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Alexandre Versignassi Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.

As tensões internacionais que derrubaram o petróleo

A Rússia trucou. A Arábia Saudita pediu seis. Mas quem se complica feio mesmo são os EUA.

Por Alexandre Versignassi - Atualizado em 10 mar 2020, 15h09 - Publicado em 9 mar 2020, 12h19

O petróleo já estava caindo. Antes de o coronavírius ter reduzido a demanda global, a pasta escura estava a mais ou menos US$ 70 o barril. Na semana passada, já estava a US$ 50 e poucos.

Para dar uma segurada nos preços diante do corona, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) já tinha combinado de cortar sua produção em 1,7 milhão de barris por dia (meia Petrobras).

A Arábia Saudita, prevendo mais recessão, pediu um corte adicional de 1,5 MM b/d. Mas tinha de combinar com os russos, os segundos maiores exportadores.

A Rússia, porém, já estava de saco cheio. Não topou. A interpretação de Putin e cia é a de que cada corte de produção acaba financiando a entrada de novos concorrentes no mercado de exportação de petróleo. Um deles é o Brasil, que dobrou sua produção desde a descoberta do pré-sal.

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Outro, bem mais preocupante para a Rússia, são os maiores produtores de petróleo do mundo. A Venezuela? Não, claro: os EUA. Os americanos produzem hoje 17 MM b/d, contra 12 MM b/d dos sauditas e 11 MM b/d da Rússia. Eles só não são grandes exportadores pq queimam sua parada em casa mesmo.

Nos anos 00, o preço do barril ultrapassou bonito a casa dos US$ 100. Nesse clima, os EUA redescobriram petróleo em seu território. Criaram uma tecnologia cara que extrai petróleo de pedra – mais especificamente daquilo que no Brasil a gente chama de “xisto betuminoso”.

Custa perto de US$ 30 tirar óleo de xisto. Às vezes, o dobro disso. Petróleo barato torna a indústria do xisto inviável. Sem essa indústria, os EUA se tornam dependentes de petróleo estrangeiro. E a Rússia, como mega exportadora, fica com um ás na manga no jogo geopolítico contra a maior potência militar da Terra.

Não podia ser mais racional.

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Diante do truco Russo, porém, a Arábia Saudita pediu seis. Aumentou drasticamente sua produção, reduzindo os preços, para tirar mercado dos russos.

A Rússia, porém, não tem grandes condições de vender petróleo barato. A extração ali tb custa caro. Menos que o xisto, mas custa. Coisa de US$ 17 por barril – contra US$ 2,8 da Arábia Saudita, e US$ 8 da Petrobras.

Caso eles mantenham a tal guerra comercial por muito mais tempo, estarão colocando seus interesses geopolíticos à frente da própria economia do país.

Se vão fazer isso? Não sei.

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Só sei que quem deve se preocupar com a manutenção dos preços baixos é o pessoal que gasta muito para extrair: a própria Rússia e, claro, os EUA.

Para o Brasil, só vai haver problema mesmo quando o petróleo ficar obsoleto. E, pelos caminhões que eu vejo aqui na Marginal, isso ainda não aconteceu.

 


Texto atualizado em 10/03

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