Um vândalo no estômago é responsável pela úlcera

Cientistas consideram o microorganismo Helicobacter pylori como o causador da úlcera. Com remédios para combatê-lo, a doença deixou de ser um tormento para toda a vida.

por Rose Guirro

Cientistas acusam o microorganismo Helicobacter pylori como o causador da úlcera. Com remédios para combatê-lo, a doença deixou de ser um tormento para toda a vida. Já não são proibidos o cafezinho, a cerveja e a feijoada


Há alguns anos, se um médico prescrevesse antibióticos a um paciente com úlcera gástrica ou duodenal, seria tachado de louco. Pior seria se ele não recomendasse uma dieta rigorosa ao doente, regada a litros e litros de leite. Pois é isso o que acontece hoje. O paciente não segue nenhuma dieta, não toma leite e as cirurgias são raras. “A medicina é a ciência das verdades transitórias”, brinca o gastroenterologista Moacyr Pádua Vilela, professor da Escola Paulista de Medicina. Essa revolução deu seus primeiros passos em 1983, quando dois pesquisadores australianos, Barry J. Marshall, médico clínico, e R. Warren, patologista, descobriram que a bactéria Helicobacter pylori é a grande responsável pela formação de úlceras — ou feridas — no estômago e duodeno, que faz a ligação com o intestino delgado. Dez anos depois, essa tese é aceita em todos os centros de pesquisa do mundo, tanto que no ano passado a revista inglesa Nature classificou a gastrite e úlcera como doenças infecciosas. A descoberta e depois o desenvolvimento de medicamentos para combater a tal bactéria foram comemorados. E por bom motivo: 5% a 10% da população mundial tem úlcera.

De forma alongada, a Helicobacter pylori parece uma taturana e vive, de preferência, onde faltam higiene, esgotos e água tratada. Ela se reproduz apenas no estômago humano e pode ser transmitida pela saliva. Possui seis flagelos, espécie de cílios longos que lhe permitem nadar velozmente no suco gástrico. Durante seu passeio, vai produzindo uma série de substâncias tóxicas, chamadas citocinas, que infectam e destroem a mucosa gastroduodenal, grudando-se nas células de revestimento do estômago. Dessa forma, causa uma irritação muito forte na parede estomacal e produz lesões, às vezes imensas crateras na mucosa gastro-duodenal.

“Mais da metade dos adultos possui a bactéria no organismo”, explica o médico Antônio Frederico de Magalhães, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e considerado um dos maiores pesquisadores da Helicobacter pylori no Brasil. Por que, então, nem todas as pessoas desenvolvem a úlcera? “É necessário que se tenha predisposição genética”, esclarece Magalhães. A presença da bactéria é constatada por meio de endoscopia, com a retirada de um pequeno fragmento do tecido da região danificada. Confirmada a existência da Helicobacter, entram em cena os antibióticos.

O tratamento se faz com um coquetel de remédios à base de sal de bismuto, furazolidona e tetraciclina ou amoxilina, que pode curar a doença em uma semana. São cerca de dez comprimidos diários, ingeridos separadamente. O paciente também toma o chamado bloqueador H2, que inibe a formação de suco ou ácido gástrico. “A esperança é que seja desenvolvido um remédio único para facilitar a vida dos doentes”, sonha Magalhães, que há cinco anos receita a mistura de antibióticos, com muito sucesso. Dos últimos 290 pacientes tratados na Unicamp e em sua clínica particular, 260 (quase 90%) ficaram livres das úlceras. Esse grupo foi acompanhado antes de iniciar o tratamento, durante e depois de dois anos de cura. “A reinfecção pela bactéria é possível, podendo ou não se desenvolver uma nova úlcera, mas a chance é pequena, de apenas 10%”, comemora o médico.

Existem outros tratamentos para as úlceras. Muitos médicos preferem ministrar, por oito semanas, remédios que diminuem ou bloqueiam a fabricação do ácido clorídrico (HCl), principal ingrediente do suco gástrico. O índice de cura também é alto: 95%. Mas, diz o professor da Unicamp, com esse tratamento a doença pode voltar mais facilmente. O cirurgião Thomas Szego, do Hospital das Clínicas e do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, explica que o estômago produz o ácido clorídrico para digerir os alimentos. Já o duodeno recebe enzimas e bicarbonato de sódio fabricados pelo pâncreas. Essas substâncias, em geral, não causam lesões porque existem fatores de defesa, como o muco estomacal. “Para surgir uma úlcera, tem de haver algum desequilíbrio. Se o ácido aumentar, ou o muco diminuir, abre-se o caminho para a formação de úlceras”, afirma Szego.

No caso da diminuição do muco surge uma úlcera no estômago. Já no caso do aumento de secreção ácida, abre-se a ferida no duodeno. Apesar de possuírem uma aparência semelhante — como uma ferida sem a casca — os dois tipos apresentam sintomas diferentes. No caso do duodeno, costuma-se dizer que existe uma dor em três tempos: dói, come, passa. “A dor tem horário certo, em geral longe das refeições”, explica Szego.“Quando a pessoa come, a ferida deixa de ficar exposta e a dor some.” Quem tem esse tipo de problema costuma assaltar a geladeira durante a madrugada. Só assim é possível aplacar a dor e voltar a dormir. Já a úlcera gástrica dói em quatro tempos — dói, come, dói, passa. Ou seja, a dor também é mais freqüente nos períodos de jejum, mas assim que o doente come, ela aumenta, por causa do atrito dos alimentos no estômago sensível. “Em seguida, a comida neutraliza o ácido”, diz o médico Szego. Alto, forte e com uma barba bem tratada, ele dá mais uma lição: “Não existe relação entre o tamanho da ferida e a intensidade da dor”.

Também não é verdade que as doenças estomacais sigam uma seqüência predeterminada: gastrite, úlcera, tumor. Para início de conversa, úlcera e gastrite são problemas bem diferentes e um não leva a outro necessariamente: a primeira é uma lesão, enquanto a última é uma inflamação na mucosa. Quando ocorre, o interior enrugado do estômago fica inchado. Daí muda de cor, passando de rosado a vermelho. A gastrite é menos grave do que a úlcera, porém muito mais difícil de curar. “Até porque a gastrite não é uma doença, mas uma conseqüência natural do envelhecimento do estômago”, garante o médico Moacyr Vilela. “Depois dos 40 anos, é normal a pessoa ter esse problema.” Com um ar professoral, depois de passar sua vasta experiência a centenas, talvez milhares, de novos médicos, Vilela explica que existem dois tipos de gastrite, a aguda e a crônica. No primeiro caso, o doente sente náuseas, azia e dor no estômago. Muitas vezes, chega a vomitar. Mais raramente, pode ter hemorragia. Todo esse desconforto é causado pela contaminação por agrotóxicos ou, ainda, por ingestão exagerada de comida contaminada, álcool e remédios antiinflamatórios. “Estes medicamentos são os mais utilizados no mundo. Basta a pessoa sentir uma dor, para se automedicar”, condena Vilela. Em excesso, os antiinflamatórios podem até provocar úlcera.

Mas, afastado o fator agressivo, o estômago se regenera rapidamente, curando-se da gastrite aguda. Para isso, ajudam os antiácidos e remédios que recomponham a mucosa. Em algumas pessoas, porém, há uma tendência do organismo para fabricar substâncias inflamatórias. Estas padecem de gastrite crônica: sentem azia, a digestão é difícil e arrotam muito. Infelizmente, a descoberta da Helicobacter pylori não trouxe alegrias a quem sofre de gastrite. “Embora a presença da bactéria seja uma constante nesses pacientes, os antibióticos não surtem o mesmo efeito que para a úlcera”, lamenta o gatroenterologista Magalhães, da Unicamp.

Isso reforça a tese do envelhecimento do estômago, defendida por Vilela. Para ele, o tratamento para gastrite crônica deve ser sintomático. “Doeu, toma remédio; caso contrário, vida normal.” Tão normal que nem dieta ele recomenda aos pacientes. “Não posso obrigar o coitado a ficar sem comer uma série de coisas durante toda a vida”, justifica. Recomenda, apenas, que na fase aguda da doença sejam evitadas frituras e condimentos.

Quanto à possibilidade de uma úlcera se tornar um tumor, os médicos afirmam que é pequena. “Câncer no duodeno é praticamente inexistente”, conta Szego. No caso do estômago, acontece que, muitas vezes, o tumor tem a aparência de uma úlcera e exames malfeitos podem confundir e adiar o tratamento adequado — daí a idéia errada de que a falsa úlcera teria se transformado em câncer. O certo seria o paciente com uma suposta úlcera gástrica se submeter à biópsia, para ter garantia do diagnóstico.

 

“O câncer gástrico é perfeitamente curável”, tranqüiliza Szego. E, se o que houver, for de fato apenas uma úlcera, dificilmente o paciente terá de se submeter a uma cirurgia. Hoje, ela é recomendada em alguns poucos casos:

1)Se houver perfuração do órgão e a dor abdominal for muito intensa;

2) Se houver hemorragia e o paciente perder grande quantidade de sangue. Isso normalmente ocorre quando a ferida fica sob um vaso sangüíneo;

3) Em casos de estenose, ou seja, dificuldade de esvaziamento do estômago. A estenose acontece quando a úlcera fica na junção entre o estômago e o duodeno, impedindo que os alimentos sigam na direção do intestino;

4) Se os remédios não fizerem efeito.

 

Nestas exceções, em que a cirurgia é realmente necessária, os médicos podem apelar para três técnicas, de acordo com o problema do paciente: gastrectomia, quando se retira um pedaço do estômago para que a produção do suco gástrico diminua; vagotomia, desligamento do nervo vago para reduzir a produção de enzimas e bicarbonato de sódio no duodeno; e gastrectomia aliada a vagotomia. A descoberta da Helicobacter pylori reduzirá ainda mais o emprego do bisturi. A demora para aceitar o envolvimento do micróbio com as úlceras foi causada por dificuldades de pesquisa: a bactéria só cresce no estômago humano, sendo impossível provar sua culpa em experiências com animais. Por isso, o próprio Marshall, um dos descobridores da Helicobacter, ingeriu uma cultura de bactéria para defender a sua tese. De fato, ele desenvolveu uma gastrite. Outro médico da Nova Zelândia repetiu a experiência e também teve gastrite. Se os dois ti-vessem predisposição genética teriam ganho uma úlcera.

 

 

 

Para saber mais:

As duas faces do estresse (SUPER, número 4, ano 4)

A dura jornada de um sanduíche boca adentro (SUPER, número 12, ano 4)

 

 

 

Verdades e mentiras sobre as feridas estomacais

Existem verdades sobre as feridas no estômago, que as pessoas ignoram, enquando engolem mitos, que já caíram na boca do povo. Há quem acredite, por exemplo, que comidas condimentadas provocam úlcera. Não é verdade. A doença só ocorre quando o organismo tem a bactéria Helicobacter pylori somada à predisposição genética. Quem pertence a famílias de ulcerosos tem mais chances de desenvolver o mal. A partir disso, eis o que se conhece, hoje, sobre o surgimento de úlceras:

Sangue

A bactéria prefere sangue tipo O. Daí que pessoas com esse tipo sangüíneo correm mais riscos.

Alimentos

Os alimentos são apenas coadjuvantes, podendo apressar sintomas de uma doença já existente. Quem tem úlcera também não precisa comer de hora em hora, como os especialistas receitavam antigamente. Um paciente que toma remédios e tem acompanhamento médico pode ingerir de tudo e nos horários normais. Uma dieta moderada é sugerida apenas na fase aguda da doença.

Leite

Passar o dia tomando leite também é coisa do passado. Os médicos garantem que o leite não faz bem nem mal, é neutro. Quem costuma beber leite e tem úlcera deve continuar com a mesma quantidade. Quem nunca bebe leite, não precisa iniciar um novo hábito. Até porque cerca de 90% dos adultos orientais de raça amarela, 50% dos negros e 20% dos brancos não produzem lactase, a enzima que transforma lactose em glicose e, nesse caso, beber leite pode agravar os distúrbios digestivos.

Estresse

O estresse ainda é considerado um vilão coadjuvante, mas não o principal. Em situações de muita pressão pode-se desenvolver uma úlcera ou gastrite, mas o organismo se recupera sozinho. Por isso, quem tem úlcera ou gastrite não precisa tomar calmantes.

Bebidas

Bebidas alcoólicas não são proibidas, garantem os médicos. O álcool, por si, dificilmente causa úlcera. Quem costuma beber grandes quantidades, de estômago vazio, pode terminar com gastrite aguda. Mas pacientes ulcerosos podem tomar um drinque de vez em quando, sem dor na cons-ciência ou no estômago. É só não abusar.

Remédios

Pior que o álcool são os remédios à base de ácido acetilsalicílico, como a popular aspirina. Em excesso, eles destroem a mucosa gástrica.

Cigarro

Outro grande bandido é o cigarro. O fumo é agressivo à mucosa estomacal e pesquisas já comprovaram que ele pode desencadear as úlceras. Além disso, retarda o tratamento, pois a nicotina dificulta a cicatrização. Fumantes têm de tomar 30% a mais de remédios para se curarem. Essa mesma porcentagem é verificada no tempo necessário para a cura. Enquanto um não-fumante se recupera de uma gastrite aguda em dez dias, o fumante precisa de treze dias. O ideal é não fumar. Mas cuidado: se o fumante largar de vez o vício, pode ficar nervoso e, no caso, o estresse será tão prejudicial quanto era o fumo.




Pontos frágeis


Os órgãos do aparelho digestivo que, geneticamente predispostos, podem terminar machucados pela ação de bactérias:


O duodeno

A primeira porção do intestino fica sujeita a lesões quando as secreções ácidas são excessivas

O piloro

É a passagem estreita do estômago para o duodeno, o corredor de entrada do intestino. Capaz de se contrair, o piloro se fecha para reter alimentos ainda não digeridos pelo estômago. Ou se abre para esvaziar esse órgão.

O estômago

Envolvido por nervos, que comandam as secreções de ácido, o órgão fica mais ou menos fragilizado conforme a espessura de suas paredes. Se são muito finas, as bactérias fazem facilmente o maior estrago

A mucosa estomacal

Coberta por um líquido viscoso protetor, a parede interna do estômago é enrugada e repleta de glândulas secretoras de ácidos

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