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Conta Outra Por Blog Histórias esquecidas sobre os assuntos mais quentes do dia a dia. Por Felipe van Deursen, autor do livro "3 Mil Anos de Guerra"

Andrew Jackson, o presidente dos EUA que faz Trump parecer (quase) bonzinho

Boa parte do mundo assiste com aflição à eleição dos Estados Unidos. Além da tradicional complicação que de quatro em quatro anos traz à tona a necessária tentativa de explicar como diabos esse sistema funciona, a disputa desse ano ficou marcada como a mais agressiva da história recente do país. Muito se especula se Donald […]

Por Felipe van Deursen Atualizado em 21 dez 2016, 08h49 - Publicado em 8 nov 2016, 14h42

Jackson-Portrait

Boa parte do mundo assiste com aflição à eleição dos Estados Unidos. Além da tradicional complicação que de quatro em quatro anos traz à tona a necessária tentativa de explicar como diabos esse sistema funciona, a disputa desse ano ficou marcada como a mais agressiva da história recente do país. Muito se especula se Donald Trump,  ao ser eleito, vai soprar a trombeta apocalíptica e iniciar a guerra do fim do mundo .

Mas acontece que não seria a primeira vez que alguém assim (assim como? Bem, as declarações de Trump denotam um sujeito xenófobo, racista e misógino que acredita piamente que o muro que pretende construir na fronteira com o México durará mais tempo incólume do que seu topete) se tornou presidente dos EUA.  Se Trump quiser o título de pior presidente do país, não vai ser uma disputa fácil.

Fora que a corrida eleitoral já foi muito, mas muito pior. Especialmente nas disputas regionais em uma época em que o país não era a superpotência com a qual nos acostumamos. A New England Weekly Review, uma publicação do século 19, registrou em 1830:

“A eleição no Kentucky dura três dias e nesse período o uísque flui por nossas cidades e vilas como o Eufrates na antiga Babilônia (…) Um número de candidatos, cada um com uma garrafa de uísque com o bico saindo do bolso, estava ocupado subornando eleitores (…) Um deles veio a mim, deu um tapa no ombro com a mão direita, uma garrafa de uísque na esquerda, perguntou se eu era eleitor. “Não sou”, eu disse. “Ah, tudo bem”, ele disse, tirando a rolha da garrafa. “Só dá um golão aqui e dá um votinho pros garotos do Old Hickory”

Old Hickory era Andrew Jackson, o sétimo presidente americano e um dos fundadores do Partido Democrata. Liderou o país de 1829 a 1837 e é o rosto magro da nota de vinte dólares. Quando foi eleito, 30 mil pessoas o acompanharam até o Capitólio e tentaram chegar à Casa Branca. Aqueles que conseguiram ficaram no jardim com barris de uísque e bacias de ponche de laranja. Durante meses, Washington ficou apinhada de forasteiros, que rapidamente acabaram com o álcool da cidade, enquanto esperavam cargos no governo como prêmio por terem votado em Jackson. A corrupção atingira novos e bêbados níveis em uma máquina de votações sujas e campanhas difamatórias que duraria um século.

Durante o mandato, Jackson deixou claro que via os índios como selvagens que atravancavam o progresso. Arranjou acordos com tribos ao mesmo tempo em que armava com amigos para tomar as terras deles. Na Flórida – que ele, como general, conquistara dos espanhóis -, Jackson incentivou perseguições a vilas do povo seminole, queimou casas e expulsou habitantes. Tudo em nome de velhas cartas na manga, lançadas quando se busca legitimar alguma atrocidade: a “segurança nacional” e a “defesa pessoal”. Andrew Jackson foi o presidente da remoção dos indígenas e do Caminho das Lágrimas: a peregrinação forçada de várias tribos a regiões remotas e desconhecidas. Essa política mudou a relação entre os novos e os antigos habitantes do país para sempre.

20-dollar

Jackson, como muitos ricaços de seu tempo, era um proprietário de escravos que vendia e comprava pessoas a granel. Se um deles tentasse escapar, Jackson oferecia uma recompensa de US$ 50 e US$ 10 extras a cada cem chicotadas despejadas no fujão. Além disso, parte de sua fortuna veio de terras que haviam sido prometidas aos índios.

Detratores de Jackson também não viam honra na forma como ele praticava duelos – sim, duelo pra valer, uma prática relativamente comum até o século 19. Ele venceu ao menos dois duelos (dependendo da fonte, esteve em mais de cinco embates). Em 1806, Charles Dickinson, um fazendeiro rival de Jackson, o acusou de roubar em uma corrida de cavalos, xingou-o de canalha inescrupuloso e, no embalo, disse que sua mulher, Rachel, era bígama. O futuro presidente Jackson o desafiou para um duelo. Dickinson tinha fama de ser um grande atirador, o que foi provado ao acertar o peito do rival. Jackson resistiu, apertou a ferida e revidou, errando o alvo. Isso significaria que ele perdera o duelo. Mas fez que não ligou. Mesmo ferido, recarregou a arma e atirou de novo, dessa vez acertando e matando o oponente.

Em todo caso, Jackson passou a ser visto como um herói americano. Afinal, ele conquistou a Flórida e está nas notas verdes – o que mudou no ano passado. O rosto de Jackson será substituído por Harriet Tubman, uma ex-escrava heroína da Guerra de Secessão. Tubman foi escolhida em uma votação online, mas essa mudança só deve entrar em prática em 2030. Apesar de os motivos reais serem menos humanistas do que parecem (Jackson vai cair mais por ter sido opositor ao sistema financeiro centralizado no país do que por ser um escravagista matador de índios), o simbolismo da troca é forte. Sai um homem, branco, rico, escravagista, entra uma mulher, negra, escravizada.

O resultado da votação saiu em abril, no começo de uma corrida eleitoral tensa e recheada de ofensas. Donald Trump, é claro, não pôde deixar de manifestar sua opinião. Trocar Jackson por Tubman na nota de 20? “Puro ‘politicamente correto’. Andrew Jackson teve uma história de tremendo sucesso para o país”.

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