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A rebelião esquecida que destruiu São Paulo em 1924

Teve trincheira na Av. Paulista, ataque aéreo na Mooca, bala de canhão por cima do Tietê... E não: não foi a Revolução de 1932.

Duas das avenidas mais importantes da cidade de São Paulo se chamam 23 de maio e 9 de julho – datas que não são homenageadas no trânsito de nenhum outro estado.

É que elas só interessam para os paulistas, mesmo: na noite de 23 de maio de 1932, durante uma manifestação, um grupo de estudantes tentou invadir a sede do PPP – partido local que apoiava a ditadura de Getúlio Vargas – na esquina da Praça da República com a rua Barão de Itapetininga. Os apoiadores do revolucionário gaúcho abriram fogo e mataram quatro jovens: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – que seriam representados pelo acrônimo MMDC e considerados mártires. Em 9 de julho, pouco mais de um mês depois, eclodiu uma revolta em larga escala contra o governo federal recém-instaurado, que foi derrotada.

O início da Revolução é uma data cívica importante para os paulistas mais raiz – e sua real motivação, assunto de muita briga entre historiadores. O que pouca gente sabe é que oito anos antes, em julho de 1924, São Paulo já havia sido palco de um outro quebra-pau, que impactou muito mais a vida dos civis da capital: bairros operários como Mooca, Bom Retiro e Brás foram destruídos por bombardeios; o saldo final foi de 5 mil feridos (só na Santa Casa, foram internados 2,3 mil) e 720 mortos.

A Rebelião de 1924 ocorreu sob a presidência do mineiro Artur Bernardes, um dos chefes de Estado da “república do café com leite” – como foi denominado o período entre 1898 e 1930 em que o Partido Republicano Paulista (PRP, o café) e o Partido Republicano Mineiro (PRM, o leite) se revezaram no governo federal. 

Os militares de patente baixa – que se organizavam no chamado movimento tenentista – não iam muito com a cara dessa aristocracia agrária retrógrada, e tinham um apoio razoável das famílias operárias de cidades recém-industrializadas, como São Paulo.

“Não ir com cara”, nesse caso, significava tomar providências práticas. Nessa época, graças a sua participação na fundação da República, as forças armadas se sentiam bem livres para interferir nos rumos na política nacional. Para piorar a situação, Artur Bernardes tinha uma rixa pessoal com o Marechal Hermes da Fonseca – sobrinho do Marechal Deodoro que proclamou a República e hoje dá nome a praças País afora. Na época, Fonseca era presidente do Clube Militar.

Após a eleição de Bernardes, o clube foi fechado, o Marechal, preso – e a briga desencadeou a famosa Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. O novo presidente passou o resto do mandato sob ameaça, com o país em estado de sítio e revoltas militares eclodindo por aí. Uma dessas foi justamente a de São Paulo. 

Na manhã de 5 de julho de 1924, os tenentistas assumiram o controle um batalhão de cavalaria em Santana, bairro da Zona Norte da cidade, do outro lado do rio Tietê. A partir de lá, tomaram conta da base aérea de Marte – um aeroporto de pequeno porte que até hoje abriga caças da Força Aérea e helicópteros da PM e dos Bombeiros. Da beira do rio, dispararam contra o Palácio do Governo, que ficava na margem oposta, próximo à Praça Princesa Isabel, no centro antigo.

O governo federal não gostou nada dessa história: ordenou o bombardeio dos principais bairros operários da cidade. Foi o primeiro – e até hoje o único – ataque aéreo sofrido por uma cidade brasileira. A insurreição militar durou 23 dias conturbados: havia trincheiras na Avenida Paulista e no Teatro Municipal; o teto do Liceu de Artes e Ofícios foi destruído por uma bomba.

Os militares rebeldes, derrotados, fugiram para o interior e se refugiaram em Bauru. As mansões do início do século 20 no entorno da Av. Rio Branco – em sua maioria, abandonadas após a degradação da região central paulistana – ainda tem furos de bala dessa época nas grades e paredes. A história de 1924, porém, foi esquecida.

A historiadora Ilka Cohen – autora de um livro com mais de 140 fotos de 1924 – afirma que o levante tenentista, ao contrário da Revolução de 1932, não teve apoio da elite paulista – que na época estava satisfeita com o pacto do café com leite e não teria por quê peitar um governo federal instituído por si mesma. Isso fez com que uma das batalhas urbanas mais violentas da história nacional sumisse dos livros didáticos.

Em 1932, a situação se inverteu: Getúlio Vargas tomou o poder em partes graças ao apoio de certos setores tenentistas – e, à maneira de Daenerys, quebrou a “roda” que se alternava entre paulistas e mineiros havia décadas. Aí sim os órfãos do café com leite viram motivo para bater no governo federal – e transformar a Revolução Constitucionalista em uma parte indelével do ideário paulista.