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Entenda de uma vez: como o cérebro funciona

Maestro que rege a orquestra de 37 trilhões de células do nosso corpo, ele é o responsável por nos manter vivos e pensando.

É um amontoado de cerca de 86 bilhões de neurônios – células nervosas que trabalham gerando impulsos elétricos. Cada uma dessas células tem cerca de 7 mil conexões com as vizinhas, as chamadas sinapses. No final, temos um sistema nervoso com cerca de 600 trilhões de conexões paralelas, trabalhando de forma frenética para realizar todas as funções de coordenação e controle requeridas pelo corpo.

Não foi fácil chegar até esse ponto. Há 4 bilhões de anos de evolução por trás da máquina biológica mais sofisticada já vista na Terra, e seu interior guarda pistas claras desse processo. De forma geral, dá para dizer que o cérebro humano tem uma hierarquia em três camadas. A porção mais interna (coluna espinhal e tronco cerebral) responde pelos instintos mais primários de agressividade e fuga, uma camada intermediária (com estruturas como a amígdala, o hipotálamo e o hipocampo) é responsável pelas emoções mais simples (como fome, sono, sede, cansaço e apego), e uma camada superior (o neocórtex) responde pelo que de mais interessante acontece em nossa cachola, abrigando a razão, o processamento fino dos sentidos e, enfim, o que chamamos de forma vaga de “mente”.

Contudo, é errada a noção de que há cérebros dentro de cérebros, no sentido de que se usa apenas um deles numa situação, e outro em outra. Nossa cachola parece estar toda interconectada, e seu funcionamento normal depende disso. Ainda assim, uma das coisas mais surpreendentes é que ele parece mesmo dividido como uma loja de departamentos – cada setor responde por certas atividades.

É um dos lampejos mais antigos da neurociência, obtido ao estudar pessoas que sofreram lesões cerebrais. Os pesquisadores começaram a notar que a sequela observada dependia da área do cérebro afetada. Uns podiam perder os movimentos de uma parte do corpo, outros podiam ficar sem a visão e houve até quem tivesse a personalidade completamente alterada.

A sede do nosso “eu” é modular, mas também tem plasticidade, ou seja, é capaz de se reorganizar a partir de efeitos do ambiente.

A sede do nosso “eu” é modular, mas também tem plasticidade, ou seja, é capaz de se reorganizar a partir de efeitos do ambiente. (Cristina Kashima/Superinteressante)

Também vale lembrar que temos dois hemisférios cerebrais, que possuem algum grau de especialização. A linguagem, por exemplo, é processada e produzida no hemisfério esquerdo, embora o direito tenha capacidades linguísticas básicas. De forma genérica, o hemisfério direito tem uma pegada mais artística, criativa, e o esquerdo é mais ligado à lógica. E cada hemisfério controla o lado inverso do corpo; o direito controla a mão e o pé esquerdos, e vice-versa.

Mas o que acontece quando uma parte dele é perdida ou inutilizada? O cérebro parece ter um mecanismo (limitado, é verdade) de recuperação de funções perdidas. É o que os neurocientistas chamam de plasticidade, a capacidade de modificar as conexões cerebrais a partir de estímulos do ambiente, de forma a adquirir novas habilidades. É graças a isso que muitos pacientes que tiveram um acidente cerebral e perderam parte dos movimentos podem recuperá-los com fisioterapia. A ideia é ensinar o cérebro a se reorganizar, usando uma parte dele que antes servia a outro propósito para suprir a perda da região afetada.

É graças a essa capacidade constante de reorganização que podemos aprender novas coisas e produzir memórias. Aliás, aproveitemos a deixa para acabar com um mito persistente sobre o cérebro. Não é verdade que usamos só 10% da capacidade cerebral. Usamos toda a nossa cachola, o tempo todo. Há áreas que se ativam mais com determinadas atividades, mas elas estão sempre em uso, e seja lá com o que você está quebrando a cabeça, isso não gasta muito mais energia do que o funcionamento básico; olhando para o nada e pensando, idem.

Todos esses lampejos foram confirmados e reforçados em anos recentes, com a possibilidade aberta pelas técnicas de ressonância magnética funcional, que permitem ver o cérebro trabalhando em tempo real. Elas nos dão esperança de que um dia, talvez logo, possamos entender o maior mistério de todos: como surge a nossa própria consciência?