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E se… não houvesse fronteiras?

A primeira idéia que vem à cabeça é um mundo de migrantes, onde os homens se deslocariam livremente em busca de melhores oportunidades e qualidade de vida.

Por 31 dez 2002, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h45
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Fernando Neves

Do espaço elas não são vistas, mas estão entre as criações humanas mais antigas e, desde sempre, foram impostas pela força e pelo poder, motivando disputas sangrentas, algumas irreversíveis. Elas reúnem e afastam povos. Mas e se, de repente, eliminássemos as fronteiras entre os países? Como seria o mundo sem estrangeiros?

A primeira idéia que vem à cabeça é um mundo de migrantes, onde os homens se deslocariam livremente em busca de melhores oportunidades e qualidade de vida. Segundo André Martins, professor de geografia regional e política da Universidade de São Paulo (USP), o nascimento dos países se deu por causa da agricultura. A fixação do homem na terra ocorreu há cerca de 10 mil anos. Em torno dos campos férteis foram naturalmente surgindo povoados, vilas, cidades e depois países. “Abolidas as fronteiras, veríamos grandes movimentos migratórios motivados, principalmente, pela busca de emprego. Pois, se no passado a posse da terra era necessária para prover a subsistência, hoje o capital e a oferta de trabalho assumiram esse papel”, diz. Seria comum ver latino-americanos indo para os Estado Unidos e africanos em busca de emprego na Europa. Legalmente.

“É provável que sem fronteiras, em pouco tempo, estivéssemos todos falando o mesmo idioma e andando com dólares no bolso”, diz Alexandre Rochman, coordenador do curso de relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política, em São Paulo. Não é uma situação tão irreal para quem mora nas grandes cidades, está acostumado às palavras em inglês e segue as oscilações da moeda americana, como se disso dependesse a felicidade.

A economia sofreria mudanças, cujas tendências já podem ser percebidas. De acordo com Rochman, a Área de Livre Comércio das Américas e a União Européia refletem esse espírito. “A formação de mercados comuns é uma forma de passar por cima das fronteiras econômicas”, diz. Sem barreiras e taxas alfandegárias o comércio e o turismo seriam bastante beneficiados.

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Se alguma integração vem ocorrendo do ponto de vista cultural e econômico, no âmbito político as coisas seriam diferentes. A ausência de fronteiras e o fim das nações exigiriam novo conceito de cidadania. “Hoje, o local de nascimento é determinante para estabelecer os direitos do homem. Seriam necessárias novas leis e organismos supranacionais para garantir os direitos e deveres desses cidadãos do mundo”, afirma Rochman. A Comunidade Européia já discute uma proposta de Constituição comum.

“Teríamos de aprender a viver em uma grande nação com religiões, etnias e culturas diferentes”, diz Martins. Para ele, se o fim das nações não for um processo de integração e de acordos internacionais, seriam mantidas as divergências que hoje motivam conflitos.

Se eliminar as fronteiras não colocaria ponto final às guerras, em alguns casos repararia uma situação artificial criada pela sanha expansionista e imperialista dos europeus, durante o século 19. É o caso da África e do Oriente Médio. “Nos dois casos, não foram levados em conta os interesses das populações locais, e por isso existem tantas guerras nessas regiões”, diz Martins.

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Mas há quem veja na ausência das fronteiras um avanço rumo a uma sociedade baseada menos nos poderes de governos e instituições e mais nos direitos básicos do cidadão. Nada de políticos, nada de tribunais, nada de polícia, nada de ladrão. Parece letra de música do Raul Seixas, mas não é. Este é o mundo sem países, de acordo com Edson Passetti, professor do Núcleo de Estudos de Sociedade Libertária, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Viveríamos o ideal da vida em comum em harmonia”, diz.

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