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Vermes geneticamente modificados podem curar feridas graves

Larvas de moscas são usadas no tratamento de necroses, comendo o tecido morto

Por Fábio Marton
29 mar 2016, 18h30 • Atualizado em 31 out 2016, 19h00
  • Um grupo de cientistas da americanos e neozelandeses acaba de publicar um estudo no qual genes humanos foram introduzidos em moscas varejeiras, para que suas larvas produzam o fator de crescimento PDGF-BB, que incentiva a recuperação da pele humana.

    Varejeiras, para quem não teve o desprazer de ser apresentado, são aqueles bichinhos metálicos, verdes ou azuis, incrivelmente insistentes em ocupar ambientes de convívio humano. E, se elas conseguem o que querem – botar ovos em partes vulneráveis do nosso corpo -, o resultado pode ser desastroso: as larvas crescem e se alimentam da pessoa. O nome disso é miíase e pode até matar.

    O que cargas d’água querem os cientistas com esses monstrinhos? Nem todas as varejeiras são criadas iguais. As larvas de algumas delas, como varejeira verde americana (Lucilia sericata), usada no estudo, se restringem exclusivamente ao tecido morto. A Lucilia geralmente ataca cadáveres, mas quando ela bota ovos em (cuidado: imagens seriamente nojentas) feridas necrosadas em pessoas vivas, suas larvas se limitam a comer o que já está estragado, poupando os médicos de complicadas cirurgias.

    Melhor ainda, elas emitem compostos bactericidas, que evitam que a necrose se alastre. Essa é a terapia larval, que consiste em aplicar ovos de moscas criadas em condições estéreis em vários tipos de necrose, como escaras cirúrgicas ou gangrena causada por diabetes, que é o foco do estudo. A ferida então é fechada com gaze e os bichos se alimentam do tecido morto, até se tornarem pupas (crisálidas de mosca) e serem removidas – evitando que moscas saiam voando do paciente. Parece tétrico, mas não é novidade: desde a Antiguidade, da experiência de guerras, já se sabia que as moscas certas eram capazes de curar necrose.

    O propósito do estudo foi melhorar ainda mais a terapia larval, criando supermoscas capazes de não só comer o lixo, como incentivar o tecido vivo em volta a se recuperar. Uma das duas técnicas testadas foi capaz de criar larvas que emitem o PDGF-BB. Os testes ainda não chegaram a humanos, mas são promissores. “A vasta maioria das pessoas com diabetes vivem em países com renda média ou baixa, sem opções caras de tratamento”, afirma o entomologista Max Scott, da Universidade da Carolina do Norte. “Vemos isto como o um estudo primordial para o desenvolvimento futuro de moscas L. sericata geneticamente modificadas, para produzir uma variedade de fatores de crescimento e peptídeos antimicrobianos”, continua. “A longo prazo, o propósito é desenvolver formas baratas de tratar ferimentos que podem salvar pessoas de amputações e outros efeitos negativos.”

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