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Lençois de areia

No Estado do Maranhão, o deserto é diferente. É único no mundo. Tem até chuva, e muita.

Ivonete D. Lucirio

Vista de avião, a paisagem lembra um imenso quintal coberto de panos brancos postos para secar ao sol, ondulados pelo vento. De perto, a gente descobre que tanta beleza é formada por enormes montanhas de areia, capazes de mudar de lugar e de forma conforme o movimento do ar. Os Lençóis Maranhenses, como é conhecida a região, são um espetáculo da natureza que se espalha por 1 500 quilômetros quadrados (o mesmo tamanho do município de São Paulo), cientificamente reconhecido como deserto. Mas um deserto estranho. Tem duas estações climáticas bem definidas. Em uma delas até chove, e muito. De janeiro a junho, a média de chuvas é de 1 500 milímetros, 300 vezes mais do que a média do Saara, na África. Com tanta água, as dunas maranhenses ficam entremeadas por milhares de lagoas. “Mas, de julho a dezembro, é uma secura só”, disse à SUPER o geólogo marinho Edgard Freitas Parouco, da Universidade Federal do Maranhão. Mesmo assim, existem dois oásis de vegetação bem no meio desses montes de areia rica em quartzo. Em volta deles cresce mata de cerrado, com árvores baixas. Para proteger esse pedaço do Brasil – o único com essas características em todo o mundo –, em 1981 foi tombado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, sob proteção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. A medida não mudou muito o cotidiano do lugar, que continua praticamente isolado. Há uma única e péssima estrada, de 380 quilômetros, que liga São Luís, capital do Estado, a Barreirinha, cidade mais próxima ao parque. A opção é descer de barco pelo Rio Preguiça. Mas é preciso esperar baixar a maré que todos os dias invade o rio. Por isso, poucos aventureiros encaram o desafio de chegar ao areal. Isso garante a tranqüilidade das mil famílias que habitam a região, das tartarugas e das centenas de pássaros migrantes que se alimentam na borda costeira do deserto, vindos do Alasca.

Lençóis de vento

Dunas e lagos azuis que não param no lugar

Se você foi aos Lençóis em maio e voltar lá agora, em outubro, pode levar um susto: cadê as lagoas que estavam aqui no primeiro semestre? É que o deserto maranhense vive se mexendo, um fenômeno de autoria da dupla água e vento.

Com as chuvas que caem na primeira metade do ano, afloram os lençóis freáticos (de água subterrânea). A água então vai se acumulando nos vales entre uma duna e outra, formando lagos de água doce, alguns com mais de cem metros de extensão. Em agosto, porém, pára de chover. Aí, o sol quente, com temperatura média de 32 graus, seca os lagos. Em dezembro, é só areia, apenas os rios resistem. Em janeiro, o ciclo de chuvas se repete e as lagoas voltam a se formar. Mas todo ano elas mudam de lugar e contorno, acompanhando a movimentação das dunas.

Os montes de areia andam graças aos alísios, ventos que sopram na parte mais baixa da atmosfera, sempre na direção litoral-interior. “Alguns cálculos indicam que as dunas avançam entre 15 e 20 metros por ano”, conta o geógrafo Antônio Cordeiro Feitosa, da Universidade Federal do Maranhão. O movimento nunca pára e, numa dessas, a areia já soterrou vilas e até um aeroporto, em 1979, na cidade de Tutóia. O deserto vai crescendo. Há relatos indicando que, no início da década de 70, os Lençóis se estendiam apenas 20 quilômetros continente adentro. Hoje, alcançam 50 quilômetros.

Os rios que alimentam o mar e a terra

Em nenhum canto do planeta o mar é capaz de produzir areia. Ele a consome, isso sim. Nos Lençóis, quem produz os grãos são os rios. Eles escavam o leito por onde vão passando e carregam minúsculos fragmentos de rocha rumo ao litoral. Um dos principais é o Parnaíba, que desemboca na divisa entre Piauí e Maranhão e arrasta sedimentos até o mar. As correntes marítimas no Brasil se movimentam de sul para norte e vão espalhando os grãos pela costa.

As marés – duas altas e duas baixas no mesmo dia – lançam sobre a praia uma areia composta por grãos muito finos. Com o sol, ela seca e os ventos fortes, especialmente em outubro e novembro, levam-na de volta ao continente. O ar razoavelmente seco facilita o transporte. Assim que encontram um obstáculo, que pode ser um pequeno arbusto, uma pedra ou mesmo outra duna, os grãos se depositam na superfície.

O principal tipo de duna que se forma nos Lençóis é chamado de barcana. Ela se parece com uma meia-lua (veja o infográfico acima) e a parte convexa, a “barriga”, fica voltada para a direção do vento. A areia se acumula no topo da duna e depois, por desmoronamento, escorrega para trás. “Esse processo, que já espalhou areia por 270 quilômetros de extensão ao longo da costa e 50 quilômetros para o interior, começou cerca de 11 000 anos atrás”, diz o geólogo Edgard Freitas Parouco. “E não vai parar tão cedo. Os rios devem continuar carregando sedimentos por pelo menos mais alguns milhares de anos”.

Lençóis de água

Ciclos naturais mudam a rotina da paisagem

Além das famílias que teimam em morar no deserto, mudando cada vez que as casas são invadidas pela areia, os Lençóis servem de moradia para várias espécies de animais. No cerrado que contorna as dunas encontram-se guaxinins e macacos do tipo guariba e prego. A porção costeira serve de abrigo para pássaros que migram do Pólo Norte e para a desova de tartarugas marinhas. Até uma nova espécie de tartaruga de água doce foi encontrada na região (veja abaixo).

Mas o ciclo natural mais curioso dos Lençóis acontece nas lagoas. Quando a chuva chega, em janeiro, elas se enchem de peixes como se fosse mágica. Mas não é. Durante a seca, os animais domésticos da região deixam fezes na areia. Quando vêm as águas, o dejeto vira comida para as larvas de insetos, o alimento preferido dos peixes. Algumas lagoas crescem tanto que se ligam a braços de rios ou lagoas já formadas, proporcionando o vai-e-vem aquático e a multiplicação dos peixes. Assim, as novas lagoas fazem a alegria dos pescadores. “Pode ser que também existam lá peixes que põem ovos resistentes à falta de água”, diz o biólogo Antônio A. Rodrigues, da Universidade Federal do Maranhão. “Esses ovos provavelmente ficam enterrados na lama que sobra onde havia a lagoa e, com a chuva, se abrem.”

Dois oásis resistem no meio do deserto

Existem dois focos de vegetação em Lençóis. O maior se chama Queimada, com 6 quilômetros de extensão por 3 de largura, formado de arbustos e árvores de frutos tropicais, como caju, que servem de alimento para a população local. “Realizamos um estudo e encontramos ali espécies características da Mata Amazônica”, diz o biólogo Nivaldo de Figueiredo, da Universidade Federal do Maranhão. Para ele, as plantas podem ser resquício da mata pré-Amazônica que deve ter coberto parte do Maranhão até três milhões de anos atrás.

O outro oásis é Baixa Grande, com características parecidas e metade do tamanho de Queimada. Com certeza já foi maior. “Sempre encontramos troncos enterrados no deserto”, conta Nivaldo. Só não se sabe por que os dois focos de flora ainda não foram cobertos pela areia. Os biólogos acreditam que, por serem mais úmidos, eles brecam o avanço das dunas.

Fora dali, a flora ainda teima nos Lençóis. Nas margens dos rios a vegetação é de mangue, baixa e pobre porque o solo é salino. Mas, como nada é comum nesse lugar, as árvores chegam a 15 metros de altura. “Não se conhecem árvores de mangue tão altas em todo o Brasil”, diz Nivaldo. Rodeando o deserto encontra-se o típico cerrado, com plantas retorcidas e de casca grossa. Bem menos exuberantes que os manguezais ou os oásis, são essas árvores baixas que, barrando a passagem da areia, conseguem conter sua fúria e evitar que elas cubram as cidades que se instalaram ao redor do parque. Por enquanto.

PARA SABER MAIS

Maratur – Empresa Maranhense de Turismo, tel.: 098 221 1276 e 232 5667

Jogo de empurra no litoral maranhense

A areia que forma o deserto foi levada para o mar pelos rios e devolvida para o continente pelos ventos.

1 – Rio abaixo

O rio escava o leito por onde passa e carrega sedimentos que são depositados na costa.

2 – Terra firme

Na maré baixa, o vento leva a areia de volta para o continente, formando dunas.

3 – Férias no mar

Os grãos são carregados pelas correntes marinhas, que os empurram no sentido sul-norte.

A tartaruga inédita

Conhecida como pininga, esta espécie só existe no Maranhão.

Vinte anos atrás, o pesquisador Antenor Leitão de Carvalho, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, entrou no laboratório do biólogo Paulo Vanzolini, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), com uma tartaruga debaixo do braço. Carvalho queria estudá-la mas, por falta de tempo, o animal acabou se aboletando em seu jardim e gerando filhotes. Há quatro anos, Vanzolini decidiu recolher algumas dessas tartarugas para analisá-las. “Com a ajuda de uma aluna maranhense, em 1993 descobri que se tratava de um animal das lagoas dos Lençóis conhecido como pininga”, diz Vanzolini. Terminada a pesquisa, o biólogo da USP não teve dúvidas de que era uma nova espécie de tartaruga. Um dos traços característicos são faixas e círculos em amarelo e laranja na carapaça.

O milagre dos peixes que se repete todo ano

Veja como se forma a cadeia alimentar que sustenta os pescadores da região.

1 – Andando por aí

No período de estiagem, os animais que pastam por ali depositam fezes na areia, que também pode ter ovos de peixes enterrados.

2 – Chove chuva

No primeiro semestre, alguns lagos se enchem tanto de água que se ligam temporariamente a rios e outras lagoas maiores.

3 – A caça e o caçador

Os insetos depositam na lagoa suas larvas que se alimentam das fezes. As larvas, por sua vez, viram comida de peixe.

4 – Banquete aquático

Alguns peixes migram dos rios para os lagos atrás de alimento e se reproduzem enquanto outros ovos de peixe enterrados na areia se abrem.