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Fungo que evoluiu em Chernobyl é testado como escudo de radiação na Estação Espacial Internacional

No futuro, o Cladosporium sphaerospermum poderia servir de recheio para as paredes de colônias em Marte, protegendo humanos da radiação no planeta de atmosfera extremamente rarefeita.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 24 jul 2020, 18h32 - Publicado em 24 jul 2020, 18h22

Nas ruínas da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que sofreu um acidente em 1986, crescem alguns fungos diferentes daqueles que estudamos nas aulas de biologia. Estes fungos são chamados de radiotróficos, pois se alimentam através de um processo chamado radiossíntese. É algo mais ou menos equivalente à fotossíntese das plantas – mas a fonte de energia não é a luz solar, e sim ondas eletromagnéticas de frequência e energia altíssimas, liberadas por átomos radioativos conforme eles decaem para estados mais estáveis.

A radiação gama é fatal para qualquer ser humano que não seja o Hulk, mas nada nos impede de criar uma relação de mutualismo com esses fungos barra-pesada, em que ambos sejam beneficiados. No espaço, sem a proteção da atmosfera, os astronautas acabam expostos a um bocado de radiação. Tal fator dificultaria a manutenção de uma colônia na Lua ou em Marte, por exemplo. Pensando nisso, pesquisadores americanos testaram na Estação Espacial Internacional (ISS) escudos produzidos com fungos de Chernobyl, de nome científico Cladosporium sphaerospermum. 

O estudo começou a ser desenvolvido em 2018, quando dois estudantes do ensino fundamental, Xavier Gomez e Graham Shunk, leram um artigo que demonstrava a capacidade dos fungos radiotróficos de absorver os raios. No fim de 2018, ganharam um concurso de inovação e puderam enviar uma placa de Petri contendo o Cladosporium para a ISS. Hoje, Gomez estuda na Universidade da Carolina do Norte e Shunk está na Escola de Ciência e Matemática da Carolina do Norte, ambas nos EUA.

A placa enviada pelos jovens era relativamente fina, com apenas 2 cm de espessura. Mesmo assim, bloqueava cerca de 2% da radiação que incidia sobre ela. Os resultados da pesquisa foram divulgados na última semana, mas ainda não passaram por revisão por pares (quando outros cientistas passam um pente fino na pesquisa de seus colegas). Na publicação, os jovens cientistas estimam que uma camada de 21 centímetros seria ideal para proteger as pessoas de radiação gama no espaço.

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    Pensando especificamente em Marte, Nils Averesch, pesquisador da Universidade de Stanford que está envolvido na pesquisa, explicou que os fungos não seriam colocados no exterior das estruturas de colônias humanas, mas sim dentro das paredes. Isso porque o ambiente do planeta é muito frio, e nem um bichinho comedor de radiação conseguiria prosperar.

    Nisso, os moradores de Marte enfrentariam um problema: caso os fungos estivessem envolvidos nas estruturas, teriam que ser criados canais de irrigação, que seriam mantidos pelos colonos do planeta vermelho. A água para regar o fungo (que fofo) precisaria ser retirada do gelo presente nos polos marcianos, ou seja: teríamos aí um trabalhinho a mais para os imigrantes marcianos. De toda forma, uma parede mofada nunca foi algo tão desejável. 

    Caso a parede não seja viável, cobrir as roupas e estruturas com a proteína que o vírus usa para captar a radiação já ajudaria um bocado a proteger os astronautas. Incrivelmente, essa proteína é uma velha conhecida nossa, a melanina. Sim, os fungos Hulk usam uma coisa que você já tem na sua pele para uma finalidade bem mais radical. É bom dizer, porém, que não se trata de uma melanina um pouco diferente da nossa. Proteínas têm muita variedade.

    Em novembro de 2019, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins (EUA) enviaram ao espaço um material feito de plástico e melanina extraída de outro fungo de Chernobyl, o Cryptococcus neoformans. A pesquisa ainda está rolando e tem como objetivo não apenas testar a proteção contra a radiação, mas também analisar a estabilidade do material e sua capacidade de suportar o ambiente sideral. Novas informações estavam previstas para meados de 2020, então seguimos no aguardo.

    Não se deve pensar, porém, apenas nas aplicações espaciais – afinal, não é como se nunca estivéssemos expostos a radiação eletromagnética nociva aqui na Terra. Profissionais da saúde que trabalham com radiografias, por exemplo, são expostos a esse risco diariamente, por isso usam aqueles aventais de chumbo para proteção. Nada impede que essa proteção seja substituída por melanina de fungo um dia. 

    Ah, e caso você esteja se perguntando porque não levar chumbo ao espaço – a proteção clichê contra radiação –, pense que o carreto não seria tão simples nem tão barato. De acordo com a Nasa, cada meio quilo de material enviado ao espaço sai US$ 10 mil. Os fungos têm a vantagem de se auto-multiplicarem, sendo necessária uma quantidade pequena deles para começar a produção, além de se regenerarem facilmente, enfrentando bem condições adversas. 

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