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E se minerássemos no espaço sideral?

Uma missão para minerar fora da Terra custaria US$ 2,6 bilhões. E um asteroide facilmente tem US$ 50 bilhões em platina. Mas quais seriam as consequências desse negócio?

Por Fábio Marton 14 dez 2021, 20h27

A riqueza está lá fora. Quando se fala em minerar asteroides, não é sem uma razão forte. Elementos extremamente raros por aqui existem em abundância no espaço.

Ouro, cobalto, platina, tungstênio, paládio: todos esses são metais não só raros e caros, mas essenciais para a tecnologia moderna.

Esses elementos têm uma demanda cada dia maior e podem representar uma barreira para a expansão da tecnologia. A crise dos chips, que atualmente estamos vivendo, pode ser só um prelúdio para quando chegarmos ao limite. Ela em parte foi causada pelo aumento no preço do cobre (que também pode ser encontrado no espaço). Alguns desses elementos tecnológicos, como o lítio, até mesmo correm o risco de extinção.

Assim, mesmo que pareça algo absurdamente caro, ir até onde esses metais não são raros pode valer a pena. Um estudo da Universidade Tecnológica da Califórnia (Caltech) previu que uma missão para minerar um asteroide custaria US$ 2,6 bilhões. Não é um absurdo: construir uma mina profunda na Terra não sai tão mais barato: por volta de US$ 1 bilhão. Mas pode render menos. Já um asteroide facilmente tem US$ 50 bilhões em platina.

Antes de chegar ao espaço, uma explicação de por que essa viagem precisaria ser feita. Existe um motivo para que certos elementos sejam raros na Terra e comuns no espaço. São elementos que se ligam facilmente com o ferro.

O ferro é muito mais abundante no núcleo da Terra do que na superfície. Lá embaixo, 80% é ferro. Aqui, na superfície, predomina o silício.

Quando a Terra se formou, a maior parte do ferro afundou para o núcleo, já que se trata de um elemento pesado. E levou com ele as substâncias que se combinavam. Na superfície ficaram os que não têm tanta afinidade com ferro.

O que a gente encontra de metais com afinidade por ferro na superfície é resultado do impacto frequente e intenso de asteroides após a solidificação da crosta do planeta, mas antes do surgimento da atmosfera. O ouro que mineramos hoje veio do espaço.

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Suponha então que demos esse salto. Minerar asteroides não significaria, de começo, a colonização do sistema solar. Missões provavelmente seriam automatizadas – o custo de mão de obra e infraestrutura para sobrevivência humana no espaço profundo poderia ser proibitivo. No lugar de irmos até os asteroides para minerá-los, ele seriam trazidos para perto. A exploração rolaria na órbita da Terra.

A mineração é um passo praticamente obrigatório para a colonização espacial em larga escala. Criar naves gigantes para ir longe é mais fácil no espaço do que na Terra, onde cada parte da construção teria que ser lançada em foguetes, a custos astronômicos. E fabricar no espaço, igualmente, só é viável para valer se os elementos forem minerados no espaço. Com tanta gente trabalhando lá em cima, não são só metais que podem ser minerados: água, tirada de cometas, seria um recurso valioso para a manutenção de colônias fora do nosso planeta.

A Terra, assim, desenvolveria uma imensa estrutura industrial em órbita e, só aí, estaria pronta para se lançar, enfim, onde ninguém foi antes. E, mesmo voando baixo, isso significaria uma explosão na tecnologia espacial, e eventualmente tudo acabaria barateado ao ponto de, de fato, começarmos a pensar em ir mais longe.

Em solo, haveria positivos e negativos. Os lados positivos são o fim da insegurança de materiais e o fim da própria mineração, um tipo de atividade agressiva ao meio ambiente (lembre-se de Brumadinho).

A poluição ficaria para o espaço: o lixo espacial. Atualmente, são restos de satélites e outros objetos deixados em missões, que por vezes põem em risco o trabalho de astronautas. Algum programa mundial teria que ser criado, ou a Terra acabaria por formar uma espécie de anel como o de Saturno. Anéis se formam quando pequenas partículas em grande quantidade orbitam um planeta. Só que, em nosso caso, o anel seria de lixo.

A bonança espacial seria má notícia para alguns: metais raros deixariam de ser raros, pela primeira vez na história humana. Isso baratearia os próprios eletrônicos, contribuindo para o cenário de progresso. Mas seria a ruína de quem depende desses metais.

São países em que a mineração gira parte considerável da economia, como a China e o Brasil. Aqui há boas reservas de manganês, nióbio e níquel, parte da lista dos metais espaciais. Dá para ver a China na vanguarda da mineração espacial um dia. Praticar o mesmo exercício em relação ao Brasil exige algum otimismo.

Não estaríamos sozinhos em puxar o palitinho mais curto. A vantagem dos países avançados e capazes de ir ao espaço se alargaria. Mas essa indústria se tornaria progressivamente menos lucrativa com o tempo. É possível que pudéssemos acabar com um quase literal cinturão da ferrugem: uma estrutura industrial em órbita abandonada. Para evitar esse destino, só mesmo se a humanidade de fato se expandisse para Marte, o menos inabitável planeta do sistema solar – de modo a criar mais e mais demanda para a mineração espacial.

Claro que tudo isso ainda tem dois pés na ficção científica. A contagem de material trazido do espaço até hoje ainda está em gramas. O recordista, a missão OSIRIS-REx, da Nasa, decolou em 2016 e deve trazer 60 gramas de material de asteroide de volta à Terra em 2023.

Mas você sabe: existe hoje uma corrida espacial privada, com empresas como a SpaceX, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos. Significa que uma parte respeitável das grandes fortunas amealhadas na Terra já se dirige para o espaço. É o início de uma aventura que tem tudo para se tornar a versão futura das Grandes Navegações, que também deram seu pontapé inicial com o financiamento de magnatas, e criaram o mundo como o conhecemos hoje.

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