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Você consegue pronunciar as letras V e F? Agradeça a polenta.

Pesquisadores associam o uso das consoantes às mudanças na mandíbula propiciadas pelo consumo de alimentos moles e cozidos no período neolítico.

Comidas moles – como polenta, mingau ou sopa – eram tecnologia de ponta na pré-história. Usar o calor para tornar o alimento mais fácil de mastigar e digerir foi tão importante para evolução humana quanto o bipedalismo, que liberou as mãos do chão, ou a posição dos nossos polegares, que permitiu o manuseio de objetos. Nosso cérebro, seis ou sete vezes maior que a média para um mamífero do nosso porte, consome 25% da cota de calorias do corpo. Se nós não tivéssemos dado um jeito de extrair essas calorias da comida com mais facilidade, nós não teríamos combustível para o cabeção – simples assim.  

Outra tecnologia exclusivamente humana vem instalada de fábrica em nós: a fala. A linguagem em si – isto é, a capacidade de encadear palavras seguindo regras gramaticais difíceis – já é algo fora de série. Mais impressionante ainda é fato de que fazemos uma dança sutil com a língua, a mandíbula, os dentes e os lábios para tirar a linguagem do pensamento e transformá-la em som. Pronuncie a palavra paralelepípedo em voz baixa, e preste atenção na delicadeza e coordenação dos movimentos que ocorrem no interior da boca.

Em 1985, o linguista Charles Hockett uniu a evolução da culinária e a evolução da fala em uma hipótese fascinante: ele propôs que a maneira como populações humanas de caçadores-coletores usam os dentes (isto é, com força) tornaria mais difícil para eles produzir os sons das letras “f” e “v”. E que, portanto, essas consoantes seriam mais raras nas línguas de etnias que não praticam a agricultura.

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A explicação é a seguinte: para pronunciar “f” e “v”, você precisa encostar o lábio inferior nos dentes de cima (verifique fazendo o teste com sua própria boca). Hoje em dia, a maior parte das pessoas morde de uma maneira tal que os dentes de cima passam na frente dos dentes de baixo. E essa configuração é perfeita para pronunciar “f” e “v”, pois mantém os dentes da frente apoiados no lábio inferior constantemente.

O oposto ocorre com um cão da raça buldogue. Nele os dentes de baixo são mais proeminentes, e encostar o lábio inferior nos dentes de cima é praticamente impossível. Mesmo que os nossos dentes de cima e de baixo fossem perfeitamente alinhados – isto é, nenhum dos dois passasse pela frente do outro –, nós ainda gastaríamos 29% mais energia para pronunciar “f” e “v” do que gastamos com os dentes de cima na frente.

Caçadores-coletores precisam mastigar comidas rígidas e fibrosas com frequência. Assim, seus dentes se desgastam mais rápido e sua mandíbula tende a se projetar para frente ao longo da vida, dificultando a pronúncia de “f” e “v”. E foi por isso que Hockett imaginou que esses sons fossem mais raros entre etnias que não desenvolveram a agricultura. Com a invenção da agricultura, os dentes puderam assumir a posição atual, e as consoantes “f” e “v” tiveram uma chance de prosperar.

Um artigo científico publicado na Science hoje traz evidências sólidas a favor da hipótese de Hockett. Pesquisadores liderados por Damián Blasi, da Universidade de Zurique, descobriram que os sons “f” e “v” aparecem em línguas de caçadores-coletores com só um quarto da frequência em que aparecem nas línguas de povos que praticam a agricultura.

Descobriram também que esses sons só se tornaram comuns após o período neolítico, que é relativamente recente (entre 7000 a.C. e 2500 a.C.) – e corresponde justamente à invenção da agricultura. Só 3% das consoantes do proto indo-europeu (a língua que era falada na Eurásia há cerca de 8 mil anos e se ramificou no latim, no grego e no sânscrito) eram “v” ou “f”, mas eles aparecem em 76% das 7 mil línguas faladas atualmente.  

Agradeça, então, a feijão. E o figo. E a farofa. Bem, já deu para entender a piada. Sem eles, você não saberia pronunciar consoantes tão f***.