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Seu cerébro: Eis o que você é

Lúcia Helena de Oliveira, de San Diego

Suas recordações de 1995 e seus planos para 1996, seus pensamentos mais lógicos e seus sonhos mais absurdos, seu talento para certas coisas e sua total inabilidade para outras, suas paixões, até seu jeito de falar e caminhar, tudo é pura química. São apenas substâncias diferentes que saltam de uma célula cerebral para outra, provocando correntes de eletricidade. Agora os cientistas começam a entender como essas mensageiras nervosas moldam a personalidade.

Uma dinamite explodiu por acidente durante a construção da ferrovia de Vermont, Estados Unidos, em 1848. O estouro projetou uma barra de ferro com tanta força que ela atravessou a bochecha de um dos operários, saindo pelo topo da cabeça. A vítima de 25 anos, Phineas Gage, sobreviveu. Mais do que isso, não sofreu nenhuma seqüela física, não perdeu a memória, não ficou com a inteligência alterada. Só que, em vez de continuar sendo um homem ponderado, passou a agir sem pensar nas conseqüências. Coisas que gostava de fazer, como ficar entre amigos, ele passou a odiar. Por mais de um século esse acidente raro foi considerado um enigma médico e quebrou também a cabeça dos cientistas. Recentemente é que eles começaram a entender o motivo da mudança: a personalidade de um indivíduo tem uma moradia, que fica logo atrás de sua testa. É o lobo frontal do cérebro, justamente a região danificada pela barra arremessada.

Esse e outros endereços cerebrais só foram bem localizados nos últimos cinco anos, graças a técnicas que mostram o cérebro com impressionante nitidez. Assim, comparando as imagens de pacientes com alterações de personalidade, os pesquisadores notaram que esse problema sempre tem a ver com lesões na mesma área machucada em Phineas Gage. “Começamos a entender o papel de cada região do sistema nervoso”, comemora a médica Carla Shatz, que presidiu o 25º Encontro Anual da Sociedade Americana de Neurociências.

Mais de 20 000 pesquisadores do mundo inteiro participaram do evento em novembro do ano passado, em San Diego, na Califórnia, marcando a metade de um gigantesco desafio. Em julho de 1989, o então presidente dos Estados Unidos George Bush assinou um decreto designando os anos 90 como a década do cérebro. A investigação do sistema nervoso passou a ser o principal foco de investimentos em saúde naquele país. E isso acabou se refletindo em laboratórios de vários cantos do planeta.

Conexões são a chave

“Resta saber como as regiões da massa cinzenta influenciam umas às outras”, diz Carla Shatz. Quando se retira quase metade do cérebro de uma criança por causa de doenças, o restante pode aprender o trabalho do pedaço extraído. Até os dez anos de idade, qualquer neurônio é um bom aprendiz, ligando-se a neurônios vizinhos para adquirir outras funções. Quanto mais jovem é alguém, maior a plasticidade dessas células – sua capacidade de criar conexões, que são a base das habilidades e da personalidade. Mas isso ainda não justifica a fantástica recuperação das crianças: de onde vêm as instruções para as tarefas, se as áreas que as realizavam não estão mais lá?

Um avanço foi demonstrar que “as experiências infantis ajudariam a esculpir a mente, mudando a organização dos neurônios”, segundo Ned Kalin, da Universidade de Wisconsin. Sua equipe separou filhotes de macacos de suas mães para provocar estresse nos recém-nascidos. Adultos, os ex-macaquinhos estressados se tornaram animais irritadiços. “Com seres humanos não deve ser diferente”, supõe Kalin. “O que acontece com um bebê pode mexer para sempre com o seu humor no cérebro.”

Quem não comunica se trumbica

O cérebro é mole e pesa cerca 1,3 quilo. Por meio de um microscópio eletrônico, é possível ver que ele parece um emaranhado de fios – os prolongamentos de seus 100 bilhões de neurônios. Estudos recentes mostram que eles são capazes de se multiplicar 250 mil vezes por minuto nos dois primeiros meses de gestação. Mas provavelmente metade morre antes de o bebê nascer, como se apenas os mais sociáveis, aqueles que se comunicam direito, pudessem seguir em frente.

“Durante muito tempo, a gente se preocupou em observar como os prolongamentos dos neurônios cresciam para formar sinapses, isto é, para encontrar outros neurônios que muitas vezes estavam a centímetros de distância”, conta a pesquisadora Story Landis, do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos, nos Estados Unidos. “É fascinante que durante o desenvolvimento do sistema nervoso uma célula ‘saiba’ em que direção estão as destinatárias de suas mensagens”, diz a cientista que, no entanto, já não considera isso o mais importante. “OK, dois neurônios esticaram seus prolongamentos no rumo certo até se encontrarem, mas a partir daí como decidem em que língua irão conversar?”, pergunta.

A linguagem das células nervosas são moléculas chamadas neurotransmissores. De um lado, o neurônio transmissor deve começar a fabricá-las escolhendo entre mais de cinqüenta tipos. E, de outro, o neurônio interlocutor deve criar receptores para encaixá-las perfeitamente em sua membrana. “Se esse acordo inicial não for bem feito, há muita chance de problemas – emocionais, de memória, de raciocínio”, afirma Dennis O’Leary, do Instituto Salk, em San Diego. “Embora possam parecer coisas bem diferentes, todos esses processos não passam de um bate-papo entrosado, em que não faltam nem sobram neurotransmissores.”

Os traumas marcam os neurônios

Muitas vezes, quando a cabeça da gente não vai lá muito bem, não faltam moléculas mensageiras e, sim, receptores para elas. Tanto um problema como o outro, no início, eram atribuídos a defeitos nos genes. Esse ano, na conferência de San Diego, os cientistas constataram que nem sempre é assim. Em muitos casos, os genes fizeram seu serviço direito e o cérebro nasce de bem com a vida. Mas depois as coisas saem dos eixos. Em ratos, ao menos, o estresse constante causa danos em duas estruturas cerebrais envolvidas com a emoção – a amígdala cerebral e o hipotálamo. Coincidência ou não, os ratos com lesões são muito mais medrosos, de acordo com pesquisadores da Universidade de Wisconsin.

“A mesma substância associada ao estresse dos ratos – um hormônio chamado CRF produzido pelo próprio cérebro – é mais encontrada no organismo de quem passou por fortes experiências traumáticas: estupros, assaltos e catástrofes como terremotos”, afirma o médico americano Charles Nemeroff, da Universidade Emory. Ele e seus colegas passaram o último ano examinando vítimas desses episódios traumáticos com ressonância magnética. E notaram que elas apresentam a glândula hipófise ligeiramente maior do que a média da população, enquanto o hipocampo costuma ser menor. “Vários estudos indicam que o estresse psicológico intenso produz alterações sem volta”, diz à SUPER Dennis Charney, da Universidade Yale, nos Estados Unidos. “O que antes seria razão apenas para melancolia passa a ser motivo de uma profunda depressão, por causa dessas alterações. A tendência em Medicina é assumir que a maioria das vítimas de traumas vai precisar tomar remédio para sempre, como um diabético necessita de insulina”.

Cobaia vira fera

Sem dúvida, a mais badalada substância ligada aos sentimentos é a serotonina. Seu nome já aparecia quando o assunto era tristeza. Agora, ela está sendo acusada de ser a responsável por todo tipo de comportamento agressivo. “Na verdade, é a falta dessa molécula que está sendo associada à violência”, esclarece Frederick Moeller, professor da Universidade do Texas que submeteu um bando de ratinhos a uma dieta pobre em triptofano – proteína sem a qual o cérebro não consegue fabricar esse neurotransmissor. E, nessas condições, as cobaias ficaram umas feras.

Outro pesquisador americano, David Goldman, do Instituto Nacional de Saúde Mental, descobriu um defeito genético em determinados receptores de serotonina. “Em tese, se o paciente tem o defeito, a molécula não age direito e o comportamento agressivo tende a aumentar”, diz Coleman, que estudou 81 alcoólatras violentos na Finlândia. Em três deles, o gene do receptor era anormal.

Sentimentos alteram o pensamento

Se o cotidiano pode mudar nossa maneira de sentir, a recíproca é verdadeira: os sentimentos alteram o raciocínio e a percepção do dia-a-dia. Pesquisadores do Instituto Weizmann, em Rehovot, Israel, provaram que as emoções fazem a gente ver o mundo de um jeito diferente. “Voluntários tinham que descrever fotografias, enquanto monitorávamos a área cerebral da visão”, diz à SUPER Armando Arieli, chefe da equipe. “Antes, fizemos entrevistas para saber se tinham alguma preocupação ou se estavam ansiosos mesmo que fosse por um motivo positivo. E, de cara, podíamos prever um padrão para as ondas cerebrais”, conta. Isso porque os exames apontam que existe um gráfico das ondas típico para cada estado de espírito.

Cabeça na lua

Os cientistas já sabem, por exemplo, que a alegria muitas vezes dificulta as coisas. Imagens de ressonância magnética mostram que as áreas ligadas a cálculos e raciocínio lógico podem funcionar devagar quase parando se as células nervosas estão banhadas de endorfinas e outras substâncias conectadas ao contentamento – é a tal impressão de estar com a cabeça no mundo da lua.

Mas há uma área cerebral que nunca trabalha menos: é o tálamo. Ele agora é considerado um órgão fundamental para a sensação de ter consciência – a noção de que você sabe quem é, o que faz e o que pensa a cada instante. O tálamo funciona como um radar, captando todas as informações ao redor. Só que a gente não tem consciência de tudo. Os dados despercebidos podem estar arquivados em algum local ainda indefinido – o inconsciente. Mas também existe a suspeita de que muita coisa é mesmo jogada fora.

Nesse sentido, cientistas da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, liderados por Joseph Huston, fizeram uma descoberta: ao se destruir um pequeno grupo de neurônios de ratos, os bichos ficam mais espertos e aprendem mais depressa. Como poderia uma lesão causar algum benefício? “As células eliminadas são justamente as produtoras de histamina. Talvez essa substância seja uma espécie de cadeado impedindo que o cérebro guarde tudo o que vê, ouve ou sente”, explica o professor Huston.

Ligada aos processos alérgicos, a função da histamina já era bastante conhecida no resto do corpo. O que ninguém sabia é o que ela estaria fazendo em pleno sistema nervoso, no qual foi flagrada há três anos. A experiência de Dusseldorf pode ser a explicação: “Provavelmente seu papel é protetor, deixando que um indivíduo memorize apenas o que é essencial ou do seu interesse.”

Andar de bicicleta

Outra revelação é a do papel do cerebelo no raciocínio. Essa estrutura com jeito de concha, próxima da nuca, era conhecida por comandar gestos automáticos como um piscar de olhos. Mas parece que o cerebelo também participa do aprendizado. “Dentro dele, existem células especializadas em memorizar movimentos”, garante o professor William H. Tach, da Universidade de Washington. “É ele o responsável por aquela história de que aprendemos a andar de bicicleta uma vez e depois nunca esquecemos.”

A experiência da pesquisadora Julie Fiez, também da Universidade de Washington, é mais impressionante Ela pediu que pacientes com danos no cerebelo realizassem a seguinte tarefa: ao ouvirem um verbo como chutar os voluntários tinham que associá-lo a um substantivo, como pé ou chuteira.“Em pessoas normais as respostas são cada vez mais rápidas, pois elas logo se acostumam com a tarefa”, conta Julie. “Mas com o cerebelo afetado, parece não haver melhora. Ou seja, a estrutura deve ser fundamental para se automatizar qualquer coisa, como as regras de um jogo, e não apenas memorizar os movimentos.”

Doença mental pode ser prevenida

Todo o interesse em ver como o cérebro funciona é para aprender por que muitas vezes ele não funciona bem. Está aí a intenção prática da década do cérebro. Existem em torno de 1 000 distúrbios mentais conhecidos – de depressão à esquizofrenia, passando por dificuldades diversas de aprendizado. Em cada cinco habitantes do planeta, um já teve ou tem algum desses problemas, cujo tratamento custa muito dinheiro e pode ser ineficiente, uma vez que tudo ainda carrega certa aura de mistério.

Hoje os cientistas procuram, por exemplo, moléculas que fixam lições de casa. Claro, não servirão de remédio para crianças normais, mas para aquelas com grandes dificuldades em gravar idéias na mente. Uma droga assim poderá ser testada antes do final desta década em homenagem ao sistema nervoso.

Estresse atrapalha a memória

A ciência também pretende frear o envelhecimento cerebral. Nos últimos cinco anos descobriu-se muita coisa sobre a perda de memória que aparece em menor ou maior grau na terceira idade. Não há mais duvida: os hormônios despejados no corpo durante o estresse do dia-a-dia vão estragando aos poucos o hipocampo. E daí essa região ligada à fixação das lembranças já chega à idade madura bastante estropiada. “Assim como os cardiologistas ensinaram os jovens a comer menos gorduras para evitar infartos no futuro”, diz a neurologista americana Carla Shatz, “nós vamos mostrar que uma juventude menos estressada é fundamental para manter o cérebro saudável na velhice.” Além disso, os pesquisadores estão investigando moléculas que os neurônios secretam durante o sono para arquivar novas memórias. Se forem reproduzidas em laboratório, surgirão remédios capazes de acabar com as dificuldades de lembrar.

A área de pesquisa mais obscura ainda é a da esquizofrenia, doença em que o paciente tem bruscas alterações de humor, não consegue formular pensamentos com lógica e, freqüentemente, sofre alucinações. Só agora seus mecanismos começam a ser esboçados pela ciência. Estudos indicam que os esquizofrênicos têm uma atividade exagerada em certas áreas cerebrais, como a frontal. “Até agora os médicos apenas vinham presumindo pelos sintomas que o paciente era ou não um esquizofrênico”, conta a psiquiatra Carol Tamminga, do Centro de Psiquiatria de Maryland, nos Estados Unidos.

Volta ao normal

A médica está animada com as imagens desordenadas do cérebro esquizofrênico. “Se a gente entender o que essa doença tem de diferente em relação ao padrão normal, vamos fazer diagnósticos mais objetivos”, especula Tamminga. “O mais importante, porém, será o trabalho de prevenção, pois poderemos detectar e tratar gente com o problema antes de as crises aparecerem.”

Uma em cada cem pessoas sofre de esquizofrenia – e em 89% dos casos os sintomas aparecem entre os 15 e 25 anos de idade. “Antigamente, essa gente era rotulada de louca. Hoje seu problema é comparado à hipertensão, ou seja, a um distúrbio que, em tese, pode ser corrigido com medicamentos”, diz a médica. Até o momento, as drogas mais eficientes em testes são aquelas que se encaixam nos receptores do neurotransmissor dopamina, impedindo que ele aja. “Não tenho dúvida que a dopamina está envolvida nesse processo”, diz o psiquiatra inglês Raymond Dolan, do Instituto de Neurologia de Londres. “A questão é que, como em muitos distúrbios mentais, devem existir vários fatores envolvidos. E estamos apenas começando a trajetória para decifrá-los. Será uma década sem fim.”

Para saber mais

Healing and the Mind, Bill Moyers, Doubleday Editors, Nova York, 1995

A divisão do trabalho na nossa cabeça

Graças a técnicas recentes como a ressonância magnética, que permite ver quais áreas do sistema nervoso estão ativadas quando se realiza determinada tarefa, é possível traçar um mapa mais preciso das funções de cada parte do cérebro

Departamentos da emoção

Área da sensibilidade

Uma série de estruturas forma o sistema límbico que controla os órgàos do corpo. Como aqui também são produzidas as emoções, essas sempre influenciam o funcionamento do organismo.

Gravador

O hipocampo grava memórias que, depois, são arquivadas em toda a massa cinzenta. A gravação sai melhor ou pior conforme a quantidade de moléculas produtoras de sentimentos. Elas são fixadores de recordações. A exceção são as substâncias do medo, que às vezes têm efeito oposto: sob a influência delas, o hipocampo pode fazer um episódio aterrorizante cair no esquecimento.

Gerador de sentimento

Parte do sistema límbico, a amígdala cerebral é a principal produtora das emoções.

Elo com o corpo

O hipotálamo traduz o que se sente: ordena uma descarga de hormônios e pode fazer o coração acelerar.

Onde o serviço acumula

Desigualdade

A massa cinzenta não tem a mesma aparência nos dois lados. A área lateral ligada à audição é a prova: ela costuma ser mais espessa no hemisfério esquerdo, que tem a tarefa extra de decifrar o que os outros falam.

É sempre assim: as regiões do córtex que mais trabalham crescem mais. Talvez por isso os músicos tenham áreas de audição mais desenvolvidas do que a média da população.

Os ventrículos são reservatórios do fluido que banha os neurônios

A sede da consciência

Na ilustração ao lado o que se vê é o córtex, a camada externa, com cerca de 8 milímetros de espessura. Só quando as informações chegam nessa superfície é que se tem consciência delas. No córtex também ficam as funções mais nobres, divididas em quatro áreas de cada lado, chamadas lobos

Ponto de encontro

Logo atrás da testa fica o lobo frontal, onde a razão e a emoção se encontram. No cérebro, esses dois conceitos são inseparáveis, pois toda atitude ou decisão (como ir a uma festa) ativa as moléculas envolvidas com sentimentos (ansiedade, alegria ou mesmo raiva, se você não queria sair de casa). Nessa região também fica a capacidade de falar.

Local da agitação

O córtex motor comanda os movimentos. Mais de 60% dele são dedicados à face e às mãos, áreas do corpo que realizam a dança muscular de gestos, caras e bocas.

Área dos sensores

O lobo parietal, no alto da cabeça, interpreta as informações sensoriais, como sinais de calor ou de frio no ambiente.

Lugar das paisagens

As imagens percebidas pelos olhos são analisadas no lobo occipital.

Zona do barulho

Tanto na lateral esquerda como na direita encontra-se o lobo temporal, envolvido com o aprendizado de qualquer coisa, especialmente o da linguagem. Faz sentido, porque aqui também são processadas as informações sonoras captadas pelos ouvidos.

Fábricas de idéias

Os personagens principais

Qualquer pensamento é produzido pelos neurônios, as células cerebrais que lembram um cometa. A cauda, no caso, tem centenas de ramificações chamadas dendritos, que captam sinais de outros neurônios. Os sinais são correntes elétricas que percorrem toda a célula até alcançarem outros prolongamentos, chamados axônios, ao redor de seu corpo. “Ali, a eletricidade faz com que bolsinhas internas ou vesículas acabem se fundindo com a membrana”, descreve o professor italiano Pietro DeCamilli, da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Então, as bolsas estouram liberando moléculas de neurotransmissor. Parte delas é reabsorvida. Outra parte salta um espaço microscópico e se encaixa em receptores feito fechaduras do neurônio vizinho. O encaixe vai disparar a corrente elétrica nessa segunda célula e começa tudo outra vez. “O ciclo completo é chamado sinapse”, explica DeCamilli.

Rede de comunicação

Supercomputador

O tálamo se comunica com o córtex para captar e somar todas as informações conscientes em determinado instante.

Troca de informação

O corpo caloso liga os dois hemisférios cerebrais. Serve de ponte para que as informações do lado esquerdo alcancem o lado direito e vice-versa.

Ordens químicas

A hipófise é a glândula-mãe. Ela recebe os sinais nervosos do hipotálamo e os repassa na forma de comandos químicos para todas as glândulas do corpo.

Quem dá o ritmo

O cerebelo se comunica com os músculos para sincronizar os movimentos. Assim, controla até que ponto você precisa estender o braço para cumprimentar alguém.

Cabo de transmissão

A medula transmite os comandos cerebrais para o restante do organismo.

Dois motivos para ficar com raiva

Por trás de qualquer ato de violência existe a deficiência de uma molécula chamada serotonina. Veja quais podem ser as causas

Ou falta matéria-prima…

1. A fábrica

A serotonina, molécula reguladora das emoções, é montada dentro do neurônio.

2. O ingrediente

Para isso, o neurônio junta moléculas de uma proteína chamada triptofano.

…Ou o encaixe é defeituoso

Quem é calmo…

Normalmente, a serotonina se encaixa perfeitamente nos neurônios das áreas ligadas às emoções.

…E quem é agressivo

Às vezes, pode ser que não falte serotonina no cérebro. Mas, em certos indivíduos, ela não se encaixa direito nos receptores. Então, não consegue agir. Talvez exista gente que já nasce com receptores defeituosos e, portanto, com tendência à violência.

3. Os fornecedores

O abacaxi e o leite são ricas fontes de triptofano. Sem ele, a tendência a ficar nervoso aumenta.

Emoções criadas em laboratório

Surge uma nova geração de remédios para os distúrbios mentais. São moléculas que intereferem nas substâncias ligadas aos sentimentos

As imagens ao lado são do mesmo indivíduo. As manchas vermelhas e amarelas são áreas de baixa atividade. A foto superior é um retrato nítido de depressão . O paciente, depois, tomou drogas da família do Prozac, que inibem a serotonina. Pois a falta dela causa agressividade, mas o excesso provoca um tremendo desâmino. Na imagem inferior , após a medicação, as áreas cerebrais de pouca atividade diminuíram.

A maquilagem da mente

Como agem os medicamentos que modulam o estado de espírito

1. Centro da emoção

A amígdala cerebral e o hipocampo são as estruturas que mais liberam substâncias produtoras dos sentimentos.

2. Regulagem

Nas células dessas regiões é importante que não faltem nem sobrem substâncias como a serotonina. Caso contrário, o desequilíbrio químico se tornará instabilidade mental

3. Substituição

Quando o problema é causado pelo excesso de certas moléculas, como na depressão, o remédio deve bloqueá-las, muitas vezes ocupando seu lugar nos receptores 1.

4. Estímulo

Quando algum distúrbio mental é provocado por uma deficiência – como a falta de setoronina no caso da violência – o ideal é criar um remédio que estimule sua produção 2.

Sinais do mundo em que vivemos

Onde estamos? O que fazemos? É o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro, que nos fornece essas respostas a cada instante, sem parar, criando a sensação conhecida por consciência

O radar interno

Os cientistas descobriram que o tálamo emite sinais elétricos comparáveis 1 a ondas de radar. Os sinais vão em direção à superfície cerebral chamada córtex, fazendo uma varredura no sentido da testa para a nuca 2. Quando encontram uma das áreas do córtex ativada, voltam ao tálamo, repetindo a informação 3. Assim, vamos imaginar um indivíduo numa praia. O tálamo vai captar, primeiro, os sinais de cheiro de mar, na região especializada em olfato 4. Em seguida, o calor do sol registrado na parte do córtex que capta informações de temperatura ambiente. Ao tálamo também chegam a sensação de estar caminhando 6, o som do latido de um cachorro que passeia na areia 7, a visão do lugar 8. Em menos de um décimo de segundo, as informações são somadas, criando a consciência 9.

Células vão ficando boas de papo

A gente também ouve com os olhos, segundo os pesquisadores que investigam como o sistema nervoso desenvolve a linguagem

Quando se aprende a falar, o córtex visual 1 e a área da audição 2 são ativados, como mostram as manchas vermelhas na imagem ao lado. Mais tarde, a criança repete algumas palavras, acionando os centros da fala 3. E quando expressa idéias complicadas bota quase todo o córtex para funcionar 4.

Como a gente fala e os pássaros cantam

Estudos indicam que a fala humana e o canto dos pássaros se desenvolvem de um jeito parecido.

Como a gente fala e os pássaros cantam

Estudos indicam que a fala humana e o canto dos pássaros se desenvolvem de um jeito parecido

Abertos a novidades

O passarinho recém-nascido pode aprender o canto típico de seus pais. Mas se entrar em contato com outra espécie, também aprenderá o jeito de cantar estranho. A princípio, o ser humano recém-nascido também pode gravar perfeitamente sons de qualquer língua.

De orelha em pé

Mais tarde, os filhotes de aves ficam desconfiados quando ouvem sons diferentes e tendem a só prestar atenção no canto da sua espécie. O cérebro da criança também passa a só gravar sons mais comuns – justamente os sons da sua língua.

Feito papagaios

Pássaros e crianças, na etapa seguinte, repetem os sons dos adultos. Isso marcará o cérebro de ambos para sempre, criando conexões de neurônios. A criança, ao se tornar adulta, jamais perderá o sotaque de sua língua de origem. Experiências em que os cientistas tentaram ensinar cantos estranhos para pássaros maduros mostraram que, quando eles conseguem aprender, o “sotaque” estrangeiro também é inevitável.

O retrato nítido da esquizofrenia

Só a partir de 1993 é que os cientistas começaram a ver o sistema nervoso em plena ação. Agora surgem imagens impressionantes, como a das alucinações

Com as idéias no lugar certo

Esta é a imagem do cérebro de um indivíduo normal. As áreas amarelas são as que estão recebendo mais sangue – portanto as que estão ativadas. Geralmente, as pessoas têm esse padrão

Com tudo em desordem

Este é um cérebro com alucinações. Embora o exame tenha sido feito em um ambiente silencioso, as áreas da audição, nas laterais, estão mais ativadas do que o normal – isso indica que o paciente está ouvindo vozes que não existem.

O que esperar para o ano 2 000

Até o final da década, os pesquisadores prometem muitas novidades no tratamento de doenças

Derrame

A mancha vermelha é um derrame. Além da área afetada pelo vazamento de sangue, os neurônios nas vizinhanças do acidente se suicidam, aumentando os estragos. Mas drogas para evitar o suicídio celular, diminuindo as seqüelas, serão testadas este ano.

Alzheimer

As manchas escuras abaixo são áreas em que os neurônios degeneraram por causa do Mal de Alzheimer, que destrói rapidamente o raciocínio – efeito nefasto que será retardado em cinco anos com novos remédios em testes.

Epilepsia

Uma espécie de marca-passo poderá ser implantado no cérebro para normalizar as transmissões nervosas ao menor sinal de alterações. Isso evitará os ataques epilépticos.

Vícios

Devem surgir moléculas criadas em laboratório que se encaixam no mesmo lugar do álcool ou da cocaína nos neurônios, curando a dependência, sem sofrimento para o viciado.

O controle de todo o corpo

Direta ou indiretamente, o cérebro comanda o funcionamento de todos os órgãos do corpo, por meio de hormônios ou de sinais nervosos. Se não faz isso direito, surgem doenças

Parecidas com sementes, oito pequenas estruturas de nome complicado – órgãos circunventriculares – controlam todos os cantos do corpo. Uma delas, a mais próxima da nuca, conhecida por área postrema, passou a ser muito estudada. Não é à toa: ela controla a pressão do sangue nas artérias. O tempo todo, seus sensores estão analisando a quantidade de certas substâncias no sangue. Conforme o que encontram, os sensores disparam sinais. ”É possível que várias doenças tenham de ser tratadas diretamente no cérebro”, diz Alan Kim Johnson, da Universidade do Iwoa, nos Estados Unidos. A pressão, então, deveria ser regulada com drogas que atuem na área postrema.

Para cima

Quando moléculas de um hormônio chamado angiotensina se encaixa nas células da estrutura cerebral, elas logo disparam uma ordem para as paredes de cada vaso sangüíneo do corpo se contrair, aumentando a pressão.

Para baixo

Por sua vez, quando a pequena estrutura percebe que existem muitas moléculas de vasopressina no sangue – outra substância que faz a pressão aumentar – ela envia uma ordem para os vasos sangüíneos relaxarem. Assim, se tudo vai bem no cérebro, a pressão de um indivíduo nunca está alta nem baixa demais.

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