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A vida de um atleta sexual

Desde o instante em que nasce, o espermatozóide se prepara para a dura prova do acasalamento. Para conferir sua boa forma, os cientistas usam até computadores.

Lúcia Helena de Oliveira e Regina Prado

Se alguém quer ver o que é guerra, basta dar uma espiada na natureza, nos períodos de acasalamento. Urros, patadas, mordidas, arranhões, bicadas, pontapés-há muito tempo, os naturalistas sabem que os machos brigam feio para ganhar uma fêmea. Mas esses confrontos são apenas a parte visível da história. Pois, uma vez determinado o macho vitorioso, iniciam-se batalhas cruciais dentro do corpo da companheira conquistada, onde hordas de espermatozóides competem pelo mesmo prêmio: o óvulo. Quem vencer, passará seus genes para a próxima geração. E. embora os homens não costumem esbofetear-se para conseguir uma parceira, o fato é que seus espermatozóides não escapam da luta.

Nesse ponto, ninguém pode afirmar que conhece tudo sobre sexo. Em plena década de 90, quando já se começa a usar o passado para discutir a revolução sexual, os espermatozóides não param de surpreender os cientistas que, aliás, admitem ainda ter muito o que aprender a seu respeito. Quando o microscopista holandês Antonie van Leeuwenhoek, em 1677, observou pela primeira vez esses gamelas — como se chamam as células encarregadas da reprodução —, imaginou que se tratava de homúnculos, isto é, miniaturas de gente, capazes de crescer em uma espécie de forno que, de quebra, fornecia o fermento — esse era o papel da mulher. A teoria fez sucesso durante um século. Hoje se sabe que o espermatozóide carrega um conjunto de genes que nada faz sozinho, precisa formar pares com os genes do gameta feminino para originar um indivíduo. O material genético do espermatozóide se comprime em uma cabeça do tamanho de um glóbulo sangüíneo, sustentada por um corpo quase invisível de tão minúsculo—com função de uma usina de energia—e propulsionada por uma longa e agitada cauda ou flagelo. Tudo, de ponta a ponta, não ultrapassa 50 milésimos de milímetro.

Com esse porte tímido, porém, se revela um verdadeiro atleta sexual. Ninguém melhor para receber esse título do que um espermatozóide, depois de se preparar durante 74 dias para ter um excelente desempenho na hora agá. Esse é o tempo médio que o gameta humano leva para ser formado nos testículos, duas bolsas que se dividem em câmaras ou lobos, como preferem os cientistas. Dentro deles, enrolados feito serpentinas, encontram-se finíssimos tubos, os canais seminíferos, que se fossem esticados teriam cerca de 2,5 metros de extensão. Eles são forrados por células muito especiais, as espermatogônias, mães dos gametas masculinos. Ao longo da vida, o homem produz cerca de 8 trilhões de espermatozóides. “Os testículos ignoram a vida sexual do dono. Ou seja, sua linha de montagem jamais desacelera , mesmo nos períodos de abstinência” esclarece o fisiologista Francisco Gacek, professor da Universidade de São Paulo. “À medida que surgem gametas novinhos em folha, eles vão empurrando os outros, até caírem no canal eferente que leva a um tubo mais largo, conhecido por epidídimo”, descreve Gacek, que realiza estudos na área de reprodução.

No corredor de espera do epidídimo, o espermatozóide humano costuma ficar de 18 horas a 21 dias, aproveitando a estada para completar seu desenvolvimento. Ele precisa afinar o pescoço que, então, ainda contém uma gota de citoplasma, o recheio líquido das células. Mas, mesmo quando já exibe a silhueta esguia característica, sua temporada no epidídimo pode terminar prorrogada diversos meses, enquanto aguarda a demanda. E sempre corre o risco de terminar a longa espera ensacado em uma camisinha, um dos mais antigos e mais populares métodos anticoncepcionais. “Se nem isso acontece, por causa de abstinência sexual, uma parte dos gametes morre e se liqüefaz”, conta Gacek. “A outra parte é expulsa pela urina.”

Enquanto ficam na expectativa, os espermatozóides não ousam fazer um movimento sequer, ficam apenas boiando em um fluido, a fim de poupar energia para a dura prova da fecundação. O liquido seminal propriamente dito, a mistura que compõe 93% do volume do sêmen, aparece somente no instante da ejaculação, quando espasmos contraem duas glândulas—a vesícula seminal e a próstata—, próximas à saída do canal deferente. Então, da vesícula seminal jorra um liquido viscoso, rico em frutose, moléculas de açúcar que fornecerão toda a energia dos atletas. É o único caso, por sinal, em que o organismo humano produz, por conta própria, moléculas de frutose. Pois os espermatozóides recusam outra dieta. Eles, que antes viviam em jejum, só se alimentam quando passam a mexer o flagelo, na reta final do aparelho reprodutor masculino, que é a uretra, o canal do pênis. “A partir daí, seus dias estarão contados”, conclui o fisiologista, com ar didático. “O espermatozóide irá durar o tempo que durar seu suprimento de energia.” Ainda assim, eles permanecem 72 horas em excelente forma para fecundar uma covardia em comparação com o óvulo, que dá o ar de sua graça apenas por 18 horas.

O sinal químico que dispara o frenético vaivém da cauda é dado Dor outro precioso ingrediente do líquido da vesícula, a prostaglandina. substância também capaz de provocar contrações no útero da mulher, ao ser lançada em suas paredes junto com a ejaculação. Esse efeito ajudaria os gametas masculinos a subir rumo a seu objetivo. A vesícula seminal ainda libera fibrinogênio, a mesma molécula que coagula o sangue, quando alguém se corta, por exemplo. No caso, é o sêmen que coagula, uma vez dentro do corpo da mulher, para evitar o refluxo dos espermatozóides que, afinal, nadaram muito para chegar ali. Mas, poucos minutos depois, quando provavelmente os gametas já deram seu tiro de largada, outra enzima presente no sêmen desfaz o coágulo.

Os cientistas se perguntavam como os espermatozóides podiam resistir à violência com que são chamados à ação. Pois a catapulta da ejaculação, que os impulsiona numa velocidade aproximada de 5 centímetros por segundo, deveria ser capaz de rompê-los ao meio. O jato do par de glândulas teria o impacto de uma onda marítima de 4 metros, arrebentando sobre uma pessoa. No ano passado, cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados 1 Unidos par e cem ter encontrado o segredo da gigantesca resistência dos espermatozóides nas nove fibras que envolvem seu flagelo. Os pesquisadores constataram que quanto maior é a cauda — e, portanto, mais vulnerável —, mais largas e unidas são essas fibras, servindo de proteção.

Contudo, descobertas como essa não alteram o ânimo do médico Arnaldo Ferrari Ninguém explica em detalhes como um homem saudável pode ter uma produção ineficiente de espermatozóides”, lamenta ele, considerado um dos maiores especialistas em reprodução humana no país. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ferrari nasceu na Itália, mas a família veio morar em Porto Alegre quando ele tinha 7 anos. “Em casa havia um sótão, onde preguei uma placa com meu nome e a palavra médico”, recorda, hoje aos 62 anos. Boa parte de seu dia-a-dia é dedicada à fundação que criou há 25 anos. para investigar, entre outras coisas. o comportamento dos espermatozóides. Os laboratórios ainda engatinham na pesquisa sobre a relação desses gametas e o sistema imunológico”, avalia. “Dentro dos testículos. os espermatozóides nunca entram em contato com o sangue “, explica. “Se isso acontece, graças a inflamações ou traumas, os glóbulos brancos criam anticorpos para arrasar com os espermatozóides fabricados pelo próprio organismo.

O homem com mais de 20 milhões de espermatozóides por mililitro de sêmen pode ser considerado fértil. Mas, na realidade, no 15 mililitro da ejaculação—este é o volume médio-podem existir até 400 milhões de gametas Ao contrário do que muitos imaginam, as primeiras gotas do sêmen transportam a maior concentração dessas células. Há três anos, biólogos da Universidade de Manchester, na Inglaterra, causaram furor ao sugerir que os espermatozóides na poleposition seriam verdadeiros camicases, que se sacrificariam em prol de seus irmãos. Os cientistas hoje concluem de fato, os espermatozóides não agiriam na base do eu primeiro, numa espécie de corrida egoísta, como ensinavam as aulas clássicas de Biologia. Em vez disso, eles parecem organizados como uma tropa de elite. “Sua tática de guerra é semelhante àquela criada pelos antigos romanos, conhecida por falange”, conta o médico paulista Marcos Paulo de Castro. “Marcham em filas que se bifurcam. Dessa maneira, espalham-se na forma de uma pirâmide invertida, para cercar completamente a área que pretendem invadir.”Especialista em Andrologia—a área da Medicina que trata do organismo masculino—, ele calcula que apenas metade desse exército é normal. “O restante pode ter duas cabeças ou dois flagelos”, exemplifica. Errar, no caso, não é apenas humano: machos de qualquer espécie produzem uma grande quantidade de espermatozóides defeituosos, que eram encarados como um desleixo da natureza. Atualmente, especula-se que esses espermatozóides inférteis teriam a solidária função de abrir caminhos para seus companheiros fecundantes.

Contudo, o aspecto perfeito também pode enganar: “Alguns espermatozóides balançam a cabeça com tamanha envergadura que acabam avançando muito devagar. E como se uma pessoa nadasse com os braços abertos”, compara Castro, franzindo a testa. Assim como os especialistas em Biomecânica usam recursos da Informática para flagrar os menores desvios nos movimentos de um esportista a caminho dos Jogos Olímpicos de Barcelona’92-desvios que podem afastá-lo da vitória—, os andrologistas também dispõem de computadores para analisar minúcias da agitação dos atletas espermatozóides. Há dois anos e meio, a clínica dirigida por Marcos Paulo de Castro, a Pro Pater, em São Paulo, foi a primeira a instalar esse tipo de equipamento na América Latina. “O aparelho regula a temperatura na lamina. onde se deposita o esperma, ajustando-a para os 37 graus Celsius do trajeto ao útero”, mostra o andrologista. “A imagem do espermatozóide é ampliada 400 vezes e gravada em vídeo. A gravação é decodificada pelo computador.”

O programa traça, por exemplo, uma linha imaginária na cabeça do espermatozóides medindo seu deslocamento. O ideal é que ela balance entre 2 e 4 milésimos de milímetro de um lado para outro, cerca de 480 vezes por minuto. Outra informação importante é a velocidade: o Ayrton Senna dos espermatozóides acelera 30 milésimos de milímetro por segundo. “Nessa velocidade, porém, o espermatozóide levaria horas para alcançar o óvulo, já que o percurso tem quase 25 centímetros”, espanta-se o ginecologista Waldemar Diniz Pereira de Canalho, da Escola Paulista de Medicina. A surpresa desse professor grisalho e risonho faz sentido: afinal, o espermatozóide recebe a bandeirada de chegada em cerca de 10 minutos. O próprio Carvalho e sua equipe cronometraram essa corrida alucinante em uma experiência: “Sempre que uma paciente, por um motivo qualquer, tinha de extirpar o útero, aproveitávamos para inseminar espermatozóides”, conta. “Assim, de tantos em tantos segundos, interrompíamos o trajeto, com pinças cirúrgicas, para contar quantos gametas já se encontravam em determinados pontos do percurso. A velocidade deles para o seu tamanho, é comparável à de um foguete.”

Existem várias hipóteses para explicar o fenômeno: “A chave dessa velocidade está no organismo da mulher”, suspeita o ginecologista. Segundo ele, o espermatozóide com o cromossomo Y-aquele que determina o sexo masculino do filho-é menor e mais leve. Resultado: sempre larga na frente. “Em compensação, demora seis horas destruindo a grossa proteção do óvulo, a zona pelúcida, cujo aspecto lembra uma casca de isopor”, pondera. Nessa árdua tarefa, muitas vezes, esses espermatozóides afoitos por natureza morrem de desgaste. Enquanto isso, mais pesados e mais lentos, a maioria dos espermatozóides X, a legítima porção feminina do homem, chega com atraso. E levam a vantagem de encontrar boa parte do serviço de furar a zona pelúcida já pronta. Isso talvez justifique o maior número de nascimentos de meninas em relação a meninos.

Mas, tanto para os X como para os Y, o caminho para o óvulo é um pesadelo: há labirintos, chuvas de ácidos, esporádicos ataques de anticorpos e mesmo de outros espermatozóides. Não é à toa, só cerca de 200 espermatozóides alcançam o final da trajetória. “Essas seqüências de desafios, de seu lado, ajuda a preparar 0 espermatozóide para sua última missão, que é fecundar”, especula o andrologista paulista Lister de Lima Salgueiro da Clínica Roger Abdelmassin. De acordo com o médico, substâncias do trato genital fazem as duas membranas da cabeça do espermatozóide se fundirem. “Com a união, formam-se vesículas que, frágeis, ao se chocarem com o óvulo, estouram e liberam enzimas, capazes de digerir a zona pelúcida.”

Recentemente, porém. os cientistas começaram a desconfiar que o espermatozóide não mergulha de cabeça no gameta feminino, como se pensava. “A certa altura, ele já consumiu todas as enzimas dessa região. Mas ainda sobram enzimas na região intermediária ou equatorial do seu corpo”, aponta Salgueiro. “Por isso, o espermatozóide tende a entrar de lado.” Só um espermatozóide costuma conseguir essa glória —e talvez muitas pessoas se indaguem sobre a necessidade daquele batalhão inicial de gametas Os cientistas têm uma hipótese: a quantidade colossal de espermatozóides seria uma tentativa do macho de garantir a sua perpetuação, uma vez que as fêmeas da maioria das espécies tenderiam à infidelidade. Para elas, trair é conseguir comida extra e multiplicar sua proteção. Diante disso, os machos passam a batalhar pelas parceiras e a guerra continua com espermatozóides. Como esses gametas vivem alguns dias, teoricamente no corpo de uma fêmea podem concorrer espermatozóides de origens diferentes Tem mais chance de ganhar o macho com maior número de representantes. Os gorilas, por exemplo, que vivem em pequenos haréns, liberam apenas 65 milhões de gametas por ejaculação, diante da fartura de companheiras; já macacos que vivem em grupos onde se disputam as fêmeas, podem ejacular 2 bilhões de espermatozóides de uma só vez. Comparados com primatas, contudo, os seres humanos possuem um dos espermas de pior qualidade-em número e motilidade. Alguns antropólogos garantem que essa falha é porque o homem, em tempos primitivos, era um sossegado monógamo.

 

 

 

 

Para saber mais:

Quem precisa de rabo?

(SUPER número 2, ano 10)

 

 

 

 

As armadilhas femininas

A recepção não é nada calorosa: quando aterrissam na cérvix da mulher, os espermatozóides podem dar de cara com uma cortina densa de um muco opaco. Além disso, o ambiente e ácido, o que dificulta as reações enzimáticas envolvidas nos batimentos dos flagelos dos recém-chegados. Quase tudo muda, porém, na época da ovulação, quando o organismo da mulher parece ter interesse em cooperar com o gameta masculino. Então, influenciado pelo hormônio estrógeno, abundante nesse período o muco se torna fluido e transparente, abrindo verdadeiros caminhos. Essas brechas de muco, cujo desenho lembra uma folha de samambaia, possuem grandes canais que levam provavelmente apenas os melhores espermatozóides direto ao óvulo. Sim, porque para ser um espermatozóide de excelente padrão não basta ser veloz—tem de seguir em frente sempre. Desse modo, os espermatozóides de pior qualidade se perdem em voltas no labirinto de muco. Quanto à acidez, o sêmen contém cálcio. liberado no suco leitoso da glândula próstata, para neutralizar o ambiente hostil. “Em alguns casos, porém, isso só não basta”, adverte o professor Arnaldo Ferrari, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Preparo um trabalho para mostrar que cerca de 70% dos casos de infertilidade feminina, atribuídos a uma reação imunológico da mulher ao espermatozóide, são na realidade causados pela acidez excessiva. O problema é tratado facilmente, com lavagens, usando neutralizantes.”

 

 

 

 

Uma barreiras sem furos

Uma camisinha deveria ser um obstáculo intransponível. “A questão é que o latex, sua atual matériaprima, se degrada com facilidade”, explica a química Maria Aparecida Aledo, da Johnson & Johnson empresa líder no mercado nacional. “Ao reagir com o oxigênio do ar, ela vai perdendo a elasticidade. Daí, qualquer furo pode ser fatal.” Especialista em borracha, desde que se formou há 11 anos, Maria Aparecida diz que o truque de uma camisinha é combinar um coquetel de substâncias antioxidantes com o latex, multiplicando sua longevidade. A mistura passa por dezenas de telas, que filtram eventuais coágulos; depois, aquecida, banha os moldes anatômicos. “Um por um, os preservativos recebem uma carga elétrica de 1000 volts”, conta a cientista. “Como a borracha é isolante, se houver algum furo, a eletricidade será registrada em receptores do lado oposto.” Além disso, uma amostra da produção precisa passar por testes de segurança: “A camisinha deve suportar 300 mililitros de água, o equivalente a uma garrafa de refrigerante”, exemplifica a especialista. “Em outro teste, um equipamento simula a ação do tempo sobre o preservativo.”