguel Francisco Neto, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Mas traz informações complementares importantes.”

Assim como o ultra-som, outras técnicas usadas para diagnosticar doenças por meio da imagem dos órgãos internos também se modernizaram. Os exames de tomografia e de ressonância magnética tornaram-se mais velozes. Com a ajuda de programas de computador, já são capazes de remontar a anatomia humana, mostrando um retrato que nunca havia sido revelado.

Mais rapidez e menos sofrimento

A rotina de um paciente dentro de um hospital não é fácil. Ele passa horas sendo observado, apalpado, espetado e carregado de um equipamento de exame para outro. Só sendo muito paciente mesmo. Um dos desafios dos médicos é facilitar a forma como os exames são feitos. Em um artigo publicado no Jornal Britânico de Medicina, da Inglaterra, o neurocirurgião Charles B. Wilson antevê um sofrimento menor para os internados. Ele é diretor do Instituto para o Futuro, uma organização localizada na Califórnia, Estados Unidos, que se dedica a pesquisar quais serão as tendências tecnológicas em várias áreas.

Se as previsões de Wilson estiverem corretas, dentro dos próximos dez anos as salas de espera dos hospitais ganharão narizes eletrônicos capazes de identificar infecções de orelha, nariz e garganta em poucos segundos, só farejando o ar. No banheiro, instrumentos serão instalados para verificar a urina e enviar um relatório diretamente para os médicos. Os laboratórios de análise praticamente desaparecerão. “Minúsculos sensores de silício implantados sob a pele vão monitorar a temperatura, a pressão e o nível de diversas substâncias no sangue enquanto o paciente estiver internado”, disse Wilson à SUPER. Em tempo real.

Cada vez menos invasão

Parte do sofrimento já ficou para trás. Em alguns casos, as desconfortáveis endoscopias – um exame por meio do qual uma minicâmera é introduzida para fazer imagens do corpo por dentro – são substituídas por exames avançados de tomografia, que usa raios X. Sem colocar nada dentro do corpo, é possível simular uma viagem pelo interior do intestino, do estômago e do esôfago. “A tendência é optar por exames cada vez menos invasivos”, explica a radiologista Marcia Carmignani, do Hospital Albert Einstein.

No futuro, equipamentos interligados

Apesar das imagens incríveis geradas pelos novos equipamentos, quem faz um exame desses hoje acaba saindo com um envelope debaixo do braço cheio de fotos estáticas. E só depois de uma visita a um consultório é possível um diagnóstico.

“Queremos acabar com esse vai-e-vem”, diz Claus Grasel, chefe da radiologia do Hospital Albert Einstein. Os grandes hospitais do mundo estão adotando sistemas de informática que podem ser acessados pelos especialistas no consultório, além de criar arquivos digitais com todos os exames do paciente. Assim, será possível compará-los.

O nome do projeto é Pacs, sigla em inglês para sistema de comunicação de arquivos de imagem. “No futuro, os exames devem todos ser digitalizados”, diz o engenheiro Roberto Ferrarini, da divisão médica da Philips no Brasil. Em outras palavras, é o fim das chapas em filme preto.

Longa distância

O processo de digitalização abre caminho para a telemedicina, a transmissão de diagnósticos pelo computador de um hospital para outro e até entre diferentes países. “O envio dos dados é feito por fibra óptica, ondas de rádio ou até pela Internet”, explica Renato Sabbatini, do núcleo de informática e biomédica da Universidade Estadual de Campinas, interior de São Paulo. Assim, é possível pedir a segunda opinião de especialistas distantes. No Brasil, a telemedicina já começou em algumas cidades. O hospital da Universidade Federal de Pernambuco realiza consultas com a ajuda da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos.

Com imagens em alta definição diponíveis em qualquer canto do mundo, os diagnósticos vão ganhar agilidade e os médicos, segurança. Mas quem ganha mais com isso é o paciente. Na era da tecnomedicina, ele não vai precisar mais gastar toda a sua paciência dentro do hospital.

ilucirio@abril.com.br

Algo mais

O ultra-som, uma técnica por meio da qual se emite uma onda sonora e capta-se a sua reflexão, é herdeiro dos sonares, que usam o mesmo princípio de funcionamento.

A tecnologia começou a ser desenvolvida durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), mas não houve tempo de pô-la em prática durante o conflito.

Tomografia

Exame acelerado

Os tomógrafos convencionais fazem 100 imagens em 30 segundos. Os modernos, chamados multi-slice, realizam o mesmo trabalho em 3 segundos. Quanto mais imagens forem feitas, maior a área coberta. Em 5 minutos são capazes de mapear ossos e artérias de metade do corpo

Viagem virtual

Com os modernos tomógrafos é possível reconstruir visualmente órgãos ocos por meio de feixes de raios X. À direita aparecem vários trechos de um esôfago. A imagem é armazenada em um computador e examinada pelo médico para identificar tumores

Parte por parte

Na tomografia, os órgãos são fotografados em fatias que um computador compõe numa imagem.

1. O equipamento emite entre quatro e oito feixes de raios X.

2. Ao girar, ele captura imagens de vários ângulos.

3. O corpo caminha para trás para que se registrem diferentes regiões.

4. O resultado é enviado para um computador, que junta as imagens.

Ultra-som

Cada vez mais claro

Além das imagens em 3D, outra inovação desse exame é o uso de um contraste, substância que aumenta a definição dos contornos (veja infográfico abaixo). É possível ter uma representação clara de todo o intestino e até identificar a presença de tumores ou obstruções

Alto-falante interno

O sinal do ultra-som fica muito mais forte graças a uma substância química.

1. Um tipo de açúcar em forma líquida é injetado na corrente sanguínea e chega ao órgão que se quer estudar.

2. O ultra-som emite uma onda que, ao trombar com o açúcar, tem sua intensidade ampliada.

3. O sinal volta amplificado e pode ser interpretado com mais clareza pelo equipamento.

Ressonância magnética

A cara do cérebro

Além das aplicações clínicas, como identificação de tumores, a ressonância é bastante usada para se compreender o funcionamento do cérebro e conhecer sua estrutura. Na imagem menor aparecem as regiões estimuladas quando se encosta um objeto quente nas mãos. Esses dados ajudam a entender como se processa a dor

Batimento errado

A ressonância magnética é aplicada com freqüência nos exames cardíacos. Em experimentos realizados pela Universidade Wake Forest, na Carolina do Norte (EUA), usa-se a técnica para observar o fluxo de sangue enquanto percorre as artérias e, assim, identificar possíveis obstruções cardíacas

O corpo vira ímã

Parece um tomógrafo, mas funciona diferente.

1. O equipamento emite um campo magnético.

2. Os átomos de hidrogênio, presentes em todas as moléculas do corpo, se alinham.

3. Quando cessa o campo, eles começam a voltar para a posição original.

4. Dependendo do órgão, os átomos levam um tempo diferente para retornar. O aparelho interpreta essa informação e cria a imagem.

PET

Organismo em ação

PET é a sigla em inglês para tomografia por emissão de pósitron. Diferentemente da tomografia convencional, indicada para mapear a anatomia, essa verifica o metabolismo dos tecidos, ou seja, as reações bioquímicas que ocorrem. É capaz, assim, de identificar quais áreas do cérebro estão mais ativas a cada momento. Aqui, elas são indicadas em amarelo

Exame radioativo

Com o PET é possível verificar até se um tumor está crescendo.

1. Injeta-se na veia do paciente glicose misturada com flúor radioativo.

2. A mistura percorre a corrente sanguínea e se acumula onde houver tumores, que precisam de energia para se multiplicar.

3. Como o flúor é radioativo, emite um sinal, captado pela máquina.

Chips biológicos

No futuro, o câncer poderá ser diagnosticado antes mesmo de aparecer. O Instituto Ludwig e o Hospital do Câncer, ambos em São Paulo, estão desenvolvendo uma técnica para observar tecidos do corpo e saber se suas células carregam genes que um dia propiciarão o surgimento da doença. O primeiro passo do trabalho é identificar as alterações genéticas que farão com que as células se multipliquem desordenadamente, gerando um tumor. Depois, em um laboratório, os cientistas produzem genes artificiais fluorescentes, conhecidos como marcadores. Eles são capazes de grudar nos genes candidatos a um câncer. Quando isso acontece, o pedaço de DNA defeituoso brilha.

Terminadas essas duas etapas, são construídos biochips, lâminas de vidro cobertas pelos marcadores. Cada tipo de câncer tem um biochip próprio. Se um médico suspeitar que seu paciente pode desenvolver a doença em um determinado órgão, extrai algumas células do tecido e injeta seus genes sobre o chip biológico. Caso realmente haja algum problema, eles serão atraídos pelos marcadores e ficarão presos, brilhando. Com um diagnóstico feito com tamanha antecedência nas mãos, o médico adotará medidas preventivas.

No Brasil, o biochip ainda deverá demorar cerca de três anos até estar disponível para diagnósticos. “Outros institutos no exterior também constroem seus biochips”, diz o bioquímico molecular Luiz Fernando Lima Reis, do Instituto Ludwig, coordenador do projeto. “Mas a vantagem de fabricá-los aqui mesmo é criar diagnósticos para os tipos de tumor mais comuns no país, como o de estômago”, completa.