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Pessoas que sobreviveram a quedas de quilômetros – sem paraquedas

Sim, é possível cair de um avião e contar a história. Conheça essas pessoas hiper-sortudas e aproveite para pegar umas dicas.

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 13 mar 2020, 14h32 - Publicado em 28 ago 2018, 18h40

Março de 1944. Segunda Guerra Mundial. Um bombardeiro britânico Avro Lancaster, com quatro motores e 30 metros de comprimento, tenta escapar do território alemão após um ataque ao vale do rio Ruhr. De seus sete tripulantes, três ocupam redomas de acrílico giratórias equipadas com metralhadoras – torres de tiro posicionadas em diversos pontos da fuselagem para se defender de caças inimigos, como na Millenium Falcon, de Star Wars.

Tamanha artilharia não salvou o avião de ser atingido. Preso na cúpula da cauda, o sargento Nicholas Alkemade olhou para trás e percebeu que o paraquedas que deveria usar para escapar estava pegando fogo. Entre morrer queimado ou pular do avião e encarar uma queda livre de 5.500 m, ficou com a queda. Escolha sábia: primeiro, Alkemade atravessou um pinheiro, cujos galhos diminuíram sua aceleração. Depois, atingiu um colchão de neve fofa.

Saldo? Um joelho torcido e alguns cortes e arranhões. Só. Consta no livro The World Aloft, de Guy Murchie, que, quando militares alemães apareceram para capturar Alkemade, eles não acreditaram na história. Depois de fazer a perícia nos destroços, porém, perceberam que não havia outra explicação – e lhe deram um certificado pela façanha. No YouTube, há uma entrevista com o sargento britânico (que, infelizmente, está dublada em francês).

Essa é só uma das dezenas de histórias de sobrevivência improváveis compiladas no site Free Fall, uma pérola da internet 1.0 que registra os maiores tombos da história em quatro categorias: queda livre, de carona nos destroços, paraquedistas azarados e outras histórias incríveis. Eles costumavam responder perguntas de leitores e manter um serviço de checagem de fatos – além de disponibilizar um manual de instruções para o caso de você ser ejetado de um avião em altitude de cruzeiro e não estar em um desenho animado.

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Algumas histórias chamam a atenção: em 1972, o avião de passageiros em que trabalhava a comissária de bordo iugoslava Vesna Vulović explodiu a 10.000 m de altitude – provavelmente atacado por terroristas croatas, embora as causas do acidente nunca tenham sido completamente esclarecidas. Ela ficou presa na fuselagem – segundo uma versão, graças a um carrinho de comida – enquanto os demais passageiros foram sugados para fora pela rápida despressurização. Os destroços caíram em uma encosta forrada de neve, e Vulović, apesar dos ferimentos graves, acordou após algo entre três e 27 dias de coma (não se sabe ao certo). 

Em 1909, George Bushor, um aeronauta de um braço só, usou um balão de ar quente para subir a 600 m – e depois pulou de paraquedas. A engenhoca falhou, e ele caiu em um pequeno lago no parque de Pine Island, em New Hampshire, nos EUA. O jornal Manchester Union, na época, relatou a queda: “Bushor atingiu a água da lagoa com um estampido, e de início se pensou que ele havia morrido ou se ferido gravemente. Para a surpresa dos que o resgataram, porém, ele não ficou com sequelas. Noite passada, em uma demonstração de grande coragem, ele fez outra ascensão – extremamente bem-sucedida.” Ainda bem que o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar.

Quem quiser sobreviver a uma queda inacreditável – e entrar para esse hall da fama de quase azarados – precisa antes voltar para os tempos de colégio (só não faça isso de propósito, por favor – a SUPER não recomenda em hipótese alguma pular de qualquer lugar sem um paraquedas).

Você deve se lembrar, a gravidade é uma aceleração – que na superfície da Terra corresponde a mais ou menos 10 metros por segundo ao quadrado (m/s2). Ou seja: na teoria, todo corpo – digamos, você – que é atraído pela gravidade de outro corpo – digamos, o planeta Terra – se desloca em direção a ele com exatamente a mesma aceleração: sua velocidade aumentará 10 m/s a cada segundo que passa. Não importa se é um quilo de chumbo ou um quilo de isopor.

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Mas isso é só na teoria. Afinal, na vida real há algo chamado atmosfera. O atrito com o ar gera resistência, e impõe um limite à velocidade máxima que um corpo pode alcançar antes de bater no chão. Para um paraquedista de bruços, com a barriga voltada para o chão, essa velocidade máxima é de uns 55 m/s, ou 198 km/h. Moral da história? O ar até ajuda a pessoa cadente a ter uma velocidade limite para despencar, mas bater a 195 km/h em uma superfície rígida ainda não é uma boa tática.

Quando a atmosfera entra na conta, é muito melhor ser um quilo de isopor do que um quilo de chumbo. O isopor ocupa muito mais espaço, por isso, sua superfície é maior, ele entra em contato com um pedaço maior da atmosfera, sofre mais atrito e cai com muito mais suavidade.

Já coisas que são ao mesmo tempo pequenas e pesadas estão em maus lençóis. Afinal, força é igual à massa vezes a aceleração. Quanto mais massa um corpo tem, mais força o ar precisa fazer para segurá-lo. E se a superfície exposta ao ar é pequena, o atrito não consegue atuar. Aí a velocidade de impacto aumenta. Bem rápido. O biólogo inglês J.B.S. Haldane já comentou o assunto, em um texto de 1928 intitulado Sobre Ser do Tamanho Certo:

“Para um camundongo ou qualquer animal menor, a gravidade não apresenta praticamente nenhum perigo. Você pode soltar um camundongo em um poço de mina de um quilômetro de profundidade; ao alcançar o fundo, ele sofrerá um leve choque e sairá andando – dado que o solo seja razoavelmente macio. Uma ratazana é morta, um homem é despedaçado, um cavalo estoura.

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Isso é porque a resistência que o ar apresenta ao movimento é proporcional à superfície do objeto em movimento. Se você dividir a altura, o comprimento e a largura de um animal por dez, seu peso se tornará mil vezes menor, mas sua superfície, apenas cem vezes menor. Assim, a resistência apresentada à queda no caso do animal pequeno é dez vezes maior (…) Um inseto, portanto, não teme a gravidade; ele pode cair sem perigo.”

Conclusão: ser mais leve certamente te ajuda – e se você for leve e comprido, mais ou menos com o biotipo de uma modelo, melhor ainda (mesmo que a diferença seja extremamente sutil).

Outro fator em jogo é o quanto seu organismo aguenta mudar de velocidade repentinamente – a famosa força G, tão falada nos Mythbusters. Amortecer uma queda nada mais é do que aumentar o tempo que você vai levar para ir de 195 km/h a 0 km/h. Parar mais suavemente é sempre mais confortável, como qualquer passageiro de ônibus pode testemunhar. E, na hora de cair do céu, pode ser a diferença entre a vida e a morte.

“Uma boa coisa pode ser aterrissar em uma árvore, já que você pode atingir os galhos conforme você cai”, explicou o físico Rehtt Allain à NPR, a rádio pública dos EUA. “Se for uma boa árvore, ela realmente vai aumentar seu tempo de parada e diminuir sua aceleração”. Ou seja, é bom você cair na árvore certa, de preferência coberta de neve ou de folhagens fofas, caso contrário ela poderá fazer seu corpo em pedaços.

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De resto, não caia de cabeça, não dê uma barrigada na água e, repetimos: não tente isso em casa em hipótese alguma.

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