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Pasteur só revolucionou a Química graças à arte

Para quem não é fã de ciência, o médico e cientista francês Louis Pasteur já virou nome de rua (e de hospital, é claro) faz tempo. Ele morreu há mais de um século, em 1895, e no Brasil só costuma ser citado de passagem em livros didáticos – nada muito grandioso.

É irônico, portanto, que seu nome apareça, ainda que alterado, em todas as caixas de leite do mundo: ele é o criador da pasteurização, processo de esterilização de alimentos perecíveis que envolve aquecê-los a uma temperatura muito próxima da ebulição e então resfriá-los repentinamente. O choque térmico mata na hora qualquer organismo com potencial para causar doenças.

Para entender o quanto essa sacada foi revolucionária, basta lembrar que, na época em que ele viveu, a própria ideia de que males como a cólera fossem causados por criaturas invisíveis a olho nu era questionável. O trabalho de Pasteur fixou o conceito de “germe” no imaginário popular, e foi um dos passos mais marcantes da ascenção da medicina como a conhecemos hoje.

Não satisfeito em resolver as principais questões de saúde pública do século 19, ele decidiu que também mudaria a história da química: foi o primeiro a notar o fenômeno da quiralidade – em bom português, o fato de que certas moléculas têm versões invertidas de si próprias, uma espécie de “lado B” oculto que é só superficialmente igual, mas que pode ter efeitos radicalmente diferentes em aplicações farmacêuticas.

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Ficou difícil? Calma. Primeiro imagine que há um cubo vermelho, liso, na frente de um espelho. Seu reflexo será idêntico à peça original, certo?

Outras coisas – a maior parte delas, de fato – não são perfeitamente uniformes como o cubo, e portanto não tem um reflexo idêntico. É o caso de qualquer texto. Encoste agora seu celular no espelho e você verá todas as palavras do meu post ao contrário, como o “ambulância” que vem escrito no capô dos veículos de resgate (É mais fácil entender vendo a imagem neste link aqui).

O que Pasteur descobriu é que muitas moléculas são como palavras, e não como cubos: a versão refletida não equivale à original. E que as versões invertidas podem ter consequências imprevisíveis no corpo humano.

A previsão foi quase profética. Muito tempo depois, nas décadas de 1950 e 1960, um medicamento chamado Talidomida, receitado por médicos norte-americanos para aliviar enjoos matinais, teve um fim trágico: a versão “espelhada” de seu princípio ativo, que não foi levada em consideração, era muito mais violenta e causou problemas congênitos graves nos bebês de mulheres grávidas – justamente as que mais precisavam do remédio.

Agora, o médico e pesquisador Joseph Gal, da Universidade de Colorado, propõe que a descoberta precoce desse princípio tão importante (Pasteur tinha apenas 28 anos) só foi possível por causa da experiência prévia do cientista com litogravuras – e tem em mãos uma carta em que o possível paralelo entre a química e a arte fica evidente.

“Eu acho que nunca produzi algo tão bem desenhado e tão parecido com o original”, afirma Pasteur em uma correspondência aos pais em 1841, sete anos antes da descoberta da quiralidade, em 1948. Ele comemorava a qualidade de um retrato que havia acabado de terminar – na época, não considerava seriamente a carreira de cientista. “Todos que viram acharam impressionante. Mas eu temo muito uma coisa: que no papel o retrato não fique tão bom quanto na pedra, é isso que sempre acontece.”

A preocupação do jovem artista, com apenas 19 anos, decorria do seguinte: uma litogravura é como um carimbo, que é desenhado com gordura sobre uma superfície de pedra. Terminado o desenho, o autor aplica tinta sobre essa matriz e então pressiona o papel contra ela. O resultado é a transposição da ilustração original – o registro na folha é um espelho perfeito do que estava na rocha originalmente.

Em outras palavras, as obras de Pasteur, como certas moléculas, existiam na versão original e na refletida – o que pode ter desencadeado um momento eureka! que superou de longe, por mera intuição, qualquer pesquisador que tivesse se debruçado sobre o assunto até então.

“Muitos cientistas bem mais conhecidos e cheios de realizações já haviam estudado as mesmas moléculas e substâncias”, afirma Gal ao The New York Times. Sua teoria sobre a descoberta da quiralidade foi publicada em detalhe no periódico Nature.

A história é mais do que plausível: é uma prova de que arte e ciência são uma ótima dupla. Não fosse esse contato inusitado com a litogravura há mais de um século, o desenvolvimento de medicamentos básicos na nossa rotina talvez estivesse algumas décadas atrasado.

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