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20. “Brincar de polícia e ladrão é coisa de marginal”

A verdade: Quando crianças brincam de perseguição, elas desenvolvem habilidades sociais e cognitivas

Maurício Horta

Crianças transformam galhos em espadas, bexigas em bombas, peças de Lego em revólveres. Mesmo sem armas, vão brincar de luta, morrer e renascer para tentar matar seu assassino. E não adianta proibir. “O fato é que a tolerância zero simplesmente não elimina esse tipo de brincadeira da infância. Crianças, quase sempre meninos, vão persistir fazendo e usando armas de faz-de-conta e agindo como super-heróis”, afirma a pesquisadora Penny Holland, da Universidade Metropolitana de Londres. A culpa é da televisão, que estaria mais violenta do que nunca? Não exatamente. “Acho que há um grau de romantismo nessa afirmação. Quando eu era criança, o equivalente eram caubóis e índios. O que faria desse tema intrinsicamente racista e brutal mais aceitável do que versões high-tech oferecidas às crianças hoje?”, questiona Holland. Meios de comunicação podem até mostrar heróis e vilões aos quais crianças atribuem suas fantasias, mas brincadeiras de luta e perseguição são anteriores à existência da televisão e do cinema. Esse comportamento existe não apenas em crianças como também em jovens chimpanzés, macacos rhesus e orangotangos – para não falar em cachorros (quem nunca viu cachorros brincarem de lutinha?). E ele tem uma função evolutiva como outras brincadeiras: desenvolver habilidades críticas para a sobrevivência quando for adulto. Quando brincam de lutar, crianças exploram conceitos complexos, como território e pertencimento a um grupo. Usam a imaginação para transformar objetos em armas e criar situações hipotéticas e exercitam emoções como o medo de ser pego, a agressividade para pegar, a coragem para assumir riscos, a prudência para evitá-los, a frustração em perder e a alegria em ganhar. Também aprendem a negociar regras, construir estratégias – isso sem falar do exercício físico que há em correr atrás dos amigos. Esse tipo de brincadeira cria caminhos neurais que vão ser depois desenvolvidos em atividades esportivas baseadas em regras e outros tipos de competições. E com uma grande vantagem: é tudo faz-de-conta. Ao brincar de perseguição, mesmo com armas de brinquedos, ninguém está de fato machucando ninguém. Enquanto não quebrar a linha entre brincar de lutar e lutar de verdade, a brincadeira vai continuar sendo apenas uma brincadeira. Já repreender a criança que se interessa por esse tipo de brincadeira passa a mensagem de que a criança é má – um baita golpe contra sua autoestima.

É de mentirinha
Para exercitar habilidades necessárias em confrontos reais, cachorros brincam de lutinha entre si. Primeiro, inclinam o corpo para baixo – é esse o sinal de que o ataque não é para valer. Então, alternam os papéis de agressor e vítima, mordem de mentirinha e até pegam mais leve com mais fracos.

 

Do bangue-bangue ao hospital
Como armas de brinquedo ajudaram um menino a se socializar

Enquanto pesquisava o papel das brincadeiras de luta no desenvolvimento, Penny Holland conheceu Darren, um garoto rejeitado por seus colegas numa escolinha de Londres. Darren criava revólveres com todo tipo de material que encontrava – e era prontamente repreendido pelas professoras. Como não tinha interesse por outros brinquedos, acabou mais isolado. Para piorar, batia nos colegas. Suas professoras o levaram até Holland, que lhes orientou a permitir construir armas de brinquedo. Esse foi o ponto de virada de Darren. Em pouco tempo, passou a construir para os colegas duas armas por dia. No início, brincadeiras se limitavam ao “bang, bang, você morreu”, mas logo incluíram perseguições. Conforme as lutas viraram faz-de-conta, as agressões físicas verdadeiras rarearam. E, quando aconteciam, Darren passou a pedir desculpa. Com isso, ele se tornou popular entre os colegas. Passados 8 meses, começou a transformar armas em desfibriladores com os quais Darren ressuscitava colegas mortos nos tiroteios de mentirinha, conta Holland. Em sua última visita, ela viu Darren quebrar sua arma e transformá-la numa marmita. Afinal, precisava comer enquanto era levado num carrinho para atender seu próximo paciente.

A violência é inata
Evoluímos agressivos, mas também temos freios que nos seguram

Segundo uma pesquisa do psicólogo David Buss com 5 mil americanos, 91% dos homens e 84% das mulheres dizem ter tido ao menos uma fantasia intensa e detalhada de matar alguém. Mas não mataram. Embora tenhamos evoluído com estratégias violentas, evoluímos com outras que nos seguram. Uma é a empatia, que nos faz sentir no lugar de pessoas com quem nos identificamos. Outra é o medo de retaliação. E, quando há um Estado com instituições fortes, o risco de retaliação por meio da Lei é ainda maior. Uma região tomada por gangues será mais violenta não porque suas crianças brincam de polícia e ladrão, mas porque, quando a lei não vale, resta a nossa natureza.