Sua majestade, o gene

Os seres vivos parecem prodígios de complexidade, mas não passariam de robôs copiadores de DNA egoísta.

Por Redação Super

Edição
245a
Novembro de 2007

Texto Alberto Holtz

Você acha que é livre? Pois um grupo radical de biólogos tem uma má notícia: você não passa de um escravo do seu DNA, uma máquina de sobrevivência cuidadosamente montada para que replicadores nanicos, os genes, passem para as próximas gerações o maior número possível de cópias de si mesmos.

Essa idéia foi desenvolvida a partir dos anos 60, principalmente pelos biólogos George C. Williams e William “Bill” Hamilton. Mas ganhou corpo e popularidade em 1976, quando o zoólogo inglês Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, publicou seu clássico, O Gene Egoísta. No livro, Dawkins qualifica os genes como novelos imortais e amorais, cujo único objetivo é transmitir informação. Para isso, eles vivem em uma competição permanente com outros genes, cujo resultado é a produção de máquinas de sobrevivência – nós – que o cientista compara a “enormes robôs ambulantes”. “Eles nos criaram, corpo e mente, e a preservação deles é a razão última da nossa existência”, escreveu. O gene, e não o indivíduo, é o verdadeiro objeto da seleção natural.

Fazemos qualquer negócio

E o gene, ensina Dawkins, é a unidade básica do egoísmo na natureza. Um gene não produzirá em sua máquina de sobrevivência nenhuma característica física ou comportamento que aumente as chances de outros genes serem passados adiante em detrimento de si mesmo.

Em nenhuma área da biologia essa lógica fica tão explícita quanto no sexo. Muitos biólogos se valeram da hipótese como explicação para a poligamia. Para os genes de um chimpanzé macho (vamos usá-lo para não ferir suscetibilidades), o que interessa é que seu robô gigante insemine o maior número possível de fêmeas. Características como força e agressividade contam pontos para isso. Portanto, é de interesse do gene produzir animais grandes e agressivos, que detenham o maior harém possível. Da mesma forma, entre fêmeas de algumas espécies de aves (de novo, vamos fazer de conta que isso só acontece com outros bichos), interessa aumentar a variabilidade genética tendo filhotes com outros machos e fazendo o maridão criá-los como se fossem dele.

Na luta pela sobrevivência, os genes são capazes até de provocar comportamentos altruístas. Hamilton propôs que insetos sociais, como as abelhas, só se sacrificam pela colônia porque todas as operárias de uma colméia são irmãs. Assim, a morte de um indivíduo pode aumentar as chances de os genes da colônia sobreviverem. Isso explica também o altruísmo em relação a filhos (50% de genes em comum) ou sobrinhos (25% de genes em comum).

A tese do gene egoísta sofreu contestações por parte de vários pesos pesados do evolucionismo, que apontam corretamente que não é possível dissociar um gene de um indivíduo em particular. Mas tem sido confirmada nos últimos anos graças à descoberta da estampagem genética, fenômeno pelo qual genes vindos do pai “silenciam” no indivíduo genes iguais (alelos) vindos da mãe ou vice-versa, numa verdadeira guerra dos sexos no embrião.

Determinista, eu?

Após a publicação de O Gene Egoísta, Richard Dawkins foi acusado de promover o determinismo genético, noção segundo a qual tudo o que nós somos e fazemos é um produto inexorável dos genes, e não do ambiente ou da cultura. No livro Not in Our Genes (“Nos Nossos Genes Não”), os americanos Richard Lewontin e Steven Rose, para sustentar a acusação, trocaram de propósito um trecho do livro de Dawkins. Onde havia “eles [os genes] nos criaram”, a dupla meteu “eles nos controlam”. Não pediu desculpas até hoje.