Trabalho

Conselhos errados: "Não deixe pra amanhã o que você pode fazer hoje"

Em tempos de febre workaholic, a máxima é ainda mais irresistível. Um pouco de ambição - ou culpa pelos momentos de distração do expediente - já basta para você decidir sacrificar uma noite de sono a fim de botar o trabalho em dia. Cuidado: o tiro pode sair pela culatra

por Ana Carolina Prado

Se você é do tipo que não para o que está fazendo nem para almoçar, saiba que não está sozinho. Em 2011, uma enquete da American Dietetic Association com 2 191 americanos que trabalham período integral em escritórios descobriu dados assombrosos: entre os de 18 a 24 anos, 37% tomam o café da manhã em sua mesa de trabalho, 70% almoçam e 10% jantam sem sair do computador. Outro levantamento, feito pela multinacional Regus em 12 mil entrevistas com profissionais de 85 países, detectou que um terço deles trabalha de 9 a 11 horas por dia. No Brasil, 17% das pessoas ralam até mais do que isso.

A competição, a pressão por resultados melhores nas empresas, o aumento do custo de vida, tudo isso favorece, segundo os especialistas, a febre workaholic que está tomando conta do mundo. E, com isso, a tal lista de "coisas a não serem deixadas para amanhã" ficou tão grande que deixou de ser um parâmetro confiável. E se, toda vez, ao fim de um longo dia de labuta, você tem aquela sensação de que não rendeu o suficiente, pode apostar: a febre te pegou. E lá vão mais 3 horas no computador.

Má notícia: pode até ser que seu rendimento melhore um pouco em dias de hora extra. Mas a médio prazo não vai funcionar. São várias as pesquisas ao redor do mundo mostrando que adotar uma carga horária excessiva pode levar ao esgotamento físico e mental. No pacote dos efeitos colaterais entram estresse, depressão, hipertensão, fadiga crônica, problemas no coração e no sistema digestivo.

Um dos estudos mais importantes nesse sentido, conhecido como "The Whitehall Study", vem sendo conduzido desde 1967 por cientistas da Universidade de Londres com servidores públicos ingleses. Entre os vários dados levantados, um é bem alarmante: trabalhar demais pode prejudicar a capacidade cognitiva do nosso cérebro, que está relacionada à forma como conseguimos reter informações e estabelecer relações entre elas. E mais: os danos podem ser permanentes. De acordo com a pesquisa, pessoas que trabalham mais de 55 horas semanais (ou 11 horas diárias) demonstraram habilidades mentais inferiores àquelas que mantêm uma jornada semanal de 40 horas ou menos. Elas têm problemas envolvendo raciocínio, uso de vocabulário, memória de curto prazo e compreensão de texto, além do agravamento de problemas de depressão. Para chegar a essa conclusão, foram comparados os resultados de testes de cognição aplicados em mais de 2 mil pessoas, com intervalo de anos entre eles.

Para os pesquisadores, isso provavelmente está associado a tudo aquilo que deixamos de lado em favor de algumas horas a mais de obrigação: dormir, comer, fazer esporte, sexo, cultivar relacionamentos, se divertir. E, a longo prazo, quem trabalha demais pode ficar gagá muito antes da hora.

Os estudos que mostram como pessoas estressadas têm seu desempenho cognitivo prejudicado apontam para a ação do sistema neuroendócrino, que estimula a secreção de 3 hormônios no cérebro: adrenalina, norepinefrina e cortisol. Eles são os responsáveis pelo estado de excitação e alerta e, quando em excesso, podem comprometer as funções imunológicas e a qualidade do sono. Uma pesquisa feita em conjunto pela Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de São Paulo e a Universidade de Stanford, nos EUA, descobriu que o cortisol, por caminhos ainda não totalmente compreendidos, aciona no interior dos neurônios uma proteína associada à inflamação e à toxicidade celular. Em concentrações baixas, seu efeito é benéfico e ajuda a combater micro-organismos invasores, mas, em excesso, ela parece destruir as células que deveria proteger. Em suma, mata neurônios.

Melhor seria mudar o foco do conselho: "não deixar para amanhã" pode ser uma boa dica quando se referir a uma boa noite de sono. Um estudo das universidades americanas da Pensilvânia e de Harvard detectou que pessoas que dormiram de 4 a 6 horas durante 14 dias consecutivos mostraram um déficit de desempenho cognitivo equivalente ao de quem ficou sem dormir por 3 dias. Elas tiveram problemas para fazer coisas básicas, como manter a atenção ou reagir a estímulos. Ao mesmo tempo, sua capacidade de solucionar problemas ou pensar de forma criativa foi drasticamente reduzida. Isso nos leva a um círculo vicioso, em que o trabalho fica mais difícil de ser realizado e nos obriga a trabalhar por ainda mais tempo, a fim de resolver questões que seriam solucionadas mais rapidamente se a mente estivesse descansada.

 



NA HORA EM QUE O PRAZO APERTA, A COISA ANDA

Ok, agora você já sabe: não há nada de errado em deixar um pouco de trabalho para o dia seguinte. Pode até fazer bem, inclusive. Mas, aí, você deve tomar cuidado com o outro extremo: deixar para fazer tudo amanhã. Isso é diferente de adiar uma tarefa porque surgiram outras que são prioritárias. Ao procrastinar, você sabe muito bem o que precisa fazer, mas vai enrolando o máximo que pode. "É preciso entender que toda procrastinação é um adiamento, mas nem todo adiamento é procrastinação", sustenta o psicólogo canadense Timothy A. Pychyl em seu livro The Procrastinator¿s Digest: A Concise Guide to Solving the Procrastination Puzzle. Ele dá um exemplo: "Hoje aconteceu uma tempestade de neve e o ônibus escolar de meus filhos foi suspenso. Eu tive de levá-los para a escola de carro e, para isso, precisei deixar algumas de minhas tarefas para depois. Todos precisamos fazer coisas assim às vezes".

O procrastinador, por outro lado, adia uma tarefa necessária, porém desagradável, apenas para realizar uma atividade mais prazerosa ou atividade nenhuma, mesmo sabendo que terá problemas por causa disso no futuro. É o que ocorre, por exemplo, quando seu chefe te dá uma semana para entregar um relatório e você só começa a fazê-lo no último dia, na loucura. Segundo o professor Pychyl, ao contrário do adiamento, não temos nada a ganhar quando procrastinamos, mas muitos o fazem pelo simples prazer momentâneo de priorizar tudo aquilo que é mais agradável. Por agradável, leia-se qualquer outra coisa que não o seu trabalho - há quem fique horas arrumando as gavetas ou resolvendo burocracias simples, porém chatinhas.

Uma das comparações de estudos mais recentes sobre o tema foi conduzida por outro especialista, Piers Steel, da Universidade de Calgary, no Canadá. Ele concluiu que a procrastinação quase sempre está associada a um pior desempenho nas tarefas. O que não é difícil de entender: deixando tudo para a última hora, você tem menos tempo para fazer as coisas, o que pode resultar em um trabalho malfeito. Mas, geralmente, os enrolões pensam de outro modo. Segundo o estudo "Doing the Things We Do: A Grounded Theory of Academic Procrastination", publicado em 2007 no Journal of Educational Psychology, eles acreditam que são melhores trabalhando sob pressão e, ao começar uma tarefa quando o prazo está se esgotando, conseguem ter melhores ideias. Para o professor Pychyl isso é autoengano: "Dizem isso para si mesmos como estratégia para reduzir o mal-estar que sentem por não estar fazendo o que deveriam".

Ainda não há evidências científicas claras que expliquem por que isso acontece, mas os pesquisadores Laura Rabin, Joshua Fogel e Katherine Nutter-Upham, da Universidade de Nova York, têm uma pista. Eles sugerem que a procrastinação está relacionada a uma falha no autocontrole, semelhante ao que ocorre com quem faz compras ou come de maneira compulsiva. Seria uma dificuldade de resistir aos prazeres imediatos - ou ao simples alívio de não ter que começar a tarefa agora. Segundo os cientistas, gente assim não consegue determinar quando começar, manter e encerrar suas ações direcionadas a objetivos específicos.

Se for por aí, o problema dos que sempre deixam para amanhã pode estar no córtex pré-frontal. "Pesquisas têm relacionado a procrastinação a problemas nessa parte do cérebro, que é responsável pela organização de planos, objetivos e direções", explica o professor Timothy Pychyl. Além de cuidar do gerenciamento de funções cognitivas como a atenção, os impulsos, o planejamento e o autocontrole, essa área também se comporta como um filtro para a diminuição dos estímulos das outras regiões cerebrais. Danos aí podem reduzir a capacidade da pessoa de filtrar as tentações que a distraem, como ocorre com quem tem transtorno do déficit de atenção com hiperatividade.

E quem disse que é fácil? Para Piers Steel, se no mundo de hoje somos atolados por tarefas, somos também por distrações. "Há mais atividades desejáveis competindo por nossa atenção", diz. Então, cuidado redobrado. Deixar tudo pra amanhã pode ser tão ruim quanto querer fazer tudo hoje. E dá-lhe serão da madrugada.

 



Para saber mais

The Procrastinator's Guide to Getting Things Done.
Monica Ramirez Basco, The Guilford Press, 2009.


Site
http://procrastinus.com/

 


Como vencer a procrastinação

A verdade é dura: para não deixar tudo para depois, o jeito é impor limites a si mesmo - ou seja, aceitar que a liberdade, às vezes, é nossa grande inimiga.

Se você não teve vontade de realizar uma tarefa agora, não se engane achando que vai ter vontade de fazê-la amanhã. Tenha consciência de que seu sentimento em relação a ela provavelmente não mudará.

Comece. Nossa percepção sobre as tarefas geralmente muda quando as começamos e percebemos que não eram tão chatas ou tão impossíveis quanto pareciam.

Ajude-se. Se você sabe que precisa fazer uma tarefa mais complicada, livre-se de tudo aquilo que pode te distrair. Feche o e-mail, o chat, desligue a tevê.

Tenha uma estratégia autorregulatória que estabeleça precisamente quando, onde e como você vai agir para vencer a procrastinação. Isso vai te ajudar a focar nos seus objetivos e criar novos hábitos. Para melhorar seu desempenho escolar, por exemplo, você pode pensar em algo como "se um professor pedir um trabalho, vou começar a fazê-lo no mesmo dia". E cumprir, claro.

Veja suas tarefas como algo concreto. Pegue os materiais de que você precisará para realizá-las e deixe-os à vista. Quando não as enxergamos dessa maneira, temos a tendência de deixá-las para o futuro.

Nem pense em passar no Facebook ou sites do tipo por um minutinho antes de terminar a tarefa. As redes sociais não necessariamente causam a procrastinação, mas a estimulam: um segundo desviado para postar algo em seu mural basta para que você ache outros interesses e estímulos para ficar por lá horas a fio.

 

 

publicidade

anuncie

Super 339 - Humanos: caem as fronteiras entre nós e os animais Novas descobertas deixam claro: chimpanzés têm idiomas, cultura, fazem política, tecem redes sociais e praticam caridade. Chegou a hora de conferir direitos humanos a eles? Assine a Super Compre a Super

Superinteressante ed. 339
novembro/2014

Humanos: caem as fronteiras entre nós e os animais
Novas descobertas deixam claro: chimpanzés têm idiomas, cultura, fazem política, tecem redes sociais e praticam caridade. Chegou a hora de conferir direitos humanos a eles?

- sumário da edição 339
- folheie a Superinteressante

Você está na área: Cotidiano

publicidade

anuncie