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Covid-19: primeiro caso em animal selvagem é identificado nos EUA

Um único minque não-domesticado testou positivo para a doença após surtos em fazendas no estado de Utah.

Por Bruno Carbinatto 15 dez 2020, 18h54

Cientistas americanos confirmaram o primeiro caso de Covid-19 identificado em um animal selvagem. No estado de Utah, um vison (ou minque), uma espécie de mamífero prima dos furões e das doninhas, testou positivo para o Sars-CoV-2 em uma pesquisa de campo periódica feita por autoridades ambientais dos Estados Unidos.

Segundo o Departamento de Agricultura do país, o caso é, até agora, isolado, e não há sinais de infecções generalizadas na natureza. Mesmo assim, a notícia preocupa autoridades ambientais, já que o vírus pode ter impactos desconhecidos na vida selvagem desprotegida – e na saúde pública global como um todo.

Minques são animais utilizados pela indústria da moda por conta de sua pele; um único casaco de luxo feito a partir do animal pode custar até R$ 230 mil. Por isso, milhares são criados em fazendas nos Estados Unidos, Europa e China.

  • Nos Estados Unidos, pelo menos 16 fazendas de visons registraram surtos de infecção por Covid-19 nos últimos meses, nos estados de Winsconsin, Oregon, Michigan e Utah, sendo esse último o mais afetado. Por isso, autoridades de saúde vinham testando animais selvagens próximos a essas regiões em busca de possíveis infecções escapando para a natureza. Até agora, todos os testes tinham dado negativo.

    O sequenciamento genético do vírus encontrado no vison selvagem é “indistinguível” da linhagem viral responsável pelo surto na fazenda de Utah, indicando que de fato a infecção se originou de lá. Até agora, pelo menos, o surto não parece ter se espalhado, e todos os outros minques da região testados estavam livres do vírus. “Atualmente não há evidências de que o SARS-CoV-2 esteja circulando ou tenha sido estabelecido em populações selvagens em torno das fazendas de visons infectados”, escreveu o Departamento de Agricultura em um comunicado.

    É a primeira vez que um animal selvagem testou positivo para a presença do vírus em toda a pandemia, mas outros animais mantidos em cativeiros já haviam sido infectados antes – incluindo minques. Além dos Estados Unidos, países como Canadá, Holanda, Espanha e Dinamarca registraram surtos significativos em fazendas com o animal.

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    O caso que chamou mais atenção foi o do país nórdico, que era o maior produtor de pele de minque em todo o mundo. O governo dinamarquês optou por sacrificar quase 17 milhões de minques após casos de Covid-19 em humanos terem sido originados desses animais – o número corresponde a basicamente toda população de visons mantidos em fazendas no país. O mercado movimentava R$ 7,2 bilhões ao ano no país, segundo estimativas.

    Minques são, até agora, os únicos até agora que comprovadamente transmitem o vírus para humanos, o que pode gerar surtos e também impulsionar mutações no genoma viral. Cerca de 300 casos de Covid-19 foram identificados na Dinamarca, especialmente na região norte, vindos de uma linhagem do vírus encontrada nos minques. Essa cepa continha diversas mutações não observadas anteriormente, segundo a Organização Mundial da Saúde, embora nenhuma diferença na gravidade, nos sintomas ou na transmissão dela tenha sido identificada.

    Outros países, como Espanha e Grécia, sacrificaram milhares de minques pelo mesmo motivo. A Holanda, que já havia aprovado uma lei para acabar com suas fazendas de minques até 2024 antes da pandemia por motivos de direitos dos animais, decidiu antecipar a medida para esse ano após surtos com o vírus.

    Além dos minques, outros animais já testaram positivo para Covid-19, todos em cativeiro ou em ambientes privados e todos infectados por humanos. A lista inclui alguns gatos e cachorros domésticos e tigres, leopardos-da-neve e leões mantidos em zoológicos. A diferença crucial é que, nesses casos, os animais não parecem transmitir a doença de volta para humanos. Por isso, não representam uma preocupação tão grande como no caso dos minques.

    Estabelecer o vírus circulante na vida selvagem, no entanto, pode oferecer um risco enorme, tanto ambiental como para saúde pública. Até agora, nenhum dos animais infectados apresentaram sintomas ou desenvolveram quadros da doença. No entanto, não se sabe como outras espécies podem responder à infecção pelo coronavírus. No pior dos casos, populações inteiras de animais selvagens podem ficar doentes e até morrer devido à doença. Além disso, espalhar o vírus pela natureza também oferece um risco à saúde humana, já que ele pode circular por diversas formas de vida e voltar à infectar a humanidade eventualmente, carregando consigo mutações imprevisíveis.

    A própria pandemia começou assim: acredita-se que o Sars-CoV-2 tenha se originado em um animal selvagem antes de ser transmitido para humanos. Não se sabe ao certo qual animal exatamente foi o hospedeiro da doença. Cientistas já encontraram outros coronavírus parecidos em morcegos, mas há bons motivos para acreditar que há um hospedeiro intermediário que fez a ponte entre os morcegos e os humanos, talvez na China. Um dos suspeitos é o pangolim, embora estudos conflitantes tenham falhado em bater o martelo sobre a questão.

    Por esses motivos, a Organização Mundial da Saúde Animal (World Organisation for Animal Health) vem observando de perto possíveis casos de infecção em vida selvagem. O Departamento da Agricultura dos Estados Unidos já alertou a organização sobre o novo caso, ressaltando, porém, que parece ser um episódio isolado, já que nenhum outro animal testou positivo. As autoridades também afirmaram que continuarão o trabalho de testagem periódica de animais selvagens na região para evitar o pior dos cenários.

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