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Os riscos da biologia sintética

Como o avanço da engenharia genética trouxe uma ameaça inédita: o bioterrorismo.

Por Salvador Nogueira - 25 Maio 2020, 11h21
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As bombas atômicas são terrivelmente perigosas, mas pelo menos têm uma virtude – são de fabricação tão complexa que somente governos, investindo muito dinheiro, podem produzi-las. Desse modo, é improvável que caiam nas mãos de terroristas. Mas o século 21 trouxe tecnologias ainda mais assustadoras — porque podem ser desenvolvidas num fundo de quintal.

Estamos falando do avanço da engenharia genética e da biotecnologia, e seu potencial uso para fins malignos. Para demonstrar o tamanho do perigo, um grupo de pesquisadores da Universidade de Nova York fez, em 2002, o seguinte experimento: “baixaram” de uma base de dados de acesso livre o genoma completo do vírus da poliomielite e então, usando somente insumos que eles podiam comprar facilmente no mercado (como bases nitrogenadas usadas na composição do DNA, vendidas para uso em pesquisa), decidiram reconstruí-lo.

Deu certo. Isso prova que um aspirante a Osama bin Laden, com um modesto laboratório, poderia reconstruir um vírus perigoso como o da pólio. Com isso, até mesmo doenças que já foram debeladas, como a varíola, poderiam retornar. E o pior: ainda mais agressivas. Foi o que dois grupos de pesquisadores, na Holanda e nos EUA, fizeram com o vírus H5N1, causador da famosa gripe aviária.

Na natureza, esse patógeno já é mortal, mas não se espalha com facilidade. Porém, induzindo mutações em laboratório, os cientistas conseguiram produzir uma versão do H5N1 capaz de se espalhar com a mesma eficiência da gripe convencional – que infecta 700 milhões de pessoas no mundo por ano.

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As autoridades americanas pediram que o estudo não fosse publicado e a pesquisa fosse interrompida por 60 dias. O prazo expirou e os cientistas voltaram ao trabalho. Por essas, membros do governo Trump lançaram suspeitas de que o Sars-Cov2, responsável pela Covid-19, teria escapado de um laboratório chinês. Mas é importante lembrar: nenhuma análise científica até o momento encontrou sinais de manipulação no vírus – o consenso é de que ele veio da natureza.

Outro tema que causa controvérsia é a criação das primeiras formas de vida sintéticas. Aconteceu em 2010, e a notícia detonou com o poder de uma arma nuclear. O líder da proeza foi Craig Venter, gênio da bioinformática, que no fim dos anos 1990 desenvolveu uma técnica rápida para ler DNA. Uma primeira olhada nessa tal forma de vida sintética não chega a impressionar.

É só uma bactéria da espécie Mycoplasma mycoides. No laboratório, ela não faz muito mais que se alimentar e se multiplicar. Come como mycoides, vive como mycoides, morre como mycoides, se reproduz como mycoides. Bem, é uma mycoides. Tá cheio dessas criaturinhas por aí. Qual é a grande novidade?

Armas biológicas, como vírus de laboratório, têm um potencial destruidor ainda maior que o de bombas atômicas. D-Keine/Getty Images

Duas coisas. Primeiro, essa bactéria acabou seus dias como uma mycoides, mas não nasceu assim. Ela era de outra espécie e teve seu DNA completamente substituído. Depois de ganhar um genoma novo, ela se metamorfoseou na bactéria que ganhou fama mundo afora. Mas é outra característica que realmente faz dela uma popstar: após essa transformação, a bactéria se tornou o primeiro organismo vivo na face da Terra a funcionar com um genoma produzido artificialmente.

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Aquele emaranhado de DNA que existe em seu interior não foi gerado pelas técnicas naturais de duplicação que funcionam nos seres vivos para permitir sua reprodução. Em vez disso, o genoma da bactéria foi construído em laboratório, a partir de uma sequência de letrinhas que estava armazenada num HD de computador.

As implicações disso são vastas. Pela primeira vez, ficou demonstrado que é possível criar um organismo novinho em folha a partir do zero, usando como ponto de partida um conjunto de instruções (genoma) criado totalmente de forma digital, da mesma forma que podemos hoje, com facilidade, produzir um texto como este, simplesmente apertando botões num teclado. Venter quer produzir bactérias sintéticas capazes de gerar hidrogênio, o que poderia acabar com nossas necessidades de combustíveis fósseis.

Mas bactérias trocam de genes entre si com mais frequência do que crianças trocam figurinhas. Então, mesmo que você crie um micróbio sem a habilidade de levar sua vida sem a ajuda benevolente dos cientistas – e, portanto, incapaz de fugir do laboratório –, ela pode acabar entrando em contato com uma bactéria natural, trocar genes com ela, e readquirir essa capacidade. A vida sempre dá um jeito de se adaptar, e há grande risco de que essas formas de vida sintéticas acabem escapando. E aí, o que era uma solução pode se tornar um problemão.

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