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”É preciso desmistificar a matemática”

Professora brasileira transforma problemas reais em modelos matemáticos. A solução da conta pode ajudar a controlar a dengue.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 19h02 - Publicado em 27 nov 2015, 06h00

Entrevistamos a professora Helenice de Oliveira, da UNESP, a respeito do uso de modelos matemáticos na procura de soluções para problemas do cotidiano, sobretudo em questões de saúde pública.                                  

Como a matemática pode resolver problemas reais?

Existem problemas importantes dentro de áreas como medicina, biologia e agricultura que, no passado, podiam ser resolvidos com intervenções simples, mas que hoje viraram problemas complexos. É o caso, por exemplo, do controle de doenças que podem se transformar numa endemia ou da criação de fontes alternativas de energia renovável. e existe uma área inteira da matemática, chamada otimização, dedicada a solucionar esses problemas complexos. Otimizar ajuda cientistas a transformar um problema real num modelo matemático. e a resolução desse modelo pode ajudar a resolver o problema real.

Como esses modelos são resolvidos?

Existem alguns passos que devem ser seguidos para resolver todos os problemas de otimização. O processo começa com o estudo aprofundado do problema real e de toda a teoria que o envolve. Depois, essa teoria é transformada, de forma simplificada, em equações, para criar um modelo matemático desse problema. O próximo passo é resolver esse modelo e aplicar a solução ao problema real.

Quando você começou a utilizar os modelos?

O primeiro trabalho aplicado que realizei foi na área da agricultura. Nosso problema era definir qual variedade de cana de açúcar deveria ser plantada (entre cerca de 20 tipos) e qual terreno de uma usina na região de Botucatu deveria ser utilizado para a plantação (eram cerca de 400 opções). O objetivo era maximizar a produção e minimizar custos com transporte. resolvemos o problema, a solução foi bem aceita e abriu caminho para outros trabalhos nessa linha.

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É possível monitorar a dengue usando a matemática?

Todo o ciclo de vida do mosquito pode ser modelado de forma matemática. esse ciclo começa quando os machos se acasalam com as fêmeas virgens e termina quando essas fêmeas espalham seus ovos. ele pode ser transformado num modelo matemático utilizando equações diferenciais ordinárias. e a solução dessas equações pode mostrar o comportamento de cada segmento da população de mosquitos, ou seja, quais grupos de mosquitos (que podem ser machos, fêmeas virgens ou fêmeas com ovos) estão ficando maiores.

E como controlar a endemia?

Quando a população de mosquitos começa a crescer muito, é necessário aplicar algum tipo de controle, como a utilização de inseticida, a remoção de criadouros ou uma solução biológica (quando machos criados em laboratório e esterilizados com radiação são soltos na natureza para concorrer com outros machos, sem gerar filhotes). Como todos esses tipos de controle apresentam alguma desvantagem, o modelo matemático ajuda a determinar qual a melhor época para iniciar o controle do mosquito e como cada tipo de controle deve ser usado.

Como avalia o medo que sentimos da matemática?

Acredito que é preciso desmistificar a matéria. Ela sempre foi vista como um bicho de sete cabeças, sem aplicações práticas. Mas isso não é verdade. Acredito que a matemática pode ser aplicada às nossas vidas. Mas, para que isso seja possível, é preciso conhecer alguns conceitos básicos que dão toda a estrutura para essas aplicações práticas. A verdade é que matemática exige investimento pessoal.

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