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Como fezes humanas podem ser incorporadas em construções civis

Em estudo, concreto feito a partir de dejetos fecais se mostrou mais resistente que o modelo tradicional.

Por Amanda Nascimento 9 set 2026, 10h00
Como fezes humanas podem ser incorporadas em construções civis Priorizar nos meus resultados Google

Nos poucos segundos que você leva para ler esta frase, 150 toneladas de concreto são despejadas no mundo pela indústria de construção. Em um único dia, esse número aumenta para aproximadamente 82 milhões de toneladas e, ao longo de um ano, chega a assustadores 30 bilhões de toneladas. Hoje, o concreto é praticamente inescapável. 

Basta olhar ao redor para confirmar sua presença em peso nas cidades: a maioria dos projetos o utiliza de alguma forma. Segundo dados da Global Cement and Concrete Association (GCCA), o concreto corresponde ao segundo material mais consumido no planeta, ficando atrás apenas da água. 

Nessa história, porém, há apenas um (grande) problema: um dos seus principais ingredientes, o cimento, é extremamente prejudicial para o meio ambiente. Sua produção, que envolve o aquecimento de calcário, está entre uma das principais fontes de emissões de dióxido de carbono – o que intensifica o efeito estufa, e, consequentemente, o aquecimento global. 

Agora, um estudo da Manipal University Jaipur, na Índia, indica um possível substituto para o cimento: as fezes humanas. Engenheiros fizeram seu próprio concreto a partir da mistura de biocarvão e dejetos fecais obtidos em estações de tratamento locais. O resultado, publicado na revista Scientific Reports, é descrito como “uma melhoria significativa às propriedades do concreto”. 

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O biocarvão é tido como um dos substitutos mais promissores do cimento. Trata-se de um material rico em carbono produzido pelo aquecimento de matéria orgânica em um ambiente com pouco oxigênio. A grande vantagem do processo é que o biocarvão pode ser produzido a partir de vários tipos de matéria orgânica – serragem, madeira e casca de arroz, por exemplo. 

Então, pesquisadores pensaram: por que não as fezes humanas? Afinal de contas, assim como o cimento, o material é encontrado em abundância pelo mundo –  em um único dia, uma pessoa produz até cerca de 400 gramas de fezes.

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Comparando concretos

É difícil encontrar um material que supere as vantagens do concreto. Quando úmido, ele é maleável e pode ser moldado em praticamente qualquer formato. Assim que endurece, porém, ele se transforma em um material resistente o suficiente capaz de suportar cargas enormes e durável o bastante para resistir por décadas (ou milênios).

É por isso que pesquisadores se surpreenderam quando viram que o concreto feito a partir de fezes humanas teve resultados melhores que o tradicional. De modo geral, o concreto era mais resistente e mais forte quando 5% do cimento foi substituído pelo biocarvão fecal.

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Para chegar a esses resultados, a equipe mediu a retração, a resistência à compressão, a resistência à flexão, a absorção de água e a porosidade de suas diferentes misturas. Após 91 dias, a mistura fecal havia registrado aumento médio de 20% na resistência à compressão e de 36% na resistência à flexão.

Ainda assim, pesquisadores pedem calma. Isso porque ainda são necessários mais estudos para avaliar o desempenho do material em condições reais, como no extremo frio, salinidade e altas temperaturas. O estudo também não avaliou o impacto desse método nas emissões de carbono.

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Mas por que as fezes tornam o concreto mais resistente?

Pesquisadores acreditam que vários fatores atuam em conjunto. 

Para começar, o biocarvão feito de fezes é altamente poroso, repleto de cavidades capazes de absorver água e liberar líquidos gradualmente à medida que o concreto endurece. Na prática, isso transforma as partículas de biocarvão em pequenos reservatórios internos, mantendo a água disponível para as reações químicas que endurecem e fortalecem o cimento.

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Em seguida, uma das substâncias do biocarvão, a sílica, é capaz de reagir com compostos produzidos pelo cimento para formar mais silicatos de cálcio – substâncias que ajudam a atribuir resistência ao concreto.

Por fim, as partículas finas de biocarvão podem preencher espaços vazios no concreto e melhorar a forma como os ingredientes se compactam e se unem.

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