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Como a ciência define inteligência?

Um século após a invenção do primeiro teste de habilidades mentais, que define o QI, a ciência ainda discute o que é a inteligência

Em 1905, o ministro da Educação da França estava com um problema. Ele queria que toda criança tivesse acesso à escola, mas, para fornecer um ensino adequado a todos, acreditava ser preciso diferenciar aqueles com dificuldade de aprendizagem. Para resolver o problema, procurou o psicólogo Alfred Binet, que, à época, estava envolvido com pesquisas para medir as habilidades mentais humanas. Binet bolou, então, uma bateria de 30 tarefas de dificuldade progressiva. O resultado mostrava se as habilidades da criança estavam de acordo com o esperado para sua idade, ou seja, se ela era “normal ou retardada”. Nasciam assim, há mais de 100 anos, as bases do teste de QI.

Depois de se tornarem populares na Europa, os testes chegaram aos EUA. Lá, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, tornaram-se uma das principais ferramentas para avaliar deficiências na aprendizagem, selecionar candidatos e estudar as habilidades mentais do ser humano. Ao mesmo tempo, os testes foram acusados de discriminar raças e de propagar ideias tortuosas, como a que diz que inteligência é hereditária e, por isso, imutável. Mas afinal, o que esses testes de fato avaliam? Para que servem? E, acima de tudo, é realmente possível mensurar a inteligência?

O começo da régua

Alfred Binet não foi o primeiro a buscar uma técnica para medir habilidades mentais. No final do século 19, o antropólogo inglês Francis Galton se baseou na teoria da evolução formulada por seu primo, Charles Darwin, e concluiu que a inteligência é uma característica hereditária. Em 1884, montou um laboratório de testes psicofísicos (coisas como comparação de pesos, acuidade auditiva e reação a estímulos) porque acreditava que quanto maior o nível intelectual, maior a coordenação motora e capacidade de percepção sensorial. Apesar de essa teoria ter se mostrado, mais tarde, reducionista, o trabalho de Galton espalhou a ideia de que era possível medir a capacidade intelectual. Mas foi só com Binet, 20 anos depois, que o teste ganhou a forma de hoje. “Ele percebeu que o caminho era averiguar competências ligadas ao cotidiano, que não necessitam de ensinamento e que se aprimoram com a idade”, diz José Aparecido da Silva, do Departamento de Psicologia e Educação da USP. A partir desse princípio, elaborou uma série de questões, com dificuldade crescente de acordo com a idade.

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Depois de aplicar os testes a um grupo de crianças, Binet estabeleceu quais tarefas eram adequadas para cada faixa etária. Se um menino de 6 anos era capaz de resolver um problema que normalmente só os de 8 conseguem, então se considerava que ele tinha uma idade mental de 8, e, portanto, era mais inteligente. Ao passo que, se ele só resolvesse problemas que as de 4 fazem, então é provável que apresentasse algum tipo de deficiência mental.

Mas não foi de Binet a ideia que consagrou o teste de QI: representar por um número o nível de inteligêncial de cada criança. Essa ideia só surgiu em 1912, com o psicólogo alemão Wilhelm Stern, que propôs a medida do “quociente de inteligência”: divisão da idade mental pela cronológica. Assim, uma criança de 6 anos, com idade mental de 8, tem um quociente de 1,33 (6 dividido por 8).

Em 1916, o psicólogo americano Lewis Terman, da Universidade Stanford, incluiu na fórmula de Stern a multiplicação por 100 (para eliminar a vírgula dos valores) e divulgou pela primeira vez a sigla QI. Ele também definiu como padrão médio de QI o número 100, criando a Escala Stanford-Binet, usada até hoje.

A essência da inteligência

Nos anos 1920, quando a aplicação do teste Stanford-Binet estava em franca expansão nos EUA, o psicólogo E.G. Boring, da Universidade Harvard, entrou para a história ao dizer que inteligência é “aquilo que o teste mede”. A frase é considerada uma das maiores besteiras da psicologia já que, entre especialistas, é consenso que as habilidades cobradas nos exames não representam toda a inteligência humana.

Mas muitos pesquisadores acreditam que elas podem apontar o fator geral (conhecido como g), uma espécie de “essência da inteligência”. O conceito de g surgiu em 1904, um ano antes de Binet publicar seu trabalho. Inspirado pelos estudos de Francis Galton, o britânico Charles Spearman percebeu que se uma pessoa vai bem em um teste tende a ir bem em todos. “Ou seja, todos demandam a mesma habilidade, não importando quão diferentes eles são”, diz a socióloga Linda S. Gottfredson, da Universidade de Delaware, nos EUA. De acordo com ela, é exatamente o fator g que os testes de QI medem.

Idealmente, o fator g só poderia ser extraído se medíssemos todas as capacidades mentais humanas, mas para isso seriam necessários centenas de testes, o que não é viável. O que alguns psicólogos defendem é que, entre os exames que existem, os de QI dão a medida mais aproximada de g e, por isso, são úteis. “O mundo está mais complexo, o mercado de trabalho, mais exigente. Os testes são a melhor forma de identificar rapidamente quem tem maior capacidade intelectual”, diz Carmen Flores-Mendoza, do Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais da UFMG. Carmem garante que, se forem comparadas duas pessoas, uma com QI 120 e outra com QI 100, a primeira terá nitidamente uma vantagem qualitativa. “Ela é realmente mais inteligente que a segunda, não só na velocidade da tomada de decisões como na precisão das decisões.”

Questão cultural

Mas do outro lado dessa discussão há estudiosos que simplesmente não acreditam que exista um componente intelectual único e, como argumento, usam o fato de que o conceito de inteligência muda muito de acordo com a cultura. Robert Sternberg, da Universidade Yale, faz parte desse time. Em trabalho desenvolvido no Quênia, ele descobriu que o povo luo tem 4 diferentes palavras para descrever inteligência: rieko, que se assemelha à ideia ocidental de inteligência acadêmica, mas que também engloba habilidades específicas; luoro, que inclui comportamentos sociais como respeito, responsabilidade e consideração; paro, que representa o pensamento prático; e winjo, que significa compreensão. O pesquisador percebeu que as crianças que normalmente apresentavam bom desempenho em testes de conhecimento sobre ervas medicinais não se saíam tão bem em avaliações ocidentais de inteligência.

Sternberg desenvolveu, então, testes mais amplos, que avaliavam a capacidade de planejar mapas e rotas e de resolver problemas cotidianos. Para medir a criatividade, por exemplo, pedia que as pessoas escrevessem contos com títulos esdrúxulos como “tênis do polvo” ou fizessem desenhos sob a perspectiva de um inseto.

Comparando os resultados, ele percebeu que o grupo que se saía melhor nos testes de QI tendia a ser formado por pessoas brancas e de classe média alta. Já o grupo que se destacaria nos exames de inteligência prática e criatividade era bem mais diversificado. Isso endossou uma acusação comum contra os exames de QI: a de que eles são elitistas e preconceituosos – acusação que só se acentuou depois de eles terem sido usados para validar práticas eugenistas.

Um pouco de consenso

A partir de 1950, essa concepção polarizada começou a perder espaço para uma nova proposta: a teoria de Cattell-Horn-Carroll (CHC) das Habilidades Cognitivas, consolidada em 1998, que prevê a existência de um fator geral (o g), mas minimiza a importância dos testes já que acredita em uma capacidade mental que pode surgir dentro de 10 tipos de inteligência:

• Fluida: capacidade de raciocínio e de resolver problemas novos;
• Conhecimento quantitativo: habilidade de usar informação quantitativa e manipular símbolos numéricos;
• Cristalizada: se refere à extensão e profundidade dos conhecimentos adquiridos e sua aplicação efetiva;
• Habilidade de leitura e de escrita;
• Habilidade associada à memória de curto prazo;
• Processamento visual: habilidade de perceber, armazenar, manipular imagens visuais;
• Processamento auditivo: percepção e análise de padrões sonoros;
• Habilidade associada à memória de longo prazo;
• Velocidade de processamento: se relaciona à habilidade de manter a atenção e realizar rapidamente tarefas em situações de pressão;
• Rapidez de decisão.

O modelo conquistou defensores, mas não conseguiu consenso. Como não trabalha com a possibilidade de uma pessoa ser muito habilidosa em uma categoria e inábil em outras, foi rejeitado por uma parte dos especialistas. Gente como Howard Gardner, codiretor de um projeto que estuda cognição na Universidade Harvard.

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Para Gardner, inteligência é o potencial para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa determinada cultura. Ou seja, para ele, um menino pobre que não sabe escrever, mas faz mágica com as pernas e vira o melhor jogador de futebol do bairro, é inteligente, sim. Baseado nessa teoria, ele lançou, em 1983, a chamada teoria das Inteligências Múltiplas, que propõe a existência de inteligências independentes entre si. Inicialmente ele propôs 7 habilidades:

• Linguística: sensibilidade para a língua escrita e falada;
• Lógico-matemática: capacidade de analisar problemas, operações matemáticas e questões científicas;
• Musical: habilidade para tocar, compor e apreciar padrões musicais;
• Físico-cinestésica: potencial de usar o corpo para dança, esportes;
• Espacial: capacidade de compreender o mundo visual de modo minucioso;
• Interpessoal: habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos outros;
• Intrapessoal: capacidade de se conhecer.

Nos últimos tempos, ele agrupou as duas últimas como “inteligências pessoais” e sugeriu mais duas categorias:

• Naturalista: de reconhecer e classificar espécies na natureza;
• Existencial: preocupação com questões fundamentais da existência.

Essa proposta serviu de alento para quem alguma vez já se deu mal em testes de habilidades mentais, mas não convenceu a ala mais conservadora de que o fator g não está por trás de tudo.

No final dos anos 1990, a teoria da Inteligência Emocional (medida pelo QE), do psicólogo Daniel Goleman, também tornou-se um sucesso entre os que não acreditam no fator geral. Mas para a pesquisadora Carmen Flores-Mendoza, da UFMG, por exemplo, o que o QE mostra são características da personalidade. “Inteligência e personalidade são duas coisas diferentes. Em 85% da população, não se observa correlação significativa entre Inteligência Emocional e sucesso na vida. Se observa, sim, correlação entre fator g e êxito social”, diz ela.

Mas, para os adeptos das teorias de inteligências múltiplas esses números não traduzem a realidade, já que não há testes para medir todas as capacidades humanas. Será, então, que é mesmo possível criar um teste que avalie todas as inteligências? É esse o desafio atual de vários pesquisadores. Um trabalho que pode levar outra centena de anos.

Como é medido o QI de adultos?

A ideia original do teste de Binet era comparar a idade cronológica com a idade intelectual de crianças. Por comodidade, definiu-se que o QI médio sempre vale 100 pontos. Assim, uma criança de 5 anos que tenha um QI de 120 tem uma idade intelectual 20% acima da inteligência média das crianças da sua idade. Ou seja, ela tem uma idade mental de uma criança de 6 anos (6 é 20% maior que 5 ). Mas, no caso de adultos, faz pouco sentido comparar idades mentais. O que significa dizer que alguém de 40 anos tem a idade intelectual de 41? É preferível classificar a inteligência em termos de porcentagem. No lugar de QI numérico de alguém é melhor situar esse valor na distribuição estatística da população. A usada pela Mensa, por exemplo, diz que 98% da população mundial tem QI menor que 148. Ou seja, se o resultado do seu teste for um número igual ou maior que esse você está entre os 2% mais inteligentes da população.

A serviço da discriminação

No início do século 20, enquanto Alfred Binet estudava na França um modo de medir a inteligência de crianças, um grupo de cientistas buscava um teste semelhante nos EUA, mas movido pelo princípio da eugenia. Eles queriam comprovar que determinadas raças eram “inferiores” e e que, por isso, deviam ser esterilizadas.

A ideia produziu resultados vergonhosos. Em 1913, Henry Goddard fez uma tradução tosca do teste de Binet e aplicou a 148 imigrantes. Sem adaptações, o resultado foi catastrófico e Goddard classificou 40% dos imigrantes como morons (débeis mentais, na adaptação exagerada da expressão débile, “fraco” em francês, que Binet usava).

Alguns anos depois, outro psicólogo americano, Carl Brigham, da Universidade Princeton, usou os testes para “comprovar” que a pouca inteligência do negro era uma herança genética e que nada poderia melhorar esse quadro.

Felizmente, até o final da década de 1920, a maioria dos pesquisadores compreendeu que os testes haviam se tornado um meio de exclusão social. Goddard e Brigham acabaram revisando suas teorias e admitiram seus erros.