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Ficção científica: Como criar um extraterrestre verossímil

História de ficção científica envolvendo seres de outros planetas e a complicada criação de minuciosos sistemas de evolução, prevendo soluções lógicas para todas as dificuldades que possam se apresentar.

Jack Cohen

Durante trinta anos fiz conferências para universitários sobre minha especialidade, a Biologia da reprodução. Na hora dos debates, a pergunta mais comum era sobre a possibilidade de vida em outros planetas e a aparência dos seres que neles moram. Para mim, essta sempre foi a parte mais divertida e estimulante do trabalho e acredito que alguns escritores de ficção científica terão ouvido minhas respostas e aproveitando minha especialização no assunto. Pois não é fácil inventar essas histórias que se passam em outros planetas: é preciso criar todo um ambiente ecológico, baseado num processo evolutivo lógico e bem minucioso, para que o enredo não fique cheio de contradições. Já conheci muitas idéias interessantes e criativas sobre alienígenas, mas quase todas apresentam um defeito fatal: são antropomórficas, ou seja, dão a esses seres aparência humana. Todos têm cabea, tronco e membros, ainda quando pareçam bizarros e chocantes. O famoso geneticista inglês Conrad Hal Waddington (1905 – 1965) acreditava que a forma mais elevada de vida que se desenvolvesse em qualquer planeta semelhante à Terra, inevitavelmente, a aparência de Conrad Hal Waddington. Isso não seria possível, pois a evolução é um processo contingente: se a própria Terra, por artes mágicas, pudesse repetir seu processo evolutivo, seria altamente improvável que os vertebrados reaparecessem com sua forma atual.

O mesmo se aplica a qualquer outro planeta eventualmente habitável: a chance de surgirem sistemas genéticos iguais aos nossos, com seleção das mesmas singularidades levando às mesmas combinações de genes, são remotas, para dizer o mínimo. Encontrar outro planeta com dinossauros ou pessoas iguais às da Terra é mais improvável do que encontrar uma ilhota no pacífico cujos habitantes falem alemão fluentemente. Mas nada disso resolve o problema dos escritores: eles precisam descrever seus alienígenas e o mundo onde vivem. Que regras adotar?

Estudando a evolução da vida na Terra, os biólogos aprenderam algumas coisas que podem ser úteis. Embora os detalhes sejam diferentes, há modelos de problemas que são bem gerais; as soluções comuns para esse problema poderiam se aplicar a qualquer lugar do Universo. Por exemplo, o vôo foi desenvolvido pelos ancestrais dos pássaros, dos insetos, dos morcegos e dos peixes teleósteos, ou seja, os que têm esqueleto mesmo, não simples espinhas. Outro exemplo é a fotossíntese, criada por diferentes organismos do grupo das bactérias (bactérias púrpuras, cianofíceas, os antepassados dos vegetais clorofilados e com certeza muitos outros já extintos).
Provavelmente você esteja perguntando: será a inteligência uma dessas soluções universais? Eu acredito que sim, embora não possa dizer o mesmo da autoconsciência. Aqui na Terra os cefalópodes (polvos, lulas e sibas) e vários vertebrados, como os carnívoros, as baleias, os golfinhos e os primatas conseguiram acrescentar muitas formas de comportamento àquelas herdadas de seus antepassados, forçados pelas exigências do meio ambiente. Sua inteligência se manifesta apenas em resposta a um estímulo – ou seja, eles não sabem que sabem, uma quantidade que apenas o homem possui e chama autoconsciência. Sendo assim, penso que há por aí muitos alienígenas inteligentes, originários de processos evolutivos bem diferentes, o que torna bem viável aquela memorável cena do bar, no primeiro filme da série Guerra nas estrelas*

Há, entretanto, muitas soluções acidentais importantes, tal como o conjunto de singularidades anatômicas que nós – eu, Waddington e todos os vertebrados terrestres – herdamos do “peixe que saiu da água”. Chamo tais particularidades “paroquiais”, pois seriam específicas de uma linha evolutiva somente de um planeta. Vamos explicar melhor o que são soluções universais e soluções paroquiais. O elefante tem pernas bastante grossas – certamente uma solução universal para o problema de agüentar a massa de um corpo enorme num planeta de gravidade relativamente alta. Mas ele possui também uma tromba, que parece uma característica evolutiva contingente que só poderia ocorrer na Terra – solução paroquial, portanto. Agora, analisemos a girafa. Comumente pensarmos que a vantagem, no processo evolutivo, de possuir um pescoço comprido é poder comer as folhas mais altas das árvores, que os competidores não alcançam. Outra forma de observar a girafa é vê-la não como um animal peculiar pela forma como se alimenta, mas pela forma como se movimenta.

Com suas longuíssimas pernas dianteiras ela consegue estar sempre com um passo à frente da mairia dos mamíferos. Assim, salvou-se pela seleção natural graças às pernas que lhe permitiam escapar dos inimigos. Comer as folhas mais altas foi uma vantagem extra proporcionada pelas pernas compridas, que mantinham a cabeça bem lá no alto. Mas então apresentou-se um problema: como beber água que se encontra apenas ao nível do solo? A girafa resolveu o problema com o pescoço comprido: o elefante com a tromba. Duas soluções paroquiais. Assim como podemos reconhecer as soluções universais em nossa história evolutiva, porque elas se manifestaram de muiras maneiras, deveríamos ser capazes de reconhecer as paroquiais, porque aconteceram só uma vez. Mas isso não é fácil, mesmo porque nem sempre podemos saber se algo aconteceu apenas uma, ou várias vezes.
É possível afirmar: o pêlo dos mamíferos, com o mecanismo do folículo e da papila, as características dos pássaros, a locomoção hidráulica das aranhas, a delicada manipulação dos polvos com varias ventosas, são com certeza soluções paroquiais. Mas contrastam com as estruturas com pêlos dos ratos e abelhões, para isolação térmica, os membros articulados com esqueleto externo nos crustáceos, aranhas e insetos, e extremidades das patas ramificadas em mamíferos e insetos, todas soluções universais. Algumas das nossas soluções paroquiais são comuns a todos os vertebrados, e provavelmente, foram criadas por nosso ancestral também comum. Todos temos pulmões próximos do ventre e assim o ar que respiramos pode percorrer o mesmo caminho da nossa comida.

Esta é apenas uma amostra do projeto horrível que nos deu origem e um dos melhores argumentos contra a hipótese da criação divina. Mãos e pés seguem o padrão comum a todos os descendentes do nosso antepassado mais distante, supostamente aquele peixe que saiu da água, mas de nenhum outro organismo na Terra. As juntas são uma solução universal, mas joelhos, cotovelos e cinco dedos são paroquiais. As glândulas genitais e seus canais de circulação estão inexplicavelmente misturados com os canais urinários.

E até mesmo com os intestinos. Nosso comportamento reprodutor “instintivo”, por isso, tem de enfrentar uma série de riscos parasitológicos. Talvez tenha sido previsto que uma espécie de vertebrado inteligente encontraria explicação para suas trapalhadas sociais nessas culpas e dificuldades sexuais.

Os alienígenas que não apresentam esse conjunto de soluções paroquiais não terão rosto como o nosso – olhos, sim, mas nariz, orelhas externas, dentes em série, não – e certamente não compartilharão nosso interesse por experiências lascivas. Alguns dos guichês da ficção científica desabam quando olhados por este prisma. Personagens antropomórficos estão por toda parte, como notório senhor Spock, de Jornada nas estrelas, mas eu não acredito em histórias de discos-voadores com pequenos homens verdes, não porque sejam pequenos e verdes, mas porque são “homens”. Acreditaria ,mais se fossem meleca verde. Um biólogo, como eu, pode sentir prazer ao pensar sobre a vida fora da Terra, por que isso põe À prova seus conhecimentos da evolução, obrigando-o a generalizações ainda mais amplas.
Durante conferência que pronunciei na Convenção Mundial de Ficção Científica, em 1979, alguns escritores presentes me desafiaram a criar seqüências evolutivas prováveis para uma série de alienígenas por eles imaginados. Fiz isso dezenas de vezes, publicamente, e foi muito divertido. Vou dar um exemplo. Os tribbles, notabilizados num dos episódios de Jornada nas estrelas, são bichinhos fofinhos, vindos de uma galáxia distante. São hemisféricos e muito coloridos. Comem tudo que é orgânico e se reproduzem com espantosa fertilidade. Na verdade, dedicam metade de seu metabolismo à reprodução, nascem grávidos e se reproduzem à vontade. São simbiontes – organismos capazes de viver em associação com outros organismos, aproveitando cada espécie vantagens proporcionadas pela outra.

À primeira vista parecem perigosos, pois comem tudo. Pensando melhor, no entanto, eles até que seriam muito úteis. Se comem tudo, podem comer fezes, por exemplo, e tornar-se um fator de higiene muito confortável. Imaginemos um animal alienígena que vive em toca, algo como o coelho, o camundongo ou a marmota. Esta última é muito interessante, porque aqui na Terra já compartilha sua toca com uma coruja e uma cascavel. Nossa marmota alienígena poderia partilhar sua toca com um tribble e aproveitar essa sua dedicação à limpeza. Mas não esqueçamos que as necessidades do sistema reprodutor dos tribles são rigorosas: devem ser moderados dentro da toca, um lugar pequeno, mais precisam ser capazes de se reproduzir velozmente, caso surja a oportunidade para colonizar uma nova toca. Isso não é pura imaginação.

Problema semelhante é enfrentado pelo Gyrodactylus, um ectoparasito de peixes, que não deve causar dano ao seu hospedeiro, mas precisa se multiplicar rapidamente quando encontra um novo lugar para morar. Esse parasito tem duas, às vezes três gerações no útero e o esperma de seus últimos acasalamentos pode invadir qualquer embrião maduro. O Gyrodactylus tem, portanto, a espantosa capacidade de ser avô antes de nascer. Ao transferir-se para um novo peixe, os embriões, e embriões destes embriões, eclodem rapidamente e cada um gera mais bebês a partir do esperma misturado que todos eles herdaram. Voltemos, agora, a nossa ficção.
O proto-tribble poderia também nascer grávido, constituindo cada um deles muitas cadeias genéticas. A exomarmota, ao contrário, evoluiu lentamente, tornando-se uma espécie de organismo hospedeiro universal. Ficou inteligente, muito maior e, fascinada pelo comportamento do tribble, cruzou com ele, por causa da cor…A história fica muito comprida e não há espaço aqui para contá-la toda. No final, elas não conseguiram controlar seu crescimento populacional, pois não aprenderam com os tribbles a lição da continência e as terríveis penalidades que costumam castigar a libertinagem.

Fora a possibilidade de manter leitores e escritores de ficção científica satisfeitos, por que cientistas como eu estão interessados em criar e criticar formas de vida alienígenas? A ciência ocupa-se em formular perguntar sobre o que pensamos saber. Perguntas do tipo “o que poderia ser…” Dessa maneira criamos teorias, projetos experimentais e ensaiamos explicações. A ficção científica é um trunfo, embora pouco apreciada pelos cientistas, mas eu acho um best seller bem escrito e elaborado mais útil para a popularização do conhecimento científico do que as conferências, programas de televisão ou até mesmo artigos escritos para revistas.

Baixa gravidade

Foi num planeta com 0,23 G que os imensos “fluts” se desenvolveram. Livres do problema de peso, esses organismos puderam crescer muito, sem a necessidade de algo como um esqueleto. A locomoção se dá por “saltos corrigíveis”, e os tentáculos funcionam como molas propulsoras, enquanto os oito orifícios equatoriais, ejetando e segando gases da atmosfera, vão corrigindo a rota. O grande número de olhos ao redor do corpo central garante aos “fluts” um visão central do ambiente, condição básica para se viver num planeta onde o predador e a presa podem surgir de qualquer lugar.

Alta gravidade

Ao contrário dos “fluts”, os “pumps” lutam diariamente com os 8G de seu planeta natal. Esses pequenos seres arrastaram por muitas eras a busca de soluções para os problemas decorrentes da via numa gravidade oito vezes maior que a da Terra. Entre as saídas que a evolução encontrou está um esqueleto externo superdimensionado, que é um verdadeiro aquático ambulante onde o animal bóia como um feto no últero. Esse principio hidráulico é usado na locomoção por meia de pistões. O líquido de sustentação é bombeado para cada “pata” através de um complicado sistema de válvulas, permitindo o vagaroso deslocamento pumpiano. Sempre grudados ao chão, os “pumps” desenvolveram muito o sentido da audição, especialmente na faixa das baixas vibrações, os infra-sons, que por serem muito bem transmitidos através do solo permite aos organismos se comunicarem a centenas de quilômetros de distância.
Esse ouvido – distribuído por toda a parte inferior do corpo na forma de membranas e cílios super-sensiveis – é capaz de compensar amplamente a ausência de uma verdadeira estrutura ocular. Como dificilmente um predador teria forças para vencer os 8G do planeta e saltar sobre os pumps, basta a eles distinguir o dia da noite, o que regiões levemente fotossensíveis da couraça conseguem fazer.
São exatamente que os “trintuns” – infernais parasitas que optaram pela eficiência estrutural tetraédica – introduzem seus espinhos, sugando os preciosos líquidos de sua vítima e irradiando-os para todos os indivíduos da colônia.

À procura de um mundo

Quando de fala de formas de vida, freqüentemente a realidade supera a imaginação. O mesmo contece quando nos voltamos para o universo e suas grandezas. O código genético com suas incalculáveis possibilidades e o monumental número de sistemas planetários fazem a delicia dos artistas de ficção científica que encontram aí um campo inesgotável para a criação de mundos e seres. Exatamente por essa diversidade toda é que o ser da ilustração é mais verossímil que os famosos homenzinhos verdes que desciam dos discos voadores. As chances são entre os milhões de planetas possíveis um que sirva para o nosso monstro, que poderá até ser verde, mas dificilmente um homenzinho.