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O homem que reformou o Sistema Solar

Em 2006, Dr. Brown deu um toco em Plutão, rebaixando o astro a um quase asteroide. Dez anos depois, propôs a existência de um planeta gigante para pôr no lugar.

Por Salvador Nogueira Atualizado em 13 nov 2020, 11h29 - Publicado em 24 Maio 2016, 19h03

A expressão “ironia do destino” é a primeira que vem à mente nesse caso. O sujeito que “matou” Plutão é o mesmo que, dez anos depois, faria a descoberta de um novo planeta no Sistema Solar – desta vez um de verdade, maior que a Terra, e não um planeta anão, como Plutão. Mas, quando o assunto é esse sujeito, Mike Brown, você pode substituir “ironia” e “destino” por “obstinação” e “foco”.

“Na verdade, tudo isso foi um processo contínuo”, explicou o astrônomo do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), numa entrevista à SUPER. “Estou procurando esse planeta há 20 anos, e Plutão foi só um dano colateral ao longo do caminho.”

A antiga ambição de Brown, prestes a se tornar realidade, nunca foi segredo para ninguém na comunidade astronômica. “Mike sempre foi determinado a descobrir planetas. Ele criou e desenvolveu métodos para isso”, diz o astrônomo Cássio Leandro Barbosa, do Centro Universitário FEI, em São Bernardo do Campo (SP).

Foi justamente esse tour de force tecnológico, aperfeiçoando as técnicas envolvidas na descoberta de objetos de pouco brilho localizados nos cafundós do Sistema Solar, que levou Brown, em outubro de 2003, a descobrir Éris – um objeto do tamanho de Plutão, naquela época ainda reconhecido oficialmente como o nono planeta, apesar de ter só 70% do diâmetro da Lua.

O achado obrigou a União Astronômica Internacional (IAU) a tomar uma atitude. Ou Éris seria confirmado como o décimo planeta, ou a própria definição do que é um planeta deveria mudar.

Era uma discussão que já ganhava corpo havia uma década, quando os astrônomos começaram a descobrir uma série de outros objetos residentes na mesma região do espaço que Plutão, o Cinturão de Kuiper – uma multidão de pequenos astros que vivem nos confins do Sistema Solar, além da órbita de Netuno. Plutão, ao que tudo indicava, era só o maioral dentre esses pequeninos. Depois de Éris, nem isso.

Brown estava convencido de que Plutão já não merecia o status de planeta. Mas ele também achou que ia faltar coragem aos velhinhos da IAU (uma espécie de Fifa da astronomia) de propor a mudança e assim alvejar Plutão, o único planeta do Sistema Solar descoberto por um americano (Clyde Tombaugh, em 1930). Brown, então, defendeu uma solução intermediária, em que Plutão, por razões culturais, continuaria a ser referido como um planeta “histórico”. Incidentalmente, Éris se tornaria o planeta 10, e Brown teria seu planeta. “É, eu simplesmente não achava que os astrônomos teriam a coragem de rebaixar Plutão, então eu estava tentando encontrar um jeito que fosse OK”, admite o pesquisador. “Mas o desfecho real foi muito melhor!”

E qual foi? Numa votação entre seus membros, a IAU decidiu que, para ser planeta, um objeto precisa preencher três requisitos: orbitar o Sol, ser aproximadamente esférico e ser o objeto dominante em sua órbita. Plutão passa nas duas primeiras categorias, mas nem ele nem Éris se qualificam na terceira, já que são apenas pedras grandes num cinturão cheio de pedras (nem tão) menores. Ato contínuo: ambos foram incluídos na novíssima categoria dos “planetas anões”, ou “planetoides”, composta por objetos que preenchem apenas os dois primeiros requisitos.

Ao longo de sua caçada a novos mundos, além de Éris, Brown também acabou descobrindo um punhado de outros planetas anões, objetos que podem muito bem ser rotulados como os primos perdidos de Plutão. Tome nota de alguns deles: Sedna, Quaoar, Makemake e Haumea.

Em 2010, o astrônomo publicou um livro autobiográfico com um título bem sugestivo: “Como matei Plutão e por que ele mereceu” (How I Killed Pluto and Why It Had It Coming). Brown parecia satisfeito com a ideia de entrar para a história como o assassino de um planeta. Mas, na verdade, esse foi só o começo da aventura seguinte. Ao proporcionar o milagre da multiplicação da descoberta de objetos no Cinturão de Kuiper, Brown inspirou outros astrônomos a prestar mais atenção nesses objetos. E eles começaram a reparar no seguinte: alguns desses astros recém-descobertos tinham uma trajetória para lá de esquisita. Literalmente “para lá” e literalmente “esquisita”: suas trajetórias eram bem elípticas (ovais) e por vezes os levavam muito longe da própria região considerada como o Cinturão de Kuiper.

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Isso era quase como… quase como se houvesse algo grande lá longe, puxando os planetoides com sua gravidade.

  • Opa. Espera aí. Esse “algo grande” só poderia ser outro planeta. Foi o que Brown propôs em janeiro de 2016. Em parceria com seu colega de Caltech, Konstantin Batygin, Mike apresentou ao mundo uma predição categórica: deve haver mesmo um nono planeta no Sistema Solar, atrapalhando o tráfego dos planetoides.

    De acordo com os cálculos feitos pela dupla, seu periélio – a aproximação máxima do Sol – se daria a 200 unidades astronômicas de distância. Uma unidade astronômica (UA) é o que separa a Terra do Sol: 150 milhões de quilômetros. Plutão, para você ter uma ideia, fica a meras 35 UAs daqui. Já o afélio, a distância máxima, seria de 1.200 UAs. Uma loucura cósmica. Mas é fato: um planeta com essa órbita, e massa de mais ou menos dez vezes a da Terra, explicaria matematicamente aqueles fenômenos misteriosos do Cinturão de Kuiper.

    E o mais importante: isso sugere a existência de um planeta com características inéditas para o nosso Sistema. Essa massa de dez vezes a da Terra o colocaria numa escala intermediária entre o maior dos rochosos (este planetinha aqui debaixo dos seus pés) e o menor dos gasosos (Netuno, cuja massa dá 17 vezes a nossa). Ele seria, então, algo como uma superterra, ou um mininetuno, como queira. Outra insanidade: para completar uma órbita em torno do Sol, ele levaria entre 10 mil e 20 mil anos – Netuno fecha uma volta em 165 anos; Plutão, em 248.

    No dia do anúncio, Brown admitiu à revista Science que suas afirmações eram ousadas. “Se você diz, ‘temos evidência para o planeta tal’, quase todos os astrônomos dirão, ‘Isso de novo? Esses caras são claramente malucos’. Eu diria isso também. Mas então por que agora é diferente? É diferente porque desta vez nós estamos certos.”

    O motivo para tamanha convicção é pragmático. Pelas contas do próprio Brown, imaginar que essa distorção mútua não seja causada por um planeta hipotético significa aceitar uma coincidência cuja chance de acontecer é estimada em menos de 0,007%. É esse número que dá confiança a Brown de que ele de fato encontrou – pelo menos em teoria – um planeta novo.

    Esse tipo de detecção, indireta, tem um precedente forte: no século 19, Netuno foi encontrado por conta de algo parecido – a influência gravitacional que ele provocava na órbita de Urano. Dessa detecção até encontrarem o planeta usando telescópio foi um pulo.

    Agora é diferente. Os cálculos de Brown não mostram em que parte de sua órbita o planeta 9 estaria neste momento, então não há como saber para onde apontar os telescópios de modo a encontrá-lo. Até por isso, além de conduzir seu próprio esforço de observação à caça do planeta oculto, ele quer engajar astrônomos do mundo inteiro na busca.

    “Eu adoraria achá-lo”, diz Brown. “Mas também ficaria muito feliz se outra pessoa o encontrasse. É por isso que estamos publicando [o resultado, divulgado num artigo científico no periódico Astronomical Journal]. Nossa aposta é que isso vá inspirar outras pessoas a procurar pelo planeta.”

    Os resultados parecem sólidos. “Realmente eles apresentam uma evidência forte de que objetos afastados têm órbitas apresentando um estranho alinhamento”, diz o astrônomo Rodney Gomes, do Observatório Nacional. “É mais que razoável pensar que exista um fator externo causando isso, e a existência de um planeta parece ser a melhor explicação. Na verdade, não vejo outra.”

    Ecoando essa falta de explicação alternativa, no mais das vezes, Brown se mostra confiante de que seu planeta acabe sendo descoberto. Mas, como todo cientista, é impossível que ele não se renda às vezes a um pensamento apavorante: e se ele estiver errado?

    Perguntado se esse frio na barriga é assustador ou agradável, Mike Brown troca o “ou” pelo “e”. “Agradável e assustador”, diz. “Me sentindo 100% convencido em alguns dias e, em certas noites, totalmente apavorado, a ponto de perder o sono.” Quando (e se) o planeta 9 der as caras em algum telescópio, as noites de Mike deixarão de ser intranquilas. Será um sono merecido.

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