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Radar quântico promete detectar aviões “invisíveis”

Canadá investirá 2,7 milhões de dólares na tecnologia – que usará uma das maiores bizarrices da física de partículas para vigiar os céus do Ártico.

O governo do Canadá vai investir 2,7 milhões de dólares no desenvolvimento de radares quânticos – que, na teoria, pegam até aviões invisíveis, imunes aos radares normais. De acordo com a BBC, caso esse sistema de detecção inovador se prove eficiente no laboratório, ele entrará em operação até 2025 – quando as 54 estações de radar que hoje são responsáveis por vigiar o espaço aéreo do Oceano Ártico se tornarão obsoletas. A Universidade de Waterloo será responsável por tocar o projeto.

Para entender o que é um radar quântico, primeiro é preciso entender como funciona um radar normal. Imagine que você está em um quarto desconhecido e absolutamente escuro. Você não sabe nada sobre a organização desse quarto: onde fica o guarda roupa, se o lençol da cama é rosa ou se a penteadeira tem um espelho. Tateando, você encontra um abajur. E aí acende ele. Bingo: a luz emitida pela lâmpada atinge os objetos, é refletida e alcança os seus olhos. Agora você sabe onde está cada coisa.

“Óbvio, SUPER, o nome disso é acender a luz. Eu já acendi a luz do meu quarto várias vezes na vida, eu sei como funciona”. Mas o importante aqui é entender que ligar um radar é como acender um abajur. A diferença é que o quarto é o céu, e a lâmpada emite ondas de luz em uma frequência que nós não podemos ver. Essas ondas, quando atingem um objeto – como um avião – são refletidas e voltam para a fonte (os “olhos”), denunciando a posição do inimigo.

O que os aviões invisíveis tem de especial é uma fuselagem cheia de ângulos – que refletem as ondas em uma direção diferente da que elas vieram, de forma que elas não voltem para o radar. É como se você acendesse a luz do quarto e um objeto simplesmente não aparecesse. Ele está lá, você inclusive corre o risco de tropeçar nele, mas o dito cujo não aparece porque a luz refletida por ele não percorre o caminho certo para alcançar seus olhos.

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O radar quântico, pelo menos na teoria, é capaz de detectar aviões invisíveis. Ele se baseia em uma propriedade bizarra da física quântica chamada “entrelaçamento”, em que duas partículas irmãs tem uma ligação tão forte entre si que uma não pode ser descrita sem que se leve em consideração a situação de seu par. Tudo que acontece com uma acontece com a outra. Não importa a distância entre elas: se você der um peteleco em uma partícula que está aqui na Terra, a gêmea dela em Marte sentirá a pancada.

A ideia é simples: pegue um monte de partículas com par. Atire apenas os pares em direção ao céu, mas mantenha as partículas originais com você. Se os pares atingirem um avião – mesmo um invisível –, as partículas que ficaram em Terra vão acusar a perturbação. De novo: tudo que acontece com uma acontece com a outra. Não dá para escapar. Não existe nenhum jeito de desviar as partículas que impeça suas irmãs de dedarem a posição da aeronave.

Chega a dar medo. Mas calma: essa tecnologia ainda é mais ficção científica do que realidade. “Na teoria, fótons entrelaçados melhorariam muito os resultados de um radar convencional”, afirmou à BBC Alan Woodward, especialista em computação quântica da Universidade Surrey que está participando dos esforços. “Só que nós ainda estamos em um estágio muito inicial. O investimento foi feito justamente para ver se é possível passar da teoria para a prática.” Recentemente, a China anunciou um projeto parecido, que também está em fase experimental.

Por enquanto, agente Perry, o ornitorrinco, poderá voar discretamente nos céus do Canadá.