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Astronomia feita em casa

Engenheiros, professores, músicos e matemáticos, os astrônomos amadores formam uma legião de caçadores cósmicos que está se multiplicando rápido no Brasil. E já estão fazendo descobertas importantes.

Denis Russo Burgierman e Thereza Venturoli

Noite limpa, 18h30 de 22 de maio. Como sempre, o advogado Renato Levai, 39 anos, saiu para o quintal de casa, em São Paulo, munido de binóculo e cronômetro para acompanhar a passagem de satélites artificiais. Só que dessa vez percebeu, de repente, um intruso na área da Constelação da Vela. “Senti vertigens. Estava testemunhando um fato cósmico inesperado”, contou à SUPER. Era a Nova Vellorum 1999 (ou Nova da Constelação da Vela), explodindo a 6 500 anos-luz de distância da Terra. O astrônomo amador acabara de fazer uma descoberta e tanto.

Novas são explosões estelares que lançam quantidades absurdas de energia para o espaço. A da Vela aumentou a luminosidade da estrela 350 000 vezes – mais do que o suficiente para ser vista de grandes cidades com céu poluído e iluminado como Rio de Janeiro e São Paulo. Tal intensidade não é nada comum. Calcula-se que ocorram apenas quatro novas com esse brilho a cada século. A última observada foi a da Constelação do Cisne, em 1975.

Memória e acaso

Levai achou a Nova da Vela graças à sua extraordinária memória, treinada ao longo de 25 anos de olho pregado no céu. Ele sabe de cor a posição de 2 000 estrelas. Identifica qualquer uma sem ajuda de instrumentos, até as que brilham 1,5 vez menos do que a minúscula Intrometida do Cruzeiro do Sul.

Mas astronomia também se faz com o acaso. Foi sem querer que outro caçador de astros, o professor de Física Márcio Mendes, 40 anos, de Dois Córregos, no interior de São Paulo, fez uma série de fotos da mesma Nova da Vela, dois dias antes da sua explosão final. Mendes flagrou o astro começando a explodir quando ajustava a câmera para fotografar outra estrela, a Eta Carina. Só se deu conta do feito duas semanas depois, quando o filme foi revelado.

Ambas as façanhas – a descoberta e a seqüência de imagens – foram publicadas num boletim da União Astronômica Internacional (IAU) – o órgão sediado em Paris, França, que registra as descobertas cósmicas – e contribuíram para aumentar o cartaz da astronomia amadora brasileira. “O Brasil já tem o segundo grupo mais importante de amadores do hemisfério sul, atrás somente dos australianos”, disse à SUPER Brian Marsden, da IAU.

drusso@abril.com.br • tventuroli@abril.com.br

Algo mais

Esta luneta foi construída pelo astrônomo amador Renato Levai. O cano é um tubo de PVC. A lente da objetiva é a mesma lente de óculos para corrigir hipermetropia. Para a ocular, foram usadas lentes do visor de uma velha câmera fotográfica. O instrumento caseiro tem 5 centímetros de abertura e aumenta os astros 45 vezes.

Renato Levai descobriu a Nova da Constelação da Vela graças à sua prodigiosa memória visual. Ele percebeu um corpo novo numa região superpovoada de estrelas

O astrônomo Márcio Mendes fotografou a Nova da Constelação da Vela que Renato Levai descobriu. Foi puro acaso. Sem saber, Mendes bateu uma série de fotos, como esta, quando a estrela começava a explodir, dois dias antes da grande detonação final.

Vigilantes defensores da Terra

Renato Levai e Márcio Mendes dividem a paixão pelo Cosmo com um número crescente de astrônomos amadores brasileiros. Ela quase sempre começa com um encanto de criança, de olhos arregalados para a noite, e continua pela adolescência, com o primeiro binóculo e a primeira luneta. “Levamos nosso hobby a sério”, diz Tasso Napoleão, coordenador da Rede de Astronomia Observacional (REA).

Fundada em 1988, a REA reúne amadores com experiência em observação. Ninguém tem formação superior em Astronomia nem recebe pela atividade. “Aprendemos técnicas e métodos para localizar astros, medir seu brilho e acompanhar sua órbita, por meio de livros, revistas e cursos informais”, explica Napoleão. A rede já tem quase 100 membros que trocam figurinhas com os profissionais das universidades. As observações da REA são transmitidas para o banco de dados de redes internacionais à disposição de astrônomos do mundo inteiro.

O aumento do público interessado no Cosmo reflete-se no número de planetários existentes no país. Segundo Romildo Póvoa Faria, da Associação Brasileira de Planetários, já há quarenta dessas instituições voltadas para a divulgação das ciências celestes e outras doze em projeto ou em construção. “Registramos um crescimento de cerca de 25% em cinco anos”, vibra Faria. Isso sem contar os 25 clubes e associações e os 42 observatórios em funcionamento hoje, dez deles inaugurados nesta década. Pelo menos 1 000 brasileiros se dedicam às estrelas por puro amor e uma pitada de aventura.

Ameaça de outros mundos

Aventura, sim. Esses amadores têm qualquer coisa de heróis. O engenheiro Cristóvão Jacques, de Belo Horizonte, faz parte de uma legião de vigilantes. Duas ou três vezes por semana separa alguns CDs, prepara um lanche, junta três amigos e dirige até seu observatório particular, num sítio a 60 quilômetros de casa.

O quarteto passa a noite de olho colado no telescópio, em busca de asteróides. “Em menos de um ano, identificamos nove deles, felizmente nenhum com risco de colisão com a gente”, contabiliza.

Jacques segue os passos do pioneiro brasileiro na localização de asteróides, o matemático Paulo Holvorcem, 32 anos. Desde 1996, o gaúcho que mora em Campinas (SP) já achou seis desses corpos. No início do ano, ganhou um prêmio de 10 000 dólares da Sociedade Planetária, fundada pelo americano Carl Sagan (1934-1996) para financiar projetos na área. Agora espera tornar-se o primeiro brasileiro a achar um cometa. “Meu talimã é o telescópio que ganhei de Michael Schwartz”, diz ele. O americano Schwartz, um dos maiores astrônomos amadores do mundo, tem em seu currículo a descoberta de doze supernovas – explosões de estrelas gigantescas.

Enquanto uns tentam salvar o mundo, há quem procure seres inteligentes em outros. O físico paulistano Cláudio Brasil, 37 anos, está montando a primeira estação brasileira para rastrear sinais de rádio intencionais vindos do espaço. Qualquer bip-bip de ET será comunicado imediatamente à chamada Liga Seti (sigla em inglês para Busca de Inteligência Extraterrestre), que conecta pela Internet 1 000 estações de rastreamento no mundo inteiro. “Sempre fui apaixonado pela vida, esteja ela onde estiver. Por que não lá fora?”, comenta.

O brilho da luz solar

Mas nem todos varam noites em claro. O violoncelista Walter Maluf, 53 anos, trocou a Orquestra Sinfônica de Campinas pela diretoria do Observatório de Capricórnio, na mesma cidade. Passa os dias observando o Sol por um telescópio dotado de filtro que deixa passar só 1 milésimo da luz. Assim, monitora as manchas solares, regiões da estrela onde o campo magnético é absurdamente intenso. “Quando as manchas aumentam muito, o magnetismo interfere com as transmissões de rádio aqui no planeta”, explica ele. Nas horas vagas, Maluf recebe estudantes no observatório e ensina-lhes os primeiros passos da observação astronômica.

As crianças, aliás, são a última e promissora conquista dos amadores. Apesar de Astronomia não ser disciplina obrigatória no currículo escolar, o número de estudantes paulistanos que buscam noções do tema subiu de 100 para quase 6 000, nesta década. O Colégio Magno construiu um observatório só para os alunos. Bruno Victorino Sarli, de 14 anos, da 8ª série, é um deles. “Sempre achei o céu muito bonito”, conta ele. “Já pensei em ser astrônomo profissional, mas acho que vou acabar mesmo é na engenharia aeroespacial.”

Nem o sujo céu paulistano desanima o historiador da ciência Walmir Cardoso, 38 anos, coordenador da Sociedade Brasileira para o Ensino da Astronomia e professor do Colégio Magno. Ele sabe por que a matéria é popular: “A astronomia é uma porta para a aventura do conhecimento”.

Para o engenheiro químico Tasso Napoleão, um astrônomo amador não se contenta em admirar o céu. “Ele domina métodos científicos que produzem observações que podem ser transmitidas para outros estudiosos”, diz ele

Diferente da maiora dos astrônomos notívagos, Walter Maluf prefere os dias radiantes para estudar o Sol. O ponto negro na foto ao lado, batida por ele, é uma mancha solar. “Parece pequena mas é do tamanho da Terra”, afirma Maluf

Walmir Cardoso (sentado) ensina astronomia a estudantes de 6 a 18 anos, no Colégio Magno, em São Paulo. Segundo ele, pelo estudo do Cosmo entendem-se melhor outras áreas do conhecimento, como História da Ciência, Física e Matemática

Para iniciantes

A dica é procurar cursos nos planetários e livros da área. O equipamento é a última coisa que você providencia.

Fundamentos de Astronomia, Romildo Póvoa Faria (org.), Papirus, Campinas, 1987

Manual do Astrônomo Amador, Jean Nicolini, Papirus, Campinas, 1991

Atlas Celeste, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Vozes, Petrópolis, 1997

Binóculo

É o primeiro instrumento a ser adquirido. Com um de 7 X 50 milímetros (aumento de sete vezes com uma lente de 50 milímetros de diâmetro), dá para ver o relevo da Lua. Uma boa marca é a Vivitar. Preço médio: 300 reais.

Luneta

São indicadas para objetos próximos e brilhantes, como planetas e satélites do Sistema Solar. Com um de 60 milímetros de abertura dá para ver os satélites de Júpiter. Duas boas marcas americanas são Meade e Celestron. Preço médio: 1 000 reais.

Telescópio refletor

É ideal para objetos distantes, como galáxias e nebulosas. Com um de 100 milímetros de abertura você identifica estrelas na Grande Nuvem de Magalhães. Um da marca Castells, nacional, custa 500 reais. Os importados Meade e Celestron, cerca de 1 500 reais.