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O espectro de Brocken

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Um fenômeno não muito freqüente é a observação, no cimo de uma montanha, de nossa imagem projetada nas camadas mais densas do nevoeiro, quando o Sol está próximo ao horizonte. A sombra, às vezes, pode atingir dimensões muito superiores à nossa própria estatura. Essa aparição reproduz os nossos movimentos. E, ao redor de sua cabeça, projeção da nossa, vemos uma série de brilhantes halos coloridos. Se dois ou mais indivíduos estiverem no alto da montanha, irão ver duas ou mais sombras.

Embora cada um deles veja a sombra do outro, os anéis só serão visíveis ao redor da sombra do próprio observador. Como iremos reagir a essa aparição vai depender essencialmente de nossa experiência e personalidade. Alguns irão interpretá-la dentro de uma visão mística ou religiosa. Outros, mais racionalistas, irão procurar uma explicação física para o belo fenômeno. Muitos desses fenômenos naturais provocaram enorme excitação nas mentes menos avisadas, que lhe atribuíram uma intervenção sobrenatural.

De fato, alguns nomes que o fenômeno recebeu testemunham. o terror que ele, certamente, inspirou. É o caso do chamado espectro de Brocken, que ocorre no cume de granito (com 1 140 metros de altura) de mesmo nome, nas montanhas de Harz, na Alemanha Oriental.

Desde a Antiguidade, o monte Brocken é conhecido como o “altar dos feiticeiros”. Essa designação teve origem nas visões que os saxões adoravam em segredo, ao nascer do Sol. A notoriedade do monte Brocken, ou Blocksberg, tem origem nessas lendas, em especial nos cultos pagãos que aí se realizaram durante longo período, mesmo depois do advento do cristianismo.

Acredita-se que os antigos bruxos se reuniam no alto do Brocken. Misticismos à parte, de que maneira podemos entender o fenômeno? O espectro de Brocken compreende duas partes distintas: a sombra e os anéis coloridos. Convém lembrar que para alguns observadores as sombras parecerão maiores e mais ampliadas que para outros. A razão é simples: quando olhamos um objeto, inconscientemente formamos uma idéia de suas dimensões associando-o a dois outros parâmetros: o diâmetro angular (tamanho aparente) e a distância em relação a nós. Assim, quando vemos um objeto, damos a ele dimensões diferentes, em função do que imaginamos ser sua distância.

Um objeto parecerá tanto maior quanto mais distante supusermos estar dele.

Ao fazer o julgamento sobre distância ou afastamento para estimar as dimensões da sombra, o observador éperturbado em sua análise, pois em geral estamos habituados a determinar a distância de uma sombra projetada sobre uma superfície sólida. No caso do espectro de Brocken, a sombra se projeta através do nevoeiro. Nessa situação, a dimensão da sombra irá depender exclusivamente de nossa capacidade de estimar sua distância.

Ora, como o observador acredita que o espectro de Brocken está localizado a uma grande distância, inconscientemente vê a sua sombra com enormes proporções. Na verdade o espectro está ampliado em conseqüência de um fenômeno atmosférico, no qual a refração dos raios solares em camadas de ar de densidades diferentes cria uma projeção cônica, que aumenta as dimensões da sombra. Uma nuvem ou camada mais densa de nevoeiro pode servir como anteparo e, desse modo, revelar a sombra do obstáculo (o próprio alpinista) situado entre o Sol e o anteparo. Os anéis coloridos e concêntricos são conseqüência do efeito de difração da luz sobre pequenas gotículas do nevoeiro.

Existem, aliás, duas direções no céu, onde podemos observar os efeitos da difração por gotículas de água e cristais de gelo. A primeira se dá quando, voltados para o Sol, podemos ver, através de uma fina nuvem, anéis de difração, como ocorre no caso das coroas ou halos. E, também, quando, de costás para o Sol, assistimos à luz solar incidindo sobre uma nuvem. Nessa ocasião, podemos ver o ponto antisolar envolto por anéis de difração concêntricos. Estes últimos constituem o arco que envolve a cabeça do espectro de Brocken.