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Crianças que sofrem traumas envelhecem mais rápido, mostra estudo

Crescer em ambientes violentos ou sem acesso a direitos básicos pode ocasionar desde puberdade precoce até alterações na estrutura cerebral.

Por Carolina Fioratti - Atualizado em 5 ago 2020, 16h24 - Publicado em 5 ago 2020, 16h19

Um estudo da Associação Americana de Psicologia, publicado na revista científica Psychological Bulletin, sugere que crianças que passaram por traumas na infância podem apresentar envelhecimento biológico precoce. Esse envelhecimento está relacionado à puberdade precoce, desgaste celular e alterações na estrutura cerebral – problemas que a longo prazo podem levar ao surgimento de doenças.

Os pesquisadores analisaram 79 trabalhos previamente publicados, que contavam com dados de 116 mil criadas em ambientes adversos. As crianças foram divididas em dois grupos. O primeiro era formado por aquelas que enfrentaram algum tipo de violência, como assédio sexual e abuso; o segundo era composto por crianças que viveram em situações de negligência, miséria e sendo privadas de direitos básicos.

Ambos os grupos apresentaram envelhecimento precoce, mas em intensidades diferentes. As crianças que sofreram violência, por exemplo, corriam mais risco de puberdade precoce. As meninas tinham suas menarcas (primeira menstruação) muito antes de outras colegas da mesma idade.

O mesmo ocorreu com o desgaste celular. Nas extremidades das cadeias de DNA há um tipo de proteção chamada telômero. Os telômeros se desgastam naturalmente com o passar dos anos, mas os cientistas observaram que, nas crianças do primeiro grupo, essas proteções já se mostravam mais encurtadas do que o normal para a idade.

Os cientistas também avaliaram o impacto das adversidades no afinamento do córtex (camada externa do cérebro), um processo que também está ligado ao envelhecimento. Em crianças que cresceram num ambiente perigoso, foi observada a aceleração do processo nas regiões do cérebro que processam informações sociais e emocionais, enquanto nas crianças que sofriam privações a alteração ocorria nas áreas relacionadas à memória e tomada de decisões. “Mentalmente, isso pode se transformar em ansiedade e depressão algum tempo depois. Fisicamente pode virar diabetes e cardiopatias”, explicou Katie McLaughlin, co-autora do estudo e professora da Universidade de Harvard (EUA), à CNN.

Os pesquisadores acreditam que a identificação do envelhecimento precoce por parte de pediatras pode ajudar a impedir que os indivíduos desenvolvam doenças, o que ajudaria também a descarregar o sistema de saúde. Além disso, o envelhecimento precoce pode ser uma forma de alertar aos profissionais que seus pacientes podem ter sofrido ou estar sofrendo violência ou privação no ambiente doméstico, facilitando um encaminhamento à terapia.

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