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La La Land e Manchester by the Sea carregam o DNA de Mad Men

Don Draper foi criado num puteiro. Esse era o segundo maior segredo do publicitário de Mad Men. O primeiro era sua identidade real – mas essa é outra história. O que importa aqui é o seguinte: Don passa a vida sem revelar esse passado à família ou aos amigos. Num episódio da penúltima temporada ele está no meio de uma reunião com executivos da Hershey’s, a fábrica de chocolates, e tem uma crise psiquiátrica: trêmulo, entra numa espécie de transe e conta qual é a verdadeira importância do chocolate da Hershey’s para ele: as putas lhe davam um chocolate para cada dólar que ele conseguisse roubar das calças dos clientes enquanto eles estivessem trepando.
Quando esse momento acontece o espectador sabe que Don está numa fase especial. Mais aberto com os filhos, bem-resolvido a esposa nova, amigo da ex. Mas aparentemente é a primeira vez que ele fala com qualquer pessoa sobre sobre ter passado a infância num puteiro – coisa que a gente só sabe por conta dos flashbacks da série, não de diálogos travados no presente.
Desnecessário dizer que os executivos da Hershey’s e os colegas de Don entram em choque com a revelação. E ele acaba afastado da agência.
Corta para um telefone público. Don está contando para a filha adolescente que talvez nunca mais consiga trabalhar com publicidade. E ela pergunta:

– Por quê, pai?
– Porque eu falei a coisa errada, no lugar errado
– O que você disse?
Nada que você não saiba

Pronto. Neste momento a gente fica sabendo que Don já tinha contado tudo para a filha. Se fosse num seriado comum, numa novela, num livro ruim, não haveria nada disso: teríamos uma cena dramática com Don chamando a filha para conversar. Ele repetiria para ela tudo o que o espetador já sabe, o que seria terrivelmente chato. Algum roteirista fraco poderia colocar a filha perguntando “o que é uma puta, pai?”.
Mas não. Esse “Nada que você não saiba” basta. O espectador, então, vai e constrói o resto na cabeça dele. Perfeito.
Essa talvez seja a maior inovação de Mad Men. Não existe falso didatismo ali. As histórias se desenrolam sem a necessidade de diálogos e mais diálogos. A eloquôncia está nos olhares, nos silêncios.

Depois de assistir Mad Men, você passa a entender coisas como uma novela do Manoel Carlos ou um filme europeu sobre cineastas como o que elas realmente são: uma coleção disfuncional de palavras composta por uma equipe de peixes-boi.

Mad Men terminou em 2015. Mas parece que já deixou um filho no mundo do cinema: La La Land. Se não existe uma inspiração direta entre a série e o filme favorito ao Oscar, então os dois bebem das mesmas referências, e entregaram resultados parecidos: zero lenga-lenga, zero conversa inútil. Cada frame tem sua relevância. E o ápice dessa filosofia vem justamente no momento em que La La Land deixa de ser um filme meramente elegante e transcende ao reino encantado onde moram as maiores produções de todos os tempos. Falo dos 15 minutos finais do filme. Ainda é cedo para sair dando spoiler, então vou resumir só com o básico: são 15 minutos que embrulham não só as duas horas anteriores de filme, mas os 120 anos de história do cinema. Astonishing.

E que legal ter Manchester by the Sea nesse balaio de filmes novos. Manchester e La La Land são dois filmes bem complementares: um é sobre a imaginação, o outro, hiperrealista; um fala sobre ascensão social e mental, o outro sobre o limbo depois da queda e o despertar da insanidade; um é lisérgico, o outro, rivotrílico. E ainda assim eles têm um uma essência em comum: esse estilo Mad Men.

Em Manchester by the Sea, por exemplo, o diretor conta uma das histórias pregressas do filme quase que num frame só, mostrando uma lápide. Em La La Land, fazem isso quase que só mostrando uma imagem da Torre Eiffel no fundo de um cenário de teatro. São duas cenas que, se transportas pro futebol, equivaleriam a driblar sem tocar na bola – igual acontecia em de Mad Men.

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