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Humanos podem ter domesticado cães “por acidente”, sugere estudo

O excesso de carne estocada por humanos para enfrentar invernos rigorosos pode ter atraído lobos que, no futuro, se tornariam fiéis companheiros.

Por Bruno Carbinatto 11 jan 2021, 21h09

O cão é o melhor amigo do homem – isso todo mundo sabe. Mas ninguém tem certeza de quando e como essa longeva amizade começou. Em algum momento da história, os humanos se aproximaram dos lobos selvagens e construíram uma relação que acabou sendo benéfica para os dois. Com o tempo e com a influência humana, os caninos ferozes se transformaram no que hoje conhecemos como pets domésticos.

Agora, uma nova hipótese sugere que o excesso de carne estocado pelos nossos ancestrais para enfrentar os duros invernos pode ter atraído os lobos para perto de grupos de humanos, dando início ao surgimento do Canis familiaris, o cão moderno.

Atualmente, a teoria mais aceita entre os cientistas diz que esse processo aconteceu entre 40 e 20 mil anos atrás, de acordo com análises genéticas. O fóssil mais antigo de um cão foi encontrado por arqueólogos na Alemanha ao lado de restos humanos, e data de 14,2 mil anos atrás. Isso indica que a domesticação já estava bem estabelecida nessa época.

  • Não se sabe onde o processo aconteceu – há indícios de que os cachorros primeiro viraram pets na Ásia, mas outros sugerem que isso ocorreu na Europa. É possível que os humanos tenham domesticado cães duas vezes, em dois eventos separados nestes continentes.

    Outro mistério sem resposta é como a aproximação entre os primatas e os caninos ocorreu e se manteve. Embora os Homo sapiens sejam exímios domesticadores e tenham uma longa lista de animais, plantas e até fungos domesticados, os cachorros são um caso especial: eles foram os primeiros animais domesticados e os únicos que se tornaram amigos dos humanos enquanto nossos ancestrais ainda viviam como caçadores-coletores, ou seja, em grupos nômades que comiam carne de caça e vegetais colhidos na natureza. Todos os outros animais domesticados só passaram a conviver com os humanos depois do estabelecimento da agricultura como forma de vida. Além disso, os cães (antes lobos) eram animais carnívoros de grande porte e predadores que poderiam ser um risco para humanos, o que torna esse vínculo de amizade ainda mais improvável.

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    A hipótese mais aceita diz que os lobos ancestrais dos cães foram atraídos para assentamentos humanos por conta dos restos de carne deixados por eles. Com o tempo, os grupos nômades aprenderam que ter aqueles caninos por perto oferecia proteção contra ameaças, além de ajudar em caçadas e batalhas. Assim, os humanos desenvolveram uma nova habilidade: passaram a ser pastores. Selecionavam os melhores cães (mais fortes e, ao mesmo tempo, mais dóceis) e criavam vínculos com eles, trazendo benefícios para as duas espécies.

    Um novo estudo, publicado na revista Scientific Reports, segue essa ideia, mas vai além: pesquisadores da Finlândia perceberam que os indícios mais antigos de domesticação dos cães foram encontrados em áreas da Eurásia que, na época, tinham climas análogos aos atuais ambientes árticos ou subárticos. Em outras palavras: eram muito frios. Nesses invernos rigorosos, a comida é escassa, mas se sabe que os humanos da época estocavam alimento para enfrentar as dificuldades.

    Segundo a equipe, esse estoque de comida pode explicar a aproximação dos lobos mais do que simplesmente restos de carne deixadas pelos assentamentos. Isso porque humanos tem uma dieta onívora, e não conseguem se manter para sempre apenas ingerindo carne – há um limite estabelecido pelo nosso corpo para digerir proteínas. Já os caninos conseguem viver longos períodos só comendo carne.

    Os cientistas calcularam a quantidade de carne estocada pelos humanos dessa época com base na quantidade de espécies de presas disponíveis – e descobriu que essas populações tinham mais comida do que aguentavam comer. O excesso, argumentam, pode ter ido parar na boca dos lobos, que competiam com os humanos para caçar os animais. E isso teria acontecido sem necessariamente uma intenção de domesticar os animais – seria mesmo um “acidente” causado pelo excesso de estoque.

    Isso também explica, segundo a equipe, por que os humanos e cães se aproximaram mesmo em uma época glacial, em que a escassez dos alimentos poderia ter colocado os dois grupos em duelo no jogo da sobrevivência. Sem precisar competir pela carne, a relação pode ter sido inicialmente dócil – abrindo caminho para que, no futuro, os humanos passassem a se aproveitar dos benefícios de seus melhores amigos.

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