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Caçadores siberianos podem ter domesticado cães há 23 mil anos

Estudo comparou DNA mitocondrial de humanos e animais para entender quando a história das espécies começou a coincidir.

Por Carolina Fioratti 26 jan 2021, 16h57

Que os cães são parentes dos lobos e que sua relação com os humanos começou pela oferta de comida – e foi moldada pela seleção artificial -, isso você já está careca de saber. Até hoje, no entanto, nenhuma equipe de pesquisadores conseguiu definir com precisão quando e onde o melhor amigo do homem foi domesticado.

Agora, um estudo científico publicado nesta segunda-feira, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, traz uma nova hipótese sobre a questão. De acordo com os pesquisadores, a amizade entre o homem e o cão pode ter começado na Sibéria, durante a Era do Gelo, quando os humanos e animais estavam isolados naquele espaço. 

Para chegar nessa relação, cientistas da Universidade de Oxford e da Universidade de Durham, ambas do Reino Unido, analisaram o DNA de cães antigos e humanos. O objetivo era identificar os momentos em que o homem se ramificou em diferentes grupos e descobrir se os cachorros mostravam padrões semelhantes.

Se os humanos tivessem vivido na Ásia pelo mesmo período que os cães e se movido em direção às Américas em épocas similares, por exemplo, isso indicaria uma relação entre as espécies. 

E foi o que aconteceu. Os pesquisadores analisaram genomas mitocondriais de mais de 200 cães de todo o mundo, alguns com mais de 10 mil anos. A análise mostrou que todos os cães americanos antigos carregavam uma mesma assinatura genética, chamada de A2b. Estes animais teriam se dividido em quatro grupos distintos há cerca de 15 mil anos, quando ocuparam diferentes regiões da América do Norte.

  • As datas e localizações batem com a história dos antigos grupos de nativos americanos, que surgiram na Sibéria há cerca de 21 mil anos. Estes humanos poderiam ter trazido seus novos companheiros para as Américas há 16 mil anos. Mas os ancestrais nativos americanos não foram os primeiros a domesticar os cães. Isso foi papel dos antigos siberianos do norte, sugerem os pesquisadores.

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    A ideia é sustentada pelo passado genético dos animais. De acordo com o estudo, os cães com a assinatura A2b descendem de um ancestral canino que viveu na Sibéria há cerca de 23 mil anos. Oito mil anos antes, os antigos siberianos já viviam na região, isolados devido às condições climáticas severas que os rondavam.

    Por incrível que pareça, naquela época a Sibéria apresentava as temperaturas mais amenas e maior oferta de alimentos. Ali, estes povos antigos compartilharam espaço com os lobos cinzentos, que são os ancestrais diretos dos cães modernos. Os animais teriam se aproximado dos humanos por causa da carne que eles poderiam oferecer, mas acabaram ficando e evoluindo para se tornarem amigos fiéis e companheiros de caça.

    Dois mil anos depois, houve o encontro entre os antigos siberianos e ancestrais nativos americanos. Nisso, os primeiros adestradores teriam oferecido cães ao outro povo, que levou o animal em sua viagem às Américas. O mesmo pode ter acontecido com outros grupos de pessoas que migraram para o oeste da Eurásia.

    Isso explicaria como os cães surgiram na Europa e América do Norte, há cerca de 15 mil anos, mostrando que a domesticação ocorreu apenas uma vez. Isso indica também que os descendentes destes cães siberianos se espalharam pelo mundo, e não que a domesticação ocorreu diversas vezes em lugares diferentes, como algumas pesquisas anteriores sugeriam. 

    Por outro lado, é preciso ter cautela com os novos dados apresentados antes de cravar a origem da aventura canina na Terra. Jennifer Raff, geneticista antropológica da Universidade do Kansas (EUA) que não participou do estudo, alertou, na revista Science para a necessidade de analisar também o DNA nuclear, já que o DNA mitocondrial representa apenas uma pequena fração do genoma de um animal. Peter Savolainen, geneticista do Instituto Real de Tecnologia (Suécia), também explica que a assinatura A2b não é exclusiva de cães das Américas, como dizem os pesquisadores, o que poderia invalidar toda a análise genética.

    Os cientistas explicaram em entrevista ao jornal The New York Times que dados obtidos a partir do DNA de fósseis de cães siberianos com 18 mil anos ou mais poderiam ajudar a provar ou refutar a hipótese. Conseguir esse material é o foco atual dos pesquisadores.

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