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Conhece-te a ti mesmo

Por 1 out 1998, 01h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h54

Bernardo Esteves

Ele descobriu que as neuroses eram resultado de traumas na infância. E dizia que os sonhos eram a chave da alma. As idéias de Freud eram tão revolucionárias que chocam muita gente até hoje.

Na opinião de Freud, a ciência desferiu três duros golpes contra o orgulho humano. O primeiro foi quando Copérnico descobriu que a Terra não era o centro do universo. O segundo, quando Darwin mostrou que o homem era um animal como outros. O terceiro, quando ele mesmo, Freud, afirmou que o homem não era dono nem dos seus próprios pensamentos.

Freud nasceu em Freiberg, na Morávia, então Império Austro-Húngaro. Quatro anos depois, sua família mudou-se para Viena, onde morou quase a vida toda. Pensou em estudar Filosofia, mas acabou optando pela Medicina. Seu interesse pelas doenças mentais apareceu cedo e ele especializou-se em Neurologia. Influenciado pelo médico francês Jean-Marie Charcot, com quem estudou em Paris, pesquisou pacientes histéricos tratando-os pelo método da hipnose. Acreditava que a histeria era causada por traumas sexuais ocorridos antes da puberdade. Hipnotizados, os pacientes poderiam se curar rememorando a intolerável lembrança das emoções responsáveis pela doença. Esse resgate de traumas passados foi o embrião da teoria psicanalítica, que viria mais tarde, em 1900. A inovação fundamental foi encarar as patologias mentais como resultado de fatores psicológicos e não fisiológicos.

Mas, antes, Freud teve que explicar a si mesmo. Em 1897, dois anos depois de descobrir a influência dos sonhos no inconsciente, iniciou uma torturante auto-análise. Interpretando os próprios sonhos, descobriu vários traumas que tentara reprimir a vida inteira – entre eles, um sentimento de ódio pelo pai e um desejo sexual pela mãe. Daí, concluiu que as neuroses são traumas psicológicos infantis, recalcados no inconsciente.

Depois do período de auto-análise, Freud aprimorou o método terapêutico da livre associação de idéias, que permitia a manifestação de temas do inconsciente. O médico pedia que o paciente relatasse sem censura tudo o que lhe passasse pela cabeça e, depois, analisava e interpretava. Criou assim a Psicanálise, a cura pela palavra. A teoria, divulgada em A Interpretação dos Sonhos, de 1900, sofreu duras críticas da comunidade científica. Mas Freud não ligava para seus pares. Para ele, a rejeição agressiva era a prova de que havia posto o dedo na ferida.

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Na primeira década do século, conquistou vários discípulos. Em 1907, com Carl Jung e Eugen Bleuer, a Psicanálise chegou à Suíça. Em 1908, realizou-se em Salzsburgo o primeiro Congresso Internacional de Psicanálise. Em 1938, a Alemanha nazista invadiu a Áustria e as obras do judeu Sigmund Freud foram condenadas. Ameaçado pelo regime de Hitler, mudou-se para Londres, onde morreria aos 83 anos, de úlcera. Graças a ele, o ser humano se redescobriu.

Ficha técnica

Nome

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Sigmund (nascido Sigismund) Freud

Nascimento

6 de maio de 1856, em Freiberg, Áustria (hoje República Tcheca)

Morte

23 de setembro de 1939, em Londres

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Formação

Neurologista formado pela Universidade de Viena

Ocupação

Neurologista e psicanalista

Destaque

Fundou a Psicanálise, a corrente da Psicologia que busca explicar a mente humana a partir da sexualidade e das experiências infantis

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Eureka! Eureka! Eureka!

O sonho que abriu o caminho da Psicanálise

Até 1895, Freud não se preocupava com os sonhos. Suas energias estavam dirigidas para algo que ele julgava mais grandioso,

“O Projeto”, nome abreviado do Projeto para uma Psicologia Científica. No estudo – uma vasta coleção de erros e disparates – tentava explicar os fenômenos inconscientes analisando a morfologia do cérebro.

Em 24 de julho daquele ano, entretanto, numa casa de campo perto de Viena, teve um sonho que o demoveu do “Projeto”. Sonhou que uma paciente, Irma, havia recebido uma injeção com uma seringa suja. A moça era, na vida real, vítima de um erro médico de seu amigo Wilheim Fliess, que ele, Freud, tentara acobertar.

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Freud interpretou o sonho como uma vontade sua de se eximir do erro. E percebeu de vez, como já vinha notando, que o inconsciente se manifestava por meio dos sonhos. Esta certeza marcou o nascimento da teoria psicanalítica. Numa carta a Fliess, disse que, naquela casa, deveria ser afixada uma placa com os dizeres: “Aqui, em 24 de julho de 1895, o segredo dos sonhos foi revelado para o dr. Sigmund Freud.”

“A mente é como um iceberg: apenas um sétimo de seu volume flutua acima da água.”

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