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Microorganismos: o incrível zôo do ar

Ivonete D. Lucírio e Thereza Venturoli

Entre você e esta revista estão voando, neste momento, no mínimo uns 100 milhões de seres. Alguns são perigosos. Nesta reportagem você vai conhecê-los de perto. Ah, e cuidado ao virar as páginas: eles adoram movimento de ar.

Bactérias flutuantes

Medindo no máximo 1 centésimo de milímetro, elas agüentam várias semanas sem pousar no chão. Até topar com um restinho de comida fora da geladeira, um nariz ou um pedacinho de gente para se instalar. O estafilococo prefere aterrissar na pele, criando inflamações como a acne.

Fungos a jato

São os seres com maior autonomia de vôo. Eles hibernam na forma de esporos – células reprodutoras, que não passam de 3 centésimos de milímetro – e assim podem flutuar por até um século. Na foto, o esporo do aspergilo, um tipo de mofo que causa alergia respiratória.

Vírus apressados

São os que menos tempo sobrevivem no ar. Se não encontrarem logo uma célula na qual se abrigar, morrem em poucas horas. Mesmo assim, 200 tipos medindo no máximo 1 décimo de milésimo de milímetro passeiam constantemente bem na frente dos seus olhos. Entre eles, o do sarampo.

Surfe aéreo sem asas ou pára-quedas

Você pode não perceber, mas está sempre acompanhado. E não por entes mágicos, como anjos, fadinhas, gnomos e duendes. As criaturas invisíveis que ficam o tempo todo flutuando ao seu redor pertencem ao mundo real. São bactérias, fungos e vírus saídos do seu nariz, do nariz do seu vizinho ou do jardim ali em frente. São tão leves que se uma brisa mais forte pegá-los de jeito chegam a subir uns 30 metros.

Mas tudo o que sobe desce e a lei da gravidade vale também para esses minúsculos organismos. Imagine que você saia do lugar onde está lendo a SUPER agora e feche todas as janelas e portas. Quando o ar estiver completamente parado aí dentro, as bactérias que estão flutuando vão começar a cair a uma velocidade em torno de 30 centímetros por minuto. Para depois, ao mais leve sopro, voltar a subir.

Esse eterno senta-levanta não atrapalha em nada o zoológico aéreo. Aliás, os movimentos do ar são o motor que impulsiona essas criaturas sem asas. “Nenhum micróbio mora no ar”, diz o microbiologista Walderez Gambale, da Universidade de São Paulo. “Eles apenas viajam ali, alguns sozinhos, outros de carona em gotículas de água ou partículas de poeira.”

A ciência que estuda o invisível

Além dos micróbios, existe um farto lixo orgânico bombardeando seu rosto constantemente: micropedaços de pêlo, de asas de insetos e até fezes de ácaro. Isso mesmo. Esses parentes da aranha, acusados de ser grandes causadores de alergia, dificilmente saem das roupas, dos travesseiros e dos tapetes. “O que mais sobe no ar são as fezes deles”, conta a alergologista Maria Cândida Rizzo, da Universidade Federal de São Paulo. E esses cocozinhos causam mais problemas alérgicos do que os próprios bichos.

Toda essa fauna está atraindo cada vez mais médicos, microbiologistas e meteorologistas para uma nova especialidade, a Aerobiologia. Eles estão interessados em entender como surgem e se deslocam partículas de origem biológica, importantes não só para a saúde humana mas também para a reprodução de animais e vegetais. “Um dos nossos trabalhos é calcular o movimento de grãos de pólen alergênicos”, disse à SUPER o finlandês Auli Rantio-Lehtimäki, secretário-geral da Associação Internacional de Aerobiologia.

Pois é, o que causa desconforto no homem também espalha a vida. E você contribui para a biodiversidade. Ao virar a página, estará empurrando uma pequena porção de microcriaturas voadoras para mais uma jornada no espaço.

Para saber mais

Os Microorganismos e o Homem, W.C. Noble e Jay Naidoo, Coleção Temas de Biologia, Vol. 17, EPU / Edusp, São Paulo, 1981

The Secret House, David Bodanis, Simon & Schuster Inc., Nova York, 1988

NA INTERNET: http://www.fisbat.bo.cnr.it/AERO/AI.html

Sai da frente que lá vem germe

Um atchim espalha 10 milhões de vírus e bactérias.

Em um espirro, os micróbios chegam a ser ejetados a até 4 metros. Entre os mais comuns estão o vírus da gripe (abaixo à esquerda) e a bactéria da pneumonia (abaixo à direita)

Olha quem está pisando na sua grama

Seres microscópicos se transformam em astronautas no quintal de casa.

1 – Os fungos unicelulares do gênero Dictyostelium são parecidos com amebas. Perambulam pelo chão do jardim, engolindo pedaços de folhas mortas, bactérias e fungos.

2 – Se o alimento escasseia, milhões de fungos rastejam para um ponto central e se unem, formando uma colônia coesa.

3 – A colônia se arrasta à velocidade de 2 milímetros por segundo, por cerca de 1 hora, até acabar com a comida das redondezas.

4 – Aí a colônia muda de forma: os microrganismos começam a se empilhar numa minitorre.

5 – As criaturas que estão por baixo morrem e se transformam numa espécie de cimento. As outras continuam a subir.

6 – No alto, constroem em torno de seus corpos uma espécie de cápsula espacial esférica onde são armazenadas água e comida.

7 – A cápsula se lança ao vento e pode voar por meses, até cair de novo. De preferência, num solo rico em matéria orgânica para se reproduzir.

Como pegar micróbios no flagra

Veja a técnica dos cientistas para contar germes voadores.

Um aparelho que lembra esses exaustores de cozinha fica ligado por apenas 1 minuto e suga 40 litros de ar.

As bactérias e fungos são puxados e se pregam às substâncias nutritivas das lâminas coladas às pás.

As lâminas são colocadas numa estufa. Depois de 24 horas, dá para contar as colônias de micróbios a olho nu.

Muito além do seu jardim

Os grãos de pólen atravessam oceanos pelos ventos.

Você já parou para pensar como foi que aquele canteiro vazio no seu jardim de repente se encheu de plantinhas, sem ninguém botar a mão na terra? Pois é, nesse caso, quem banca o jardineiro é o vento. O ar está cheio de pólen de acácias, ervas daninhas, juncos, palmeiras, capins, oliveiras e dentes-de-leão, entre outros. O pozinho mágico da reprodução é capaz de empreender viagens aéreas de milhares de quilômetros, povoando ilhas isoladas no meio dos oceanos. “Os grãos são dotados de bolsas ocas, que funcionam como velas”, explicou à SUPER a palinologista Maria Stella Silvestre Capelato, do Instituto Botânico, em São Paulo. “Com esse equipamento de navegação, a flora flutuante pode chegar a 4 quilômetros de altitude.” Só que a maravilhosa ferramenta da biodiversidade é também uma grande causa de alergias respiratórias. Os grãos, ao encontrar um terreno úmido, liberam substâncias chamadas glicoproteínas. Se, por azar, a umidade em que o pólen cair não for de um pedaço de terra, mas da mucosa do seu nariz, as glicoproteínas podem ativar o sistema imunológico. Resultado: espirros e inflamação das vias respiratórias – a alergia que os povos do hemisfério norte chamam de febre do feno.

Inquilinos por toda parte

Veja a quantidade média de micróbios existentes nas casas da cidade de São Paulo.

A médica Maria Cândida Rizzo queria descobrir se indivíduos com asma estão mais expostos a fungos e bactérias do que o normal. Ela contou as colônias de germes em vinte casas, entre fevereiro de 1993 e janeiro de 1994. Como cada colônia nasce, em geral, de um único microrganismo, contar colônias é o mesmo que contar germes. Ela descobriu que esse número não varia de casa para casa. O que muda é a sensibilidade de cada um ao bicho.