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10 quadrinistas brasileiros para ler agora

Esta edição do Jabuti, mais importante prêmio literário do país, tem duas novidades que prometem movimentar o mercado editorial: Livro Brasileiro Publicado no Exterior e Histórias em Quadrinhos. O anúncio da inclusão das novas categorias foi feito em maio pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), que organiza o evento. Na última semana, a comissão organizadora divulgou a lista dos finalistas.

Em edições passadas, quadrinistas já haviam ganho o Prêmio, mas não existia uma categoria específica para analisar o gênero. Em 2015, por exemplo, Mauricio de Sousa foi o homenageado. Mas nem assim as HQs ganhavam um lugar exclusivo para serem avaliadas. “Levantei o questionamento nas redes sociais, por que deixar histórias em quadrinhos de fora? Sugeriram que eu fizesse uma carta aberta endereçada à CBL. Redigi uma com a ajuda do jornalista Ramon Vitral. Em seguida, junto com Érico Assis, montamos um abaixo-assinado online pedindo a inclusão de Quadrinhos no Jabuti”, conta o quadrinista Wagner Willian, um dos responsáveis pelo movimento de inclusão das graphic novels no Prêmio.

A petição na plataforma Change.org ficou online durante quatro meses e reuniu mais de duas mil assinaturas, recebendo firmas de artistas como Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Coutinho e Laerte Coutinho. “Apesar do Troféu HQMix e vários festivais como a Comic Con Experience, o Festival Internacional de Quadrinhos, a Semana Internacional de Quadrinhos e a Bienal de Curitiba darem visibilidade ao nosso trabalho, o Jabuti, por ser um prêmio específico de livros, é mais abrangente. Fora a visibilidade internacional. A CBL leva seus premiados para feiras fora do país e isso é, sem dúvidas, mais uma importante janela para mostrar nossa produção ao mundo”, comemora Wagner.

Mesmo que a maioria das novelas gráficas comercializadas nas livrarias brasileiras sejam importadas ou traduzidas por editoras locais, o mercado de HQs do Brasil é mais diverso que isso. E a pluralidade também está na temática das narrativas. Geralmente, associamos o gênero à super-heróis, mas existe uma gama infinita de outros assuntos sendo abordados que fogem da dualidade desse tipo de quadrinho.

E o que não faltam são talentos brasileiros fazendo a nova categoria do Jabuti valer a pena.
Conheça os finalistas do prêmio Jabuti 2018:

1. Wagner Willian

Reconheceu o Wagner do abaixo-assinado que ajudou a incluir quadrinhos no Prêmio Jabuti? Pois é ele mesmo. Além de ter sido um dos responsáveis por essa conquista, ele também é escritor, artista plástico e um dos grandes quadrinistas da atualidade. Em sua obra de estreia Lobisomem Sem Barba (2014), o artista potiguar fez um caleidoscópio de referências pop e undergrounds para conto a conto construir a narrativa.
Apesar dos elementos visuais serem fundamentais na narrativa, seu primeiro livro é difícil de definir em apenas um gênero – não é exatamente uma HQ. Por isso, Lobisomem Sem Barba foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Ilustração em 2015.
Sua novela gráfica veio no ano seguinte, em 2016. Bulldogma é a história de Deisy Montovani, uma ilustradora freelancer, aspirante a quadrinista e dona de Lino, um bulldog francês. A história parte do momento em que os dois vão morar em um apartamento onde acontecem “abduções alienígenas recorrentes”.
Bulldogma é uma narrativa efervescente com muitos elementos de Nouvelle Vague, ufologia e ficção científica. É uma história literalmente de peso – o livro tem 320 páginas, um dos livros de quadrinhos mais robustos do país.

 

2. Sirlene Barbosa e João Pinheiro

O quadrinista João Pinheiro é ilustrador, professor e designer freelancer. Apesar de contribuir para revistas, jornais e editoras de livros com suas ilustrações e já ter realizado exposições no Brasil e no exterior, João mantém uma relação bastante estreita com o cinema e a literatura.
Ele fez as ilustrações de Malária, um curta-metragem feito com técnicas de origami, nanquim e quadrinhos. O filme venceu um concurso internacional promovido por Quentin Tarantino para promoção de conteúdos ambientados no mesmo universo do filme Django Livre e já ultrapassou as 780 mil visualizações no Vimeo.
No Jabuti, Pinheiro concorre com Carolina (2016), uma novela gráfica sobre a vida, a fama e o esquecimento da escritora fenômeno nos anos 1960, Carolina de Jesus. O artista ilustrou e fez o roteiro a partir da pesquisa da professora e doutoranda em Educação, Sirlene Barbosa (única finalista mulher na categoria quadrinhos). A HQ conta a história de Carolina, escritora negra, pobre, mãe e moradora do Canindé, em São Paulo, que com sua obra de estreia Quarto de Desejo (1960) sobre o cotidiano na favela foi parar na lista dos mais vendidos da época.

 

3. Gidalti Júnior

Castanha do Pará, finalista na categoria HQ, é o primeiro livro de Gidalti Oliveira Moura Júnior. O mineiro que se considera paraense é publicitário, pintor, desenhista e professor. Seu romance gráfico é inspirado na obra Adolescendo Solar, de Luizan Pinheiro.
No quadrinho, Gidalti conta a história de Castanha, um personagem híbrido com corpo de menino e cabeça de urubu que vive às voltas entre as barracas do mercado Ver-o-Peso. A transfiguração do adolescente é uma maneira de retratar o descaso e a marginalização do protagonista em meio a uma cidade tão exótica e desigual como Belém do Pará. Além dele, outras crianças também ganham forma de bicho, meio humanos meio animais, invisíveis que fazem parte da paisagem da cidade.
Apesar de Gidalti não ter poupado nos contrastes para ressaltar o abandono e a solidão de Castanha, a estética do quadrinho é solar e colorida  assim como Belém.

 

4. José Aguiar

O paranaese é autor das HQs Vigor Mortis Comics, Ato 5, Revolta de Canudos, Dom Casmurro em Quadrinhos, MSP50 e a série Ernie Adams, na França.
No jornal curitibano Gazeta do Povo, ele publica as tiras Nada Com Coisa Alguma e é um dos criadores do Cena HQ e do Gibicon, evento internacional de quadrinhos em Curitiba.
Seu livro que está disputando o Jabuti deste ano é Coisas de Adornar Paredes (2016), uma coletânea de contos com histórias que partem de quadros, furos, enfeites e rachaduras nas paredes. Na graphic novel, o protagonista é Chico, um jovem que trabalha em uma fábrica de azulejos, mas que na verdade sonha em ser escritor. A narrativa se desenvolve conforme o aspirante a literato escreve contos de terror e os mostra a Ana e Caio, seus colegas de trabalho. O livro se passa na capital paranaense, então se você conhece Curitiba vai se ambientar na descrição dos bairros Boqueirão, Uberaba e Santa Felicidade.

 

5. Marcello Quintanilha

Quintanilha é um dos finalistas com mais quadrinhos publicados – sete, só no Brasil. Sua primeira HQ, Fealdade de Fabiano Gorila (1999),foi inspirada na vida de seu pai, que foi jogador de futebol na década de 1950.
Além dos livros publicados no país, o carioca que vive na Espanha desde 2002 também assina a série Sept balles pour Oxford (Sete balas para Oxford). Mesmo morando no exterior há tanto tempo, o cotidiano, os problemas e a linguagem de Quintanilha retratam a realidade brasileira.
Na disputa pelo Jabuti, ele concorre com a sensível coletânea de quadrinhos Hinário Nacional (2016). Um conjunto de histórias sobre traumas e sofrimentos que se comunicam entre si e formam uma bela ode às tristezas da vida.

 

6. George Schall e Ricardo Hirsch

Se Quintanilha, Gidalti e João Pinheiro gostam de trabalhar a crueza da realidade brasileira em suas obras, o ilustrador George Schall e o roteirista Ricardo Hirsch optaram por um caminho diferente na HQ Hitomi (2016) que concorre ao prêmio.
A novela aquarelada de traços leves e temática nipônica em nada lembra o livro anterior de Schall, Moschitto (2013). A primeira obra, realizada em parceria com Claudia Senlle, se desdobrava a partir do assassinato de um dos integrante da família Moschitto, uma família mafiosa de pernilongos.
Hitomi conta a história de uma garotinha que encontra uma câmera fotográfica mágica no sótão de sua casa, em uma cidade do interior do Japão dos anos 1980. A menina tem um relacionamento conturbado com a mãe e seu pai vive viajando. Com a câmera misteriosa, ela passa a explorar seu entorno e suas emoções de maneira diferente. Hitomi é uma HQ delicada sobre solidão e autoconhecimento.

 

7. André Dahmer

O carioca autor da série de quadrinhos Malvados é desenhista, poeta e artista plástico. Dahmer têm oito livros lançados e publica suas tiras no jornal O Globo e na Folha de S. Paulo. Crítica social, humor negro e politicamente incorreto são temas frequentemente abordados em suas criações. O artista também é criador do personagem rei Emir Saad, um ditador genocida que de tira em tira dá lições ácidas de totalitarismo, violência, golpes de estado e hipocrisias políticas.
O sarcasmo característico de Dahmer também está presente em Quadrinhos dos anos 10 (2016), finalista do Jabuti. As contradições, o deslumbramento e o medo diante das tecnologias da virada do século se parecem com o temor que sentimos com as novidades atuais. André, inclusive, aparece como personagem e ironiza seus próprios dilemas. Seriam tiras angustiantes e pessimistas, se não fossem cômicas.

 

8. Pedro Vergani e Diogo Bercito

Já falamos um pouco sobre o trabalho de Pedro Vergani aqui no blog, o artista trabalha desde o ano passado no Google e, desde então, fez vários doddles. Em 2012, ele ilustrou o livro Gamer, de Chris Bradford, lançado no Reino Unido, onde Vergani mora.
Seu parceiro na autoria de Rasga-Mortalhas é Diogo Bercito, outro finalista que vive fora do Brasil. Bercito é jornalista, “foi correspondente internacional da Folha de S. Paulo em Jerusalém, cobriu a guerra na Síria, chimpanzés na Tanzânia e o fim do mundo no México”, como descreve em seu perfil de colaborador da Piauí, e mora em Madri. Talvez dessa mistura de elementos tenha nascido Rasga- Mortalhas (2016).
A HQ geométrica em rubro-negro conta a história de um babuíno que avisa o rei que o mundo vai acabar. A narrativa se passa em um universo fantástico repleto de referências à Mesopotâmia e de elementos que remetem às culturas árabe e judaica.

9. Felipe Castilho, Tainan Rocha e Wagner Willian

O paulistano Felipe Castilho é escritor, roteirista, professor e autor da trilogia O Legado Folclórico, sobre fantasias e lendas do imaginário cultural brasileiro. Castilho estreou nos quadrinhos com a HQ Imagine Zumbis na Copa (2014), em parceria com o ilustrador Tainan Rocha.
No ano passado, Castilho e Tainan se juntaram ao também ilustrador Wagner Willian (sim, o mesmo de Bulldogma) para lançar o visceral Savana de Pedra (2016).
O álbum dos três é sobre o um movimento de ocupação de estudantes de escolas públicas em todo o país. A narrativa tem três frentes: a que apresenta um policial, outra um garoto e a última mostra a ocupação e fotos de uma savana no Quênia. Um paralelo entre o ecossistema africano e a luta pela educação pública.
Assim como em Rasga-Mortalhas, vermelho preto e branco são as cores escolhidas para retratar a brutalidade entre a polícia, os estudantes e os meios de comunicação. Além do contraste na paleta de cores, a violência fica ainda mais nítida com a ausência de diálogos. Afinal, não há diálogos na selvageria.

10. Alexandre S. Lourenço

Se existe uma coisa capaz de virar a cabeça de qualquer leitor é um bom título. E Você é um babaca, Bernardo (2016) é um desses livros, literalmente, é só olhar a capa feita por Lauro Larsen. Na HQ, o quadrinista carioca Alexandre S. Lourenço, autor de Robô Esmaga (2012) e Boxe (2017), mostra a banalidade da vida de Bernardo, um protagonista que se esforça para manter sua cabeça flutuante no lugar. O personagem não tem ambições nem grandes motivações e teme enfrentar a realidade, até que conhece uma menina e se interessa por ela. Apesar de ser uma história sobre rotina e desencontros, o babaca criado por Alexandre serve como uma bela metáfora sobre comodismo  para tirar a cabeça dos leitores do lugar.

Já escolheu seu artista preferido? A cerimônia de entrega da premiação será dia 30 de novembro, em São Paulo. Difícil torcer para um só.

Em tempo: são mais de 10 artistas, mas preferimos agrupá-los por obra, assim como no Prêmio Jabuti.

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