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Não há vida sem wi-fi

A nomofobia, o medo de ficar sem smartphone, e a FoMO, o medo de estar perdendo alguma coisa, são as mais novas facetas da ansiedade.

Nada de insetos, cobras, aviões ou elevadores. O que o ser humano contemporâneo teme, mesmo, é ficar longe de seu companheiro de todas as horas: o smartphone. Se as pesquisas cada vez mais numerosas sobre o assunto estão certas, é bem provável que você também sofra desse mal chamado nomofobia (abreviação de no-mobile-phone-fobia, ou fobia de ficar sem celular).

Cerca de dois terços dos americanos e uma porcentagem semelhante entre os britânicos se consideram nomofóbicos. O nome é estranho, mas a situação é familiar. Você já deve ter se sentido ansioso ao esquecer o telefone em casa ou ao ficar com a bateria zerada sem um carregador por perto. Se as fobias descritas pela psiquiatria são medos irracionais, a nomofobia não é difícil de compreender. O smartphone se tornou o canivete suíço da vida contemporânea: a ferramenta com a qual enfrentamos os desafios do dia a dia. É nossa agenda de contatos e de compromissos. Nosso relógio. Nosso centro de entretenimento. Nossa câmera e nosso álbum de fotos. É, além de tudo isso, nosso principal instrumento de comunicação com as pessoas e com o mundo.

Estar longe do celular é como estar desorientado e desconectado da realidade. E isso provoca ansiedade. Ao analisar os dados de uma das mais profundas pesquisas sobre a nomofobia, pesquisadores da Universidade de Iowa (EUA) concluíram que a angústia é desencadeada por pelo menos quatro componentes: não ser capaz de se comunicar com as pessoas, perder a conexão em geral, não ter acesso à informação e por simples conveniência. As consequências para a saúde, no entanto, ainda não ficaram tão claras.

“Por enquanto, não temos estudos científicos longitudinais para poder avaliar a prevalência da nomofobia e os problemas decorrentes dela ao longo dos anos, até porque é algo relativamente recente e que tem mudado de características”, diz Sylvia van Enck Meira, psicóloga do Programa de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Se o acesso aos jogos pelos computadores de mesa já era algo que preocupava, a questão do acesso às redes sociais por meio dos smartphones é algo ainda mais intenso e alarmante.”

Nos anos 2000, as reportagens sobre dependência de tecnologia tinham um personagem típico. Eram crianças e adolescentes viciados em games, aquele seu amigo (ou você mesmo) que varava madrugadas jogando em casa ou nas lan houses. Agora, as redes sociais são como um game que todos jogam e o maior adversário é você mesmo, sua ansiedade e as coisas que deixa de fazer para acumular atualizações e likes, que ativam áreas responsáveis pelo prazer no cérebro – na verdade, os mesmos pontos ativados quando comemos um doce ou ganhamos dinheiro. E ficamos viciados nessa sensação.

O medo de ficar de fora

Uma explicação em voga é de que nossa ligação exagerada com as redes não passa de um medo irracional de ficar por fora. O fenômeno tem nome: FoMO, ou fear of missing out. Desde 2013, o termo integra o Dicionário Oxford. Garanto que você já ouviu falar… não? Como você perdeu essa?

Brincadeiras à parte, o FoMO é coisa séria – tem sido apontado como uma das forças motrizes do vício em redes sociais. É que a web nos bombardeia com tanta informação sobre festas, notícias, memes viagens que sentimos que tem sempre algo incrível que nosso radar não captou por aí.

O fenômeno é especialmente preocupante na adolescência, fase em que status e relacionamentos andam de mãos dadas com a autoestima, e o temor de ser o único a não saber dá uma goleada na vontade de prestar atenção na aula, por exemplo. Mas o FoMO também está por trás de condutas perigosas de gente mais velha, como acessar as redes sociais e dirigir ao mesmo tempo. Por medo de ficar por fora, muita gente checa as redes sociais ao despertar de madrugada, ou tem delírios de que o telefone vibrou anunciando uma nova mensagem, quando não há nada.

Apesar dos exemplos atuais, o FoMO não é um fenômeno novo, mas um reflexo de nossa própria condição. “O que diferencia o humano dos outros animais é que temos a capacidade de entender o tempo. E o tempo é pautado pela ideia de morte: de que as coisas duram, mudam e acabam. Ao saber que não vai viver para sempre, você precisa fazer escolhas. E, quando você escolhe, está perdendo outras coisas que não vai ter como recuperar”, diz a psicóloga Ana Luiza Mano, professora de cursos de extensão da PUC-SP.

Criador do termo, o psicólogo experimental britânico Andrew Przybylski, do Instituto de Internet de Oxford, comandou pesquisas sobre os traços psicológicos que podem tornar as pessoas mais vulneráveis. “Nossa compreensão atual é de que a privação das necessidades psicológicas básicas de competência, autonomia e um sentimento de pertencimento pode contribuir para as sensações de FoMO”, disse Przybylski em entrevista à SUPER.

A impressão de estarmos sempre deixando algo passar gera angústia. O medo de ficar por fora passa a ser patológico quando, “ao não conseguir ter informação sobre tudo, você se sente mal, tenta incessantemente fazer isso acontecer e sempre se frustra”, afirma Ana Luiza. Pessoas com mais dificuldade de abrir mão do controle sobre as escolhas e o futuro estarão mais propensas a experimentar ansiedade.

Você é dependente?

Os critérios para dependência de internet são semelhantes ao de transtornos de ansiedade e de dependência de substâncias: levam em conta o sofrimento e o prejuízo que o uso traz para a vida das pessoas. Se você apresenta cinco dos critérios abaixo, procure ajuda.

1. Preocupação excessiva com a sua imagem na internet

2. Necessidade de aumentar o tempo conectado para ter a mesma satisfação

3. Exibir esforços muito grandes para diminuir o tempo de uso da internet

4. Apresentar irritabilidade e/ou depressão

5. Quando o uso da internet é restringido, você oscila de humor

6. Permanecer mais conectado do que o programado

7. O uso excessivo põe em risco o trabalho e as relações familiares e sociais

8. Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas conectado

Fonte PRO-AMITI (USP)

Nem tudo está tão claro

Em 2015, o centro de pesquisa PewResearch, em Washington, produziu um levantamento sobre a relação entre redes sociais e stress. “Faz sentido se perguntar se o uso da tecnologia digital cria stress”, dizia o texto de apresentação. “Há mais informação fluindo pelas vidas das pessoas agora do que nunca – grande parte dela angustiante e desafiadora. Há mais possibilidades de interrupções e distrações. É mais fácil rastrear o que os amigos, conhecidos e desafetos estão fazendo. Há mais pressão social para divulgar informações pessoais.” O estudo se propôs a avaliar o risco dos efeitos negativos que o stress tecnológico pode causar. Mas os resultados não confirmaram a suspeita.

Cruzando um questionário que detectou o nível de stress dos participantes com outro sobre o uso das redes sociais, os pesquisadores concluíram que, em homens, não havia correlação clara entre os dois fatores. Ou seja, quem acessava mais as redes sociais não necessariamente era também mais estressado. Em mulheres, revelou-se inclusive uma tendência a menos stress entre aquelas que compartilhavam mais fotos, trocavam mais e-mails e utilizavam mais o Twitter.

Mas a pesquisa foi sobre o efeito do uso das redes sociais no estado emocional. E se os participantes fossem privados dessas ferramentas, o que ocorreria?

(Zé Otávio/Superinteressante)

Mundo virtual, sintomas reais

“Para quem tem dependência, de fato, muitas vezes a abstinência gera sintomas, ainda que momentâneos, semelhantes à abstinência de álcool e drogas. A pessoa fica tensa, apresenta sudorese, taquicardia, pode entrar em depressão”, diz Sylvia van Enck Meira.

Como em outros transtornos, não se pode avaliar a dependência tecnológica pelo tempo que passamos conectados, mas pelo prejuízo que o uso – ou a privação dele – provoca em nossas vidas. O usuário dependente não consegue fazer atividades como comer, dormir, estudar ou trabalhar sem a interferência do uso da internet. Quando a pessoa precisa, acima de tudo, estar conectada e deixa de fazer coisas da rotina, é que precisa de tratamento.

Como ocorre com as drogas, a tecnologia acaba sendo usada como distração e mesmo “automedicação” para os momentos de tédio ou preocupação.

Segundo Andrew Przybylski, um tema quente no meio científico é o que vai ocorrer no futuro, na medida em que há cada vez mais produção de informação, mas o ser humano permanece o mesmo – e com a mesma capacidade de absorver coisas novas. Segundo a consultoria Gartner, até 2020, serão 6,4 bilhões de dispositivos conectados no mundo, de geladeiras a tênis. Quando estivermos imersos nessa Internet das Coisas, e o mundo ao nosso redor não perder mais informação alguma, vai ficar ainda mais difícil nos livrarmos desse vício. “