Oferta Relâmpago: Super em Casa por 9,90

Quantas constantes tem o Universo? A resposta pode ser: ‘apenas uma’

Em espaços-tempos relativísticos, todas as grandezas podem ser medidas por relógios e expressas em segundos-luz.

Por George Matsas 26 abr 2026, 16h00

George Matsas é Professor Titular do Instituto de Física Teórica, Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Há quase 25 anos, três eminentes físicos, Michael Duff, Lev Okun e Gabriele Veneziano, encontravam-se na cafeteria do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN). Eles discutiam sobre qual seria o número de constantes fundamentais da natureza, ou seja, o mínimo de padrões que precisamos para medir tudo que há no Universo.

Okun defendia que eram necessários três padrões: um para distância, um para massa e outro para tempo. Para ele, precisaríamos pelo menos do sistema metro, quilograma e segundo (MKS) para expressar as grandezas da natureza.

Já Veneziano defendia que eram necessários apenas dois padrões: um para distância e outro para tempo. E que todas as grandezas poderiam ser expressas apenas em metros e segundos.

Finalmente, Duff não se comprometia com um número mínimo. Para ele, cada caso era um caso. A discordância persistiu e, uma década depois, o trio resolveu registrar suas posições em um artigo muito influente.

Continua após a publicidade

Longe de ser uma questão de opinião, a controvérsia disparada por Duff, Okun e Veneziano é um problema econômico: descobrir o número mínimo de linhas de produção que uma fábrica universal de padrões precisaria ter.

Avanço errático da ciência

Anos depois, outro grupo de físicos, Vicente Pleitez, Alberto Saa, Daniel Vanzella e eu, todos brasileiros, discutíamos no café ao lado do casarão que abrigava o Instituto de Física Teórica da Unesp em São Paulo, sobre o avanço errático da ciência. Como podemos ter consenso sobre a evolução do Universo e dissenso sobre o número mínimo de padrões que precisamos para medir suas quantidades? Precisávamos fazer algo a respeito, e o problema passou a fazer parte de nossas agendas.

O Sistema Internacional de Unidades (SI) foi construído na década de 1960 sobre o sistema MKS. Da mesma forma que o SI é suficiente para expressar todas as grandezas, isso é verdadeiro para o MKS. E sobre isso, todos concordávamos.

Mas será que precisamos mesmo do quilo do MKS para expressar massas? A resposta é, surpreendentemente, “não”.

Continua após a publicidade

A massa de um corpo determina seu poder de atração gravitacional. Assim, ela pode ser medida com réguas e relógios e expressa em unidades de espaço e tempo. Basta medir a aceleração a (expressa em metros por segundo ao quadrado – m/s²) com que uma partícula é atraída por um corpo quando estão a uma distância L (expressa em metros – m) e a massa do corpo é dada pelo produto a x L². Desta forma, um litro de água, por exemplo, tem uma massa que pode ser expressa como aproximadamente 0,000.000.000.067 m³/s².

Mas, então, por que o “quilo” foi inventado? Vamos concordar que procedimentos e números como os acima são péssimos no dia a dia. Assim, na Revolução Francesa simplificaram as coisas e definiram que 1 litro de água corresponderia a 1 quilo. E o fator que converte unidades de m³/s² para quilo é o inverso do que conhecemos hoje como a constante G da Gravitação Universal (comumente expressa na forma m³/kg.s², o que faz no resultado da conta restar apenas a unidade “kg”).

Vale notar que o pai da Gravitação Universal, Isaac Newton, morreu décadas antes da introdução do quilo e nunca precisou dele para definir massa. Por mais útil que o quilo possa ser, na prática ele é dispensável por princípio. Isso elimina a necessidade do “K” no MKS, evidenciando que o sistema MS já seria suficiente para expressar todas as grandezas.

Universo é uma simulação? Novo estudo diz que não

Continua após a publicidade

Resolução da controvérsia

Mas é agora que as coisas ficam realmente interessantes. Até o início do século passado, pensava-se que o espaço e o tempo eram absolutos. Neste caso, as constantes fundamentais seriam duas, já que seriam necessários dois padrões – um para distância e outro para tempo – para expressar todas as grandezas.

Mas com o advento da Relatividade, percebemos que espaço e tempo estão ligados em um uno chamado de espaço-tempo. O pulo do gato está em perceber que, em espaços-tempos relativísticos, podemos abrir mão de réguas e medir distâncias apenas com relógios.

O protocolo, descrito em um artigo publicado por nós no periódico Scientific Reports, mostra como fazer isso e acaba por expressar distâncias em segundos-luz.

Um segundo-luz corresponde à distância que a luz percorre em um segundo. Basta multiplicar uma distância em segundos-luz por 299.792.458 para convertê-la em metros. Temos daí que um segundo-luz corresponde a aproximadamente 300.000 km, valor um pouco menor que a distância média da Terra para a Lua.

Continua após a publicidade

Dado que mesmo distâncias podem ser medidas com relógios, podemos abrir mão também do M do MKS e concluir que, em espaços-tempos relativísticos, todas as grandezas podem ser medidas por relógios e expressas em segundos-luz.

É importante saber que espaços-tempos relativísticos precisam vir obrigatoriamente munidos de relógios para que façam sentido. Assim, o mesmo aparato que é necessário para definir e testar espaços-tempos relativísticos é suficiente para expressar todas as grandezas físicas definidas sobre eles.

Desta forma, a resposta à questão de Duff, Okun e Veneziano é que o número de constantes fundamentais é um, pois podemos medir todas as grandezas definidas em espaços-tempos relativísticos apenas com relógios.

Claro que não é nada prático medir massas, distâncias e muitas outras coisas só com relógios, mas do ponto de vista conceitual é importante limpar as lentes pelas quais vemos a natureza se quisermos avançar mais rápido e sem tropeços.<!– Abaixo está a tag de contagem de página do The Conversation.

Continua após a publicidade

George Matsas, Professor Titular do Instituto de Física Teórica, Universidade Estadual Paulista (Unesp)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 52% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 12,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).