Na fronteira da morte

A ciência começa a decifrar as experiências extraordinárias de quem quase passou para o lado de lá- e a revelar o que todos sentimos no fim da vida

Por Redação Super

Texto Marcos Nogueira

A morte não é mais a mesma. Hoje um coração parado não significa que seu dono vá, necessariamente, passar para o lado de lá. Graças a uma série de procedimentos médicos e um aparelhinho chamado desfibrilador, uma parcela razoável de pacientes dados como mortos tem sido “ressuscitada” nas UTIs mundo afora. Várias dessas pessoas têm histórias para contar. São histórias que desconcertam a ciência com perguntas muito difíceis – e que só agora começam a ser respondidas.

Muitos dos que estiveram na fronteira da morte – algo entre 6% e 23% – relatam experiências místicas: túneis que terminam em luzes celestiais, encontros com seres igualmente luminosos, memórias de uma consciência descolada do corpo físico, uma sensação indescritível de paz. Essas lembranças não raro incluem descrições detalhadas de fatos ocorridos entre a “morte” e a “ressurreição”. Coisas que, diz a lógica dos vivos, não poderiam ser recordadas por pessoas com atividade cerebral nula.

A veracidade desses relatos (leia alguns depoimentos ao longo desta reportagem) nunca pôde ser provada. Mas os pontos comuns a todas as narrações trouxeram a desconfiança de que se tratava de algo além de mentiras ou delírios. Como é cientificamente inadmissível que mortos tenham qualquer experiência, as estranhas ocorrências foram batizadas de experiências de quase-morte (EQM) – tradução aproximada de near-death experiences, termo cunhado pelo médico americano Raymond Moody Jr., pioneiro no estudo do assunto.

A primeira obra de Moody sobre EQMs, A Vida Depois da Vida, foi publicada 30 anos atrás. Nela, a pesquisa de campo – o autor catalogou 150 casos -– culmina em conclusões de forte inclinação espiritualista. Sejamos razoáveis: mesmo para os céticos, não é difícil se deixar impressionar pelas histórias dessas pessoas. Assim, foram poucos os cientistas com um nome a zelar que se atreveram a explorar a área. O campo ficou livre para os esotéricos, embalados pelos mais de 13 milhões de livros vendidos por Moody. “Por ser muito explorado em meios nada científicos, o assunto virou tabu”, afirma a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ, para quem as experiências refletem reações normais de cérebros moribundos.

A situação começou a mudar na virada do milênio. Sem ligar para a rejeição da academia, meia dúzia de corajosos dos EUA e da Europa entrou de avental e tudo nesse pântano entre a ciência, a religião e a filosofia. Seus trabalhos detectaram os processos cerebrais que detonam os eventos da experiência de quase-morte. E mais, fornecem indícios de que a luz no fim do túnel talvez seja experimentada por todo mundo na hora derradeira.

Isso não é pouca coisa. Mas faltam ainda encaixes essenciais para que o quebra-cabeça faça sentido. Se não foi encontrada nenhuma prova da existência da vida além-túmulo, também não se acharam provas de que ela não existe. Falta descobrir o que é a luz. Decifrar o que nos reserva a morte. Para isso, a ciência vai ter de entrar mais fundo no pântano e, quem sabe, expandir suas próprias fronteiras.

A experiência

Em 1998, Lars Grael velejava em Vitória, ES, quando foi atropelado por uma lancha, perdeu uma perna e muito sangue. Seu coração parou de bater. Lars teve uma experiência de quase-morte. Nas palavras do próprio, “é uma coisa muito difícil de descrever”. O médico José Carlos Ramos de Oliveira, outro sobrevivente de parada cardíaca, endossa Lars: “só quem passou por isso sabe do que estou falando”.

“Indescritível” é o adjetivo que mais aparece nos relatos de EQMs. A experiência é inefável – impossível de ser reproduzida com fidelidade em palavras. Ao que parece, a comunicação flui sem linguagem, os sentidos não atuam do jeito regular e nada se assemelha muito às coisas deste mundo. Isso não ajuda muito a compreensão daqueles que, como eu e quase todos os estudiosos do fenômeno (não sei quanto a você), nunca estiveram do lado de lá.

Apesar da dificuldade em verbalizar a experiência, os relatos de EQMs são muito mais claros e detalhados que narrativas de sonhos ou de alucinações por drogas. Os depoimentos são semelhantes, mas nunca iguais. Algumas pessoas “flutuam” sobre o próprio corpo e observam o trabalho dos médicos; outras são guiadas por parentes mortos até uma luz brilhante. O túnel, descrito por tantos, assume formas diversas. “A maioria disse ter visto um túnel longo e escuro, mas outros o descreveram como um caleidoscópio ou um túnel de ladrilhos coloridos”, afirma o médico britânico Sam Parnia, da Universidade Cornell, em Nova York, EUA.

Era preciso criar critérios para avaliar um fenômeno com tantas variações. Em 1980, o psicólogo americano Kenneth Ring dividiu em 5 fases seqüenciais os eventos da EQM (veja infográfico na pág. 53) – nem sempre eles seguem a ordem do esquema, contudo. Em outro esforço metodológico, Bruce Greyson, psiquiatra da Universidade da Virgínia, EUA, elaborou uma escala em que 16 das ocorrências mais comuns de uma experiência de quase-morte ganham conceito 0, 1 ou 2. Na escala Greyson, a nota mínima de uma EQM legítima é 7 em 32.

Se os roteiros são aleatórios e nunca se repetem, as impressões deixadas pela experiência raramente fogem de um padrão. “Apenas 3% das experiências de quase-morte são negativas”, diz a psicóloga Willoughby Britton, da Universidade do Arizona, EUA. Mesmo quem teme arder no inferno experimenta algo descrito como paz, serenidade ou bem-estar. “Isso foi observado até em suicidas que são ressuscitados”, afirma José Zacarias Souza, professor de filosofia que integra um grupo interdisciplinar da PUC-SP. “Esses pacientes aprendem a valorizar a vida, não tentam se matar de novo.”

Qualquer um que tenha sobrevivido a uma EQM volta transformado. Passa a agir de forma mais solidária, desprendida de valores materiais. O medo da morte evapora. Para Suzana Herculano-Houzel, isso é uma postura sensata dos que escaparam de morrer por um fio. “Eles ganharam uma segunda chance”, afirma. Só que nem todos dão o mesmo valor a essa chance – é o que sugere um estudo feito na Holanda, publicado em 2001 na revista médica inglesa The Lancet pela equipe do cardiologista Pim van Lommel. Ele acompanhou sobreviventes de paradas cardíacas por 14 anos: quem recordava uma EQM apresentou mais mudanças positivas de atitude do que aqueles que não se lembravam do período em que estavam “mortos”.

Willoughby Britton, que trabalha com pacientes terminais, afirma que a transformação pouco tem a ver com religião. “Pessoas muito religiosas deixam de ir à igreja depois de passar por uma experiência de quase-morte”, diz. Não que Jesus esteja excluído das EQMs: em alguns casos, Ele é visto flutuando na luz. Mas são visões de cristãos – fiéis de outras religiões relatam encontros com divindades de seus próprios credos. O que geralmente ocorre, no entanto, é que essa presença seja descrita apenas como um “ser de luz” amoroso e acolhedor.

As experiências de quase-morte não se encaixam na descrição do além feita por nenhuma doutrina em particular. Fica difícil, portanto, tentar explicá-las a partir da religião. Vejamos se a ciência consegue desvendar esse enigma.

As causas

Gente transformada pela luz: parece ficção new age de procedência genérica. Mas essas pessoas estão aí e não são poucas. Elas não levariam vantagem alguma em mentir. “Talvez muitos não relatem suas visões com medo de serem tachados de loucos”, diz a psicóloga Maria Julia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte da USP. “Podemos não explicar essas experiências, mas não dá para negar que elas existem.”

Se existem, devem ser estudadas. Eis uma tarefa espinhosa, pois as experiências de quase-morte são totalmente subjetivas e dificílimas de descrever. O volume da literatura médica sobre o assunto é pífio. E nem poderia ser diferente: apesar de alguns pesquisadores enxergarem referências à EQM na obra de Platão ou em lendas indígenas, ela só ficou relativamente comum na década de 1950. Foi quando a ressuscitação cardiopumonar começou a se tornar um procedimento eficiente, salvando várias vidas que antes seriam dadas por perdidas.

Por motivos óbvios, foram descartados testes de laboratório com cobaias humanas induzidas a um estado de quase-morte. Até a década de 1990, os pesquisadores recorriam apenas ao estudo retrospectivo: análise de depoimentos referentes a experiências ocorridas meses, anos ou décadas atrás. Sem mencionar a imprecisão desses relatos, o método distorce a base estatística da pesquisa. Todos os participantes dos estudos são voluntários, então é natural que os resultados sejam “inflados”.

Esse método norteou uma pesquisa feita em 1982 pelo instituto Gallup dos EUA, até hoje a melhor referência que se tem sobre a ocorrência de EQMs. Os resultados espantam: aproximadamente 8 milhões de pessoas, ou 4% da população americana, teriam experimentado sensações místicas de quase-morte. E quem seriam essas pessoas? Gente com a saúde mental em ordem, o que já descarta a hipótese de loucura pura e simples. Gente de formação cultural e religiosa muito diversa, o que elimina a possibilidade de um fenômeno localizado em algum estrato social.

O estudo das experiências de quase-morte pode ser dividido em 2 frentes. A neurológica sustenta que toda a explicação de uma EQM se encerra no cérebro; a transcendental, rechaçada pela maioria da comunidade científica, aposta na existência de uma consciência atuante fora do corpo (o que alguns chamam de alma ou espírito). Os únicos resultados concretos até hoje são fruto da pesquisa pé-no-chão. Eventos de uma experiência clássica, como a visão de túnel e a sensação de sair do corpo, já têm explicação neurológica convincente.

Contra as teorias transcendentais, o argumento mais contundente é o fato de que a proximidade da morte não é imprescindível na EQM. “Ela acomete pessoas que pensam que estão morrendo quando não existe emergência grave”, afirma a psicóloga inglesa Susan Blackmore – hippie das antigas que se rendeu ao ceticismo após várias tentativas frustradas de provar eventos paranormais.

Susan sustenta que a visão de túnel é um resultado da falta de oxigenação no cérebro. As células responsáveis pela visão central são muito mais abundantes que as da visão periférica – por isso enxergamos mal o que só está ao alcance dos cantos dos olhos. Segundo Susan, a oxigenação débil pode deflagrar uma ativação anormal das células da visão. Mais numerosas na porção central, criariam a sensação de uma luminosidade intensa que desvanece à medida que as células diminuem: uma luz no fim do túnel. Essa teoria é baseada em incidentes envolvendo pilotos de Força Aérea dos EUA. A velocidade brutal dos caças reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro dos aviadores, que “apagam” e relatam visões de túnel semelhantes às das EQMs.

A impressão de abandonar o próprio corpo – a chamada experiência extracorporal – é um dos componentes mais intrigantes da experiência de quase-morte. Mas ela também ocorre isoladamente em um série de situações: no uso de drogas, na meditação, durante o sono (ou após uma longa privação do sono), em momentos de estresse.

O acaso levou o neurologista suíço Olaf Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, a relacionar essa experiência a uma região do cérebro chamada giro angular. Ao examinar uma paciente epiléptica em 2002, a equipe de Olaf estimulou eletricamente o giro angular da mulher. Ela teve a impressão de estar fora do corpo e logo um artigo na revista científica Nature parecia demolir as suposições transcendentais sobre experiências de quase-morte.

O giro angular fica em uma extremidade do lobo parietal, setor cerebral responsável pela orientação espacial. É o lobo parietal que nos faz perceber onde termina o nosso corpo e o mundo começa. Pessoas com distúrbios nessa região têm uma dificuldade enorme para completar tarefas muito simples – coisas como atravessar uma porta aberta.

O neurocientista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, EUA, colheu imagens tomográficas de budistas em meditação. Nelas, a atividade no lobo parietal era muito reduzida. “O cérebro fica sem escolha: ele sente que o ‘eu’ é infinito e intimamente entrelaçado a todos e a tudo”, diz Andrew no livro Why God Won’t Go Away (“Por Que Deus Não Vai Embora”, inédito no Brasil). Esse seria o gatilho cerebral para o sentimento de fazer parte de um corpo único que engloba todas as coisas e pensamentos – presente em visões místicas e nas experiências de quase-morte.

As tomografias mostraram que, enquanto o lobo parietal “dorme”, há uma atividade intensa no lobo temporal direito. Essa região do cérebro freqüenta há tempos os anais da neurologia: a epilepsia do lobo temporal direito é um distúrbio que provoca alucinações vívidas e induz à religiosidade intensa. Suspeita-se que o episódio bíblico em que São Paulo encontra Jesus e se converte ao cristianismo tenha ocorrido durante um ataque de epilepsia. Antes que me esconjurem: mesmo que isso seja verdade, não constitui uma prova de que a visão foi irreal. Estamos aqui falando de processos ocorridos dentro do cérebro – que podem ser medidos por tomógrafos. Ainda está para ser inventada uma máquina que mostre o que é real e o que não é.

Realidade ou ilusão?

Quando você come uma lasanha recém-saída do forno, seu cérebro é bombardeado por estímulos: o cheiro, o sabor, a temperatura, a textura da carne moída, a visão do queijo derretido. Para uma questão prática – começar logo a digestão dos nutrientes –, o cérebro ordena a ativação imediata das glândulas salivares. Você também pode salivar só ao lembrar de uma refeição deliciosa, não é? As áreas cerebrais ativadas foram as mesmas. Mas a lasanha não estava lá. E você sabia disso.

Para o neurocientista Andrew Newberg, a lógica da lasanha pode ser aplicada a toda experiência, inclusive à de quase-morte. “Rastrear o comportamento neurológico de uma experiência espiritual não prova que ela é irreal”, diz. Se Deus existe e aparecer para você, sua percepção da revelação divina será necessariamente mediada pelo cérebro.

Não existe uma realidade objetiva. Tudo o que consideramos concreto é informação de segunda mão, uma imagem mental filtrada pelos nossos sentidos. Mas ficaríamos loucos se questionássemos a realidade de cada xícara de chá que tomamos. Por isso, afirma Andrew, consideramos reais as coisas que parecem reais em comparação às outras – o mundo físico parece mais real que os sonhos, portanto é mais real.

Para quem os vivencia, os eventos das experiências de quase-morte parecem tão reais quanto o mundo físico – se não ainda mais reais que ele. Fica o dilema: ou eles existem de fato e a mente desenvolveu a capacidade de percebê-los ou é tudo uma construção neural criada pelo cérebro e existente apenas dentro dele. “A ciência não oferece meios de resolver essa questão”, afirma Andrew.

É claro que a ciência clássica – cuja realidade só admite o que pode ser observado e medido – não corrobora a retórica mística de Andrew Newberg. Ela tampouco cogita ser viável o esforço do médico britânico Sam Parnia, que pretende provar, de acordo com os padrões científicos vigentes, que a mente não depende do cérebro. Se bem-sucedida, a empreitada quixotesca dissiparia as controvérsias a respeito da experiência extracorporal, único evento da EQM passível de verificação objetiva.

Experiências extracorporais incluem lembranças de fatos ocorridos enquanto os pacientes estão desacordados. Por exemplo, um homem em coma atendido pela equipe do holandês Pim van Lommel teve a dentadura removida. Uma semana depois, reconheceu a enfermeira que lhe desdentou e disse que a dentadura estava num carrinho de instrumentos cirúrgicos – nem a mulher lembrava disso.

Histórias como essa são numerosas, muitas confirmadas por profissionais que arriscam a própria reputação. Os céticos têm todo tipo de munição para derrubá-las. A principal é duvidar do conto, já que nada foi registrado com rigor científico. “As histórias são aumentadas”, afirma Suzana Herculano-Houzel. Outro argumento recorrente é questionar quando a memória se forma – nada impede que seja antes ou depois da perda total de sentidos.

Por fim, põe-se em dúvida a própria definição de morte aplicada a esses casos. A morte clínica se caracteriza pela ausência de batimentos cardíacos, parada respiratória e atividade cerebral inexistente. Aí mora a polêmica: para críticos como Suzana, não são feitas medições confiáveis desse nível de atividade. “O eletroencefalograma pode não detectar os sinais mais sutis do cérebro – e o aparelho quase nunca é usado nas emergências.”

Sam Parnia quer acabar com o diz-que-diz-que com um estudo que deve durar até 5 anos, envolvendo cerca de 1 500 pacientes na Inglaterra. Como as experiências extracorporais costumam ser narradas da perspectiva de quem flutua logo abaixo do teto, Sam vai posicionar “surpresas” que só poderão ser vistas dessa situação: telas com seqüências aleatórias de imagens. “É mais ou menos assim: às 9h, aparece o Pelé, às 9h01, a bandeira do Brasil, às 9h02, uma foto de Londres”, diz. O ambiente será monitorado o tempo todo, assim como os sinais vitais do pobre-coitado que estiver na maca. Caso um paciente identifique figuras que foram projetadas durante sua morte clínica, estará provado que ele “voou” pela sala de cirurgia.

Isso abriria um campo de estudo completamente novo para a ciência, que pressupõe que mente e consciência são produtos da atividade cerebral. “Mas até hoje não se explicou como um monte de circuitos elétricos gera uma percepção unitária do mundo e de nós mesmos”, afirma Sam Parnia. “Desconfio que a consciência possa ser um tipo de matéria ainda não detectável, algo com leis, teoremas e axiomas próprios.” Alguém falou em alma? “A ciência chama de consciência e a religião, de alma. O nome não importa”, diz o médico inglês.

Todas as pesquisas desse tipo, incluindo um estudo anterior de Sam Parnia, fracassaram. É muito pouco provável que algum de nós esteja vivo no dia em que a ciência compreender os mistérios da alma. Ou da consciência, como preferir. Por enquanto, devemos nos contentar com o que se sabe sobre o cérebro. Ele pode apresentar diferenças fisiológicas nos indivíduos que passaram por experiências de quase-morte, sugere um estudo conduzido por Willoughby Britton. A psicóloga americana constatou que parte dessas pessoas têm funcionamento anormal do lobo temporal enquanto dormem. “Como a comparação foi feita com pessoas que não haviam passado por morte clínica, não dá para intuir se a anormalidade é causa ou conseqüência da EQM”, diz.

A neurocientista Suzana acha que as funções alteradas podem ser pistas de que o cérebro não passou ileso pela experiência. Segundo ela, a EQM não tem nada de místico – é uma pane de células que estão morrendo e, se voltarem a funcionar, não serão as mesmas de antes. Quando um paciente ressuscitado não a relata, ou perdeu a memória ou não teve o cérebro tão avariado. Para sustentar essa tese, a pesquisadora cita o estudo de Pim van Lommel: nos anos subseqüentes à pesquisa, o índice de mortalidade das pessoas com EQMs foi superior ao de quem não guardava memórias da fronteira da vida. Se a visão de Suzana estiver correta e as experiências de quase-morte forem só isso – nossos últimos passos em direção ao vazio –, nunca saberemos disso. Nem ao morrer, pois seremos reduzidos a nada. Mas a saideira terá sido boa assim mesmo.

Depoimentos a Stefan Gan

Frases

"É uma coisa muito difícil de descrever. Nem imaginava que isso pudesse acontecer. Tive uma morte momentânea e me senti mais leve, com menos dor. Senti muita paz. Também me vi levantando do meu corpo. Voltei à vida, mas tive uma segunda parada e de novo me senti saindo do meu corpo. Era uma sensação menos nítida, acho que estava partindo mesmo. Foi coisa de segundos. Mas parece que o tempo ficou parado. Hoje vejo a vida por uma outra ótica. Meus valores mudaram e aprecio as coisas mais simples – um gole de água, um beijo de cada um da minha família. Tudo, tudo mudou."

Lars Grael é iatista, detentor de 2 medalhas olímpicas e secretário de Esportes do Governo do Estado de São Paulo. Teve 2 paradas cardíacas depois que sua perna direita foi amputada por uma lancha que o atropelou durante uma regata em 1998.

"No momento do acidente, eu me senti tragada por um ‘túnel de vento’. Fiquei flutuando no asfalto e vendo o carro capotar num barranco. Outro carro parou e 3 homens saíram dele. Um deles desceu o morro e disse: ‘Tem uma mulher morta ali’. Era eu. Não tive nenhum choque ao ver o corpo – apenas lamentei, em pensamento, o que tinha sofrido. Fora do corpo, conseguia enxergar em todas as direções ao mesmo tempo. Então eu avistei 2 pessoas flutuando acima do morro. Uma delas era uma mulher morena. A outra, a silhueta de um homem alto, me pareceu conhecida – apesar de ser transparente. A moça esticou o braço direito e disse, sem mexer a boca: ‘tenha calma; isso está na sua programação’. Essa frase funcionou para mim como uma senha. Era como se eu resgatasse toda a minha memória. Deslizei em direção à dupla, mas lembrei que meu único filho de 12 anos estava sozinho num chalé sem vizinhos e sem telefone. Alguém precisava resgatá-lo. Nesse mesmo instante, fui tragada de novo pelo túnel e voltei ao corpo. Daí senti uma dor horrível. Foi o único jeito de avisar a família sobre o acidente e resgatar meu filho."

Maria Aparecida Cavalcanti é radialista e professora universitária em São Paulo. Diz ter passado por 3 experiências de quase-morte. O relato acima se refere à segunda dessas experiências, ocorrida depois de um desastre automobilístico em Santa Catarina, em 1994.

"Percorri os corredores do hospital. Parecia que eu estava flutuando, como se não tivesse meu corpo. Passei por várias portas e via as pessoas, mas elas pareciam distantes. Tudo era claro, muito claro! Vi uma luz muito forte que estava lá no fundo. Quando cheguei, era um lugar diferente de tudo o que já tinha visto. Era o céu, de alguma forma eu sabia. Havia alguém me acompanhando, mas eu não sabia quem era. Estava acima de outras pessoas, como em uma nuvem, quando de repente vi meu pai, já falecido. Fiquei feliz e disse para ele: ·pai, traz uma escada que eu vou descer’ , mas ele disse: ‘não, filha, você não pode!’. E foi então que eu acordei."

Inês de Chagas Lima é agente de saúde em Pindamonhangaba, SP. Ela entrou em coma após complicações na retirada de um cisto ovariano.

"A última coisa que ouvi foi o médico dizer: ‘fibrilou’. Eu estava morrendo e me ressuscitaram. Como se fosse um sonho, entrei em um túnel escuro. Era uma sensação de prazer, de paz e de bem-estar que não tem explicação. Acho que só quem passou por isso sabe do que estou falando. E, de repente, comecei a ver tudo de trás para frente, como uma câmera de cinema num trilho. Via faces em preto-e-branco na parede do túnel. Não eram rostos de pessoas conhecidas. E o ‘trem’ da câmera de cinema voltando para trás em uma velocidade espetacular."

José Carlos Ramos de Oliveira é médico cardiologista em São Paulo e sofreu uma parada cardíaca em 1989.

A experiência em 5 etapas

Modelo de EQM foi criado porcientista americano para facilitar o estudodo fenômeno. Os eventos nem sempre acontecem nesta seqüência

1. A paz

No início da experiência, a dor desaparece. Somem também as noções de tempo e espaço. A pessoa é tomada por um sentimento indescritível de paz e serenidade. Essa fase ocorre em cerca de 60% das EQMs.

2. A viagem

A sensação é de se desprender do corpo físico e flutuar. Muitos dizem ver e ouvir o que se passa no ambiente em que o corpo está. Outros vão a lugares distantes – há até viagens espaciais.

3. O túnel

Segue-se uma etapa transitória de escuridão. São comuns as descrições de viagens muito velozes por um túnel, como se a pessoa estivesse sendo tragada por um aspirador de pó gigante.

4. A luz

No fim desse túnel, quase sempre há uma luz. Sobreviventes de experiências de quase-morte dizem que essa é a luz mais brilhante que poderia existir no Universo e, ainda assim, não ofusca a visão.

5. A fronteira

Em cerca de 10% dos casos, a pessoa relata entrar na luz do fim do túnel. Além dela, há ambientes paradisíacos e um limite que, ser for ultrapassado, tornaria a morte irreversível. A pessoa acorda em seu corpo e volta a sentir dor.

Isto também pode acontecer

RETROSPECTIVA

A pessoa recorda vividamente todos os fatos de sua vida – não é comum que essa lembrança apareça de uma vez, fugindo do conceito terreno de tempo.

COMPANHIA

Alguns relatos de EQMs incluem encontros com os espíritos de parentes mortos. Ou de amigos mortos. Ou com conhecidos vivos. Ou com completos desconhecidos.

O SER ILUMINADO

Mesmo pessoas sem religião narram encontros com uma entidade bondosa, caridosa e acolhedora. Quando lhe atribuem uma identidade, ela varia de acordo com a fé.

CONHECIMENTO GLOBAL

Durante a EQM, a pessoa pode vir a encontrar uma esfera que encerra todo o conhecimento do Universo. O ego desaparece, tudo e todos passam a ser uma coisa só.

Para saber mais

What Happens When We Die – a Groundbreaking Study into the Nature of Life and Death - Sam Parnia, Hay House, Reino Unido (lançamento previsto para setembro)

Why God Won’t Go Away – Brain Science and the Biology of Belief - Andrew Newberg, Eugene D’Aquili e Vincent Rause, Ballantine, EUA, 2001

A Vida Depois da Vida - Raymond A. Moody Jr., Butterfly, 2004

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