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Mulher Cientista Por Maria Clara Rossini Todos as semanas, a repórter Maria Clara Rossini entrevista uma pesquisadora brasileira e explica seu trabalho. Acompanhe aqui e no Instagram da Super.

Fernanda Staniscuaski investiga os percalços na carreira de mães cientistas

A #MulherCientista desta semana começou na biologia, mas os desafios de conciliar filhos e laboratório fizeram ela mudar de linha de pesquisa – graças ao seu trabalho, hoje a licença maternidade é considerada pelo CNPq no currículo das pesquisadoras.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 24 set 2021, 15h54 - Publicado em 24 set 2021, 13h52

Em abril de 2021, a principal plataforma de currículos científicos do Brasil passou a incluir o período de licença maternidade. Qualquer cientista que tenha tirado a licença pode optar por incluir essa informação no Currículo Lattes. Antes disso, as pesquisadoras (e mães) ficavam com um “vazio” de produtividade durante o período em que estavam cuidando dos filhos recém-nascidos – o que podia passar uma má impressão.

Ter uma queda na produtividade, no sistema acadêmico atual, não é nada bom para um pesquisador. “Você precisa de dinheiro para fazer pesquisa, sem dinheiro você produz menos, e produzindo menos você não ganha dinheiro”, diz Fernanda Staniscuaski, bióloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mãe de três filhos. “É muito difícil sair desse ciclo vicioso”.

Fernanda sentiu isso na pele. Ela começou a carreira acadêmica na biologia molecular, estudando mecanismos de defesa das plantas Canavalia. Esse gênero de plantas produz uma proteína que age como inseticida, intoxicando as pragas que tentam se alimentar dela. A ideia é entender como esse mecanismo funciona e possivelmente transferir a proteína para outras plantas, criando transgênicos resistentes.

Esse foi o foco até o pós-doutorado, que ela fez na Universidade de Toronto, no Canadá. Lá, ela passou a estudar uma outra classe de proteínas vegetais: as aquaporinas. Elas transportam alguns nutrientes para dentro das células das plantas. Na soja, por exemplo, a aquaporina está envolvida no transporte de ureia, um dos principais fertilizantes usados nas plantações. Já no arroz, ela transporta o arsênio, que pode ser prejudicial à saúde humana.

Em 2013, Fernanda teve o primeiro filho. Ela continuou recebendo financiamento até 2014, mas não tinha como manter a mesma produção de artigos de antes da maternidade. Em 2015, os órgãos de pesquisa começaram a emitir pareceres dizendo que ela não estava produzindo o suficiente. E o ciclo começou.

“Eu nunca tinha me questionado sobre fazer pesquisa, mas a partir daí comecei a achar que a carreira de cientista não era para mim – o que não faz o menor sentido”, diz a pesquisadora.

 

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A situação fez com que Fernanda mudasse completamente de linha de pesquisa. Em 2016, ela fundou o Parent in Science, uma organização que visa estudar a diversidade na ciência – principalmente maternidade e paternidade. Entre 2017 e 2018, a organização fez um levantamento sobre pais e mães cientistas, para descobrir se a produtividade e financiamento realmente caíam após esses profissionais terem filhos.

A primeira disparidade surgiu na própria coleta de dados. Dos 2,9 mil pesquisadores que responderam ao questionário, apenas 300 eram homens. Fernanda, então, tirou as principais conclusões com base nos currículos das 2.600 mulheres. Ela viu que, de fato, a chegada do primeiro filho causa uma queda na quantidade de publicações, independentemente da área de conhecimento da pesquisadora.

E o pior: essa queda demora anos para ser revertida. “A gente esperaria que no primeiro ano seguinte houvesse essa queda, porque de fato a cientista se afastou. Mas essa queda demora quatro ou cinco anos para se recuperar, e isso é consequência da falta de políticas de apoio”, diz Fernanda.

Em 2020 e 2021, o grupo fez um outro levantamento, dessa vez sobre o impacto da pandemia na produção acadêmica. Os homens e mulheres sem filhos foram os que mais se adaptaram ao trabalho remoto e conseguiram manter a produtividade. A pandemia também afetou mais as mulheres negras, independente de serem mães ou não.

Fernanda é professora da UFRGS e continua publicando artigos sobre a parentalidade na ciência (esse é o termo que se usa para indicar a maternidade e paternidade). Mas muitas pessoas não vêem o trabalho do Parent in Science como ciência. “Eu ainda ouço que abandonei a vida de cientista. Existe um preconceito grande com o que é ou não ciência”, diz ela.

A nova linha de pesquisa de Fernanda, no entanto, tem gerado impactos muito mais imediatos do seu trabalho com plantas. Os dados gerados em 2018 embasaram a decisão do CNPq (o principal órgão de financiamento de pesquisas no Brasil) a incluir a licença maternidade no Currículo Lattes. O Parent in Science foi indicado recentemente ao prêmio Inspiring Women in Science, promovido pela Nature. A organização concorre na categoria de projetos de extensão, junto com outras iniciativas internacionais.

Fernanda Staniscuaski não descarta a possibilidade de voltar para a biologia no futuro. Mas no momento, seu objetivo é continuar trabalhando no Parent in Science para promover políticas de apoio e mostrar que “mãe” e “cientista” não precisam ser palavras opostas.

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