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“Efeito Bouba-Kiki” é observado em pintinhos recém-nascidos

Pesquisa publicada no periódico Science sugere que a tendência a associar som e sentido pode existir em diferentes espécies.

Por Maria Clara Rossini
25 fev 2026, 16h00 •
  • Os dois formatos abaixo são personagens. Um deles se chama Bouba, e o outro se chama Kiki. Qual deles recebe cada nome?

    Esta imagem é usada como um teste para demonstrar que as pessoas podem não anexar sons a formas arbitrariamente: estudantes universitários americanos e falantes de tâmil na Índia chamam a forma à esquerda de
    (Wikimedia Commons/Reprodução)

    Se você acha que o formato pontudo tem mais cara de Kiki, e o redondo parece um Bouba, você não está sozinho. Essa associação é observada em praticamente todas as culturas humanas, com os idiomas e sistemas linguísticos mais variados entre si. Ela também é observada em crianças e bebês, que ainda não possuem as habilidades linguísticas totalmente desenvolvidas. O “efeito Bouba-kiki”, como é chamado, demonstra que a relação entre o som e sentido das palavras não parece totalmente arbitrária.

    A ciência não sabe explicar totalmente esse efeito. Será que ele surge de associações linguísticas que aprendemos quando crianças? Ou é algo “instintivo”, que surge antes de aprendermos a falar?

    Essas questões são debatidas desde 1947, quando o psicólogo Wolfgang Köhler descreveu o mesmo fenômeno com as palavras “takete” (mais associada a formas pontudas) e “maluma” (formas redondas). Desde 2001, graças a um estudo de V. S. Ramachandran e Edward Hubbard, utiliza-se mais as palavras kiki e bouba nas pesquisas.

    E se o efeito bouba-kiki existisse não só em humanos, mas também em outros animais? Um novo estudo publicado no periódico Science explorou essa relação em pintinhos recém-nascidos. Pesquisadoras da Universidade de Pádua, na Itália, fizeram o experimento em dois grupos: pintinhos com três dias de vida; e pintinhos com 24 horas de vida.

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    O primeiro grupo consistia em 42 pintinhos. Inicialmente, cada animal era colocado em um ambiente com um painel que mostrava uma figura ambígua – uma mistura de kiki e bouba. Ao circundar o painel, o pintinho ganhava comida. Depois, adicionava-se um segundo painel em branco ao ambiente. O pintinho deveria ignorar o painel em branco e circundar o painel ambíguo para receber a recompensa.

    Ilustração dos experimentos Bouba-kiki em pintinhos
    (Maria Loconsole/Silvia Benavides-Varela/Lucia Regolin/Divulgação)

    Depois dessa fase de treinamento, em que os pintinhos estavam se ambientando com o espaço, chegou a hora do teste. Cada animal se deparava com dois paineis com formas distintas: uma pontiaguda e uma redonda. Então, as pesquisadoras tocavam um áudio de uma pessoa repetindo a palavra “bouba” ou a palavra “kiki”. Nesse teste, não havia recompensa.

    Resultado: 66% dos pintinhos preferiam dar a volta no formato redondo quando ouviam a palavra “bouba”, e 56% preferiam circundar o formato pontudo quando ouviam “kiki”.

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    Ilustração dos experimentos Bouba-kiki em pintinhos
    (Maria Loconsole/Silvia Benavides-Varela/Lucia Regolin/Divulgação)

    No segundo experimento, 40 pintinhos mal tiveram tempo de ver o mundo antes de serem submetidos ao teste bouba-kiki. Inicialmente, os animais viam a imagem ambígua na tela de um computador enquanto se ambientavam ao local. Não havia comida ou qualquer recompensa.

    Ilustração dos experimentos Bouba-kiki em pintinhos
    (Maria Loconsole/Silvia Benavides-Varela/Lucia Regolin/Divulgação)

    Já na fase de teste, as imagens redonda e pontiaguda eram mostradas na tela, separadas por uma parede. O pintinho poderia escolher qual das imagens explorar, enquanto as palavras “bouba” ou “kiki” eram tocadas ao fundo.

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    Ilustração dos experimentos Bouba-kiki em pintinhos
    (Maria Loconsole/Silvia Benavides-Varela/Lucia Regolin/Divulgação)

    Os pintinhos exploravam a área redonda por mais tempo quando ouviam a palavra “bouba” (199 segundos na redonda, versus 57 segundos na área pontuda). Quando ouviam a palavra “kiki”, tendiam a explorar mais a área pontuda (144 segundos, em comparação a apenas 44 segundos na área redonda).

    O mais curioso é que, em outros estudos, o efeito bouba-kiki não é observado em primatas não humanos, como bonobos e chimpanzés. Como esses animais são evolutivamente mais próximos de nós, esperaria-se que o efeito ocorresse neles – e talvez não em pintinhos. Para as pesquisadoras, é possível que essa variação ocorra por diferenças metodológicas nos estudos conduzidos.

    O que explicaria, então, esse resultado em pintinhos? Talvez o efeito bouba-kiki não revele apenas uma associação entre som e significado, e sim uma organização do cérebro mais profunda, que atravessa espécies. Talvez objetos redondos tenham uma tendência a lembrar o som “bouba” ao rolar no chão, enquanto objetos pontiagudos lembrem o som “kiki”. Como compartilhamos um mundo com as mesmas propriedades físicas, talvez essa relação esteja gravada na mente de diversos animais.

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    De toda forma, são necessários mais estudos para validar ou refutar essa teoria.

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