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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Pessoas acima de 55 anos que tomaram Coronavac devem receber 3a. dose de outra vacina, diz estudo

Por Bruno Garattoni Atualizado em 24 ago 2021, 13h32 - Publicado em 24 ago 2021, 13h13

Recomendação é de cientistas da USP, que testaram os anticorpos e as células T presentes em indivíduos de várias idades após a aplicação da Coronavac, e encontraram menor resposta imunológica nessa faixa etária; queda é maior em homens do que em mulheres

O estudo, que foi publicado ontem em regime de pre-print (ainda sem revisão por pares) e é assinado por um grupo de 20 pesquisadores da Faculdade de Medicina, do Hospital das Clínicas e do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e do Instituto Albert Einstein, testou o plasma sanguíneo de 101 pessoas vacinadas com a Coronavac, com idades entre 23 e 90 anos. Para comparação, o trabalho também incluiu 72 “convalescentes” – pessoas que tiveram Covid e se recuperaram, desenvolvendo algum grau de proteção natural contra o vírus. 

Os vacinados estavam totalmente imunizados, pois haviam recebido a segunda dose da Coronavac há pelo menos 28 dias (e os convalescentes já tinham se recuperado da doença, que fora detectada há 160 dias ou mais). Os anticorpos dessas pessoas foram testados contra a variante original do Sars-CoV-2, e os cientistas também mediram a atividade das células T na produção de interferon e interleucina, duas citocinas (proteínas) que controlam a resposta imunológica do organismo.   

95% dos vacinados demonstraram resposta de anticorpos ou das células T (contra 99% dos convalescentes). Tanto em vacinados quanto em convalescentes, os anticorpos demonstraram capacidade neutralizante similar, com uma exceção importante: as pessoas acima de 55 anos. Nesse subgrupo, os anticorpos dos vacinados eram 6 vezes menos potentes do que nos convalescentes.

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Capacidade neutralizante dos anticorpos colhidos em pessoas vacinadas com Coronavac (em roxo), e em pessoas que tiveram Covid (em verde). Repare na diferença na faixa etária acima de 55 anos. medRxiv/Reprodução

Também houve uma diferença interessante entre homens e mulheres. 94% das mulheres acima de 55 anos demonstraram resposta de anticorpos ou das células T, contra 83% dos homens. “Porém, enquanto 60% das mulheres demonstraram ambas as respostas, apenas 28% dos homens nessa faixa etária apresentaram os dois tipos de resposta simultaneamente”, diz o estudo. É bem menos do que entre os convalescentes: 70% deles manifestaram essa resposta dupla.

Os cientistas da USP citam alguns estudos, feitos no exterior com as vacinas da Pfizer, da Moderna e da AstraZeneca, que não mostram essa queda na resposta imunológica entre os vacinados mais velhos. “As respostas de anticorpos e de células T em grupos mais velhos, após a vacinação com vacinas de mRNA ou vetor adenoviral, foram largamente similares àquelas de indivíduos mais jovens, em contraste com as observações no nosso grupo de vacinados com Coronavac.” 

“Nossos resultados mostram uma resposta imunológica diminuida para pessoas acima de 55 anos após a imunização com duas doses da vacina Coronavac”, concluem os pesquisadores, que em seguida recomendam: “Dada a descoberta de que misturar vacinas de diferentes plataformas gera imunogenicidade [resposta imune] mais forte, nossos resultados podem sugerir que os vacinados  com Coronavac acima de 55 anos podem se beneficiar de uma terceira dose/reforço heterólogo”. Reforço “heterólogo” significa com outra vacina.

Vale ressaltar que o trabalho da USP é um teste de laboratório – ele não é um estudo clínico nem uma análise de dados epidemiológicos. Na prática, a Coronavac tem continuado a demonstrar proteção: ela é largamente responsável pela queda de mortes e hospitalizações por Covid no Brasil nos últimos meses. Apesar disso, ainda há dúvidas sobre sua resposta à variante Delta – por isso, o Chile e o Uruguai começaram a aplicar uma terceira dose de Pfizer nas pessoas que receberam Coronavac. Na semana passada, cientistas chineses publicaram o primeiro estudo avaliando a performance da Coronavac contra a variante Delta. O trabalho apontou eficácia da vacina, mas ele possui limitações importantes – e não pode ser considerado uma resposta definitiva. 

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