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A salvação da Torre de Pisa

Fechada há mais de um ano para os turistas, a Torre de Pisa corre o risco de desabar. Para mantê-la de pé, dois projetos tentam recuperar sua fundação e sua estrutura.

Mônica Falcone

Se os sete sinos da Torre de Pisa voltassem a tocar, como fizeram até 1911, a oscilação provocada pelo movimento dos seus 9 500 quilos de metal fundido e pelo som harmônico seria, quase certamente, fatal à famosa Torre inclinada. Os sinos dobrariam pela última vez. Dobrariam pela própria Torre, campanário da Catedral de Pisa, construída afastada alguns metros da igreja, como mandavam as noções de estática da Física da época — para evitar que as ondas sonoras causadas pelo toque dos sinos afetassem o equilíbrio da catedral inteira. Seria um réquiem para o monumento que, com 818 anos de vida e uma inclinação de 4,86 metros em relação à vertical, pode desabar a qualquer momento. O medo da repetição da tragédia de 1989, quando uma torre em Pavia foi ao chão, matando várias pessoas, levou o governo a fechar a Torre, e desde janeiro de 1990 não é mais possível visitá-la.

“É suficiente um vento forte para que a Torre desmorone”, disse a SUPERINTERESSANTE o professor Giorgio Macchi, um dos treze especialistas italianos e estrangeiros convocados pelo governo da Itália para encontrar remédios urgentes que possam salvar um dos monumentos mais visitados do mundo. Antes de essa situação de emergência ser detectada, subir na Torre de Pisa era programa tão obrigatório para os turistas como ver o papa em Roma. De 1922 até o fechamento, 18 milhões de turistas subiram alegremente os seis lances de escada em espiral dos seus oito andares. Ao contrário dos demais campanários, dotados de uma impraticável escada de serviço, as escadas da Torre de Pisa, de 1 metro de largura, encastradas nos muros, foram feitas para serem usadas pelo público.De seu topo, a vista é de perder o fôlego. A poucos metros, sobressaindo do verde do gramado da Praça dos Milagres, a clara arquitetura da catedral, do batistério e do cemitério ofusca os olhos.
 
Em volta, descortina-se a cidade de Pisa, entrecortada pelo Rio Arno, e ao longe o porto e o Mar Mediterrâneo. Os visitantes mais sensíveis certamente se emocionam ao lembrar a lenda de que Galileu Galilei, aproveitando-se da sua inclinação, fez em 1590 experiências para provar a constância da aceleração da gravidade na queda dos corpos. Muitos, emocionados, ignoram que a história não foi bem assim.Foi a descoberta de um ponto crítico na estrutura, que pode ceder de um momento para o outro — não a inclinação —, que obrigou o governo italiano a fechar a torre ao público e a convocar os especialistas em busca de uma solução imediata. Se o ângulo de inclinação continuar a aumentar no ritmo atual, em média 1,2 milímetro por ano, calcula-se que num dia incerto, entre 200 e 1000 anos, o centro de gravidade da torre vai se projetar para fora da base e ela se espatifará no gramado da praça.A situação de fragilidade estrutural, porém, é tão mais grave que exige medidas urgentes de segurança. A primeira vai ser enfaixar a Torre na moldura entre o primeiro e o segundo andar, onde foi identificado o ponto crítico, com três anéis formados por quatro cabos de aço inoxidável cada um. Os cabos de aço funcionarão como os aros de um barril. 

Devem contrabalançar provisoriamente uma fragilidade insustentável, até que uma medida definitiva seja encontrada, como explicou o professor Carlo Viggiani, da Universidade de Nápoles, um dos cientistas convocados para salvar o monumento: “Se o alicerce da Torre se apoiasse de modo igual no terreno, a pressão na sua base seria igual em todos os pontos. Como o terreno do lado sul vem cedendo progressivamente, observa-se atualmente uma pressão de 11 quilos por centímetro quadrado deste lado e uma pressão pouco maior do que zero do lado oposto. Entre o primeiro e o segundo andar, porém, existe uma pressão de 80 quilos por centímetro quadrado do lado da inclinação. Para suportar esta pressão seria necessária uma estrutura de concreto armado. Do lado oposto, há forças de tração para o alto”.Não é preciso subir à Torre para poder admirar a sua original forma redonda. Da praça, como fazem diariamente 15 000 turistas, percebe-se a leveza de seis andares ornados de pórticos com harmoniosos arcos equilibrados em trinta colunas finas em cada andar. Aprecia-se também a solidez da estrutura secular de alvenaria de pedras retangulares.Muitos elementos inexplicáveis e incomuns na vida da Torre de Pisa contribuem para criar em tomo dela uma aura de mistério. 

A forma circular é absolutamente original. Todas as torres de campanários italianas da mesma época têm formato quadrado. Não se sabe de quem foi o projeto da Torre, pois ninguém assumiu sua autoria, enquanto os demais edifícios da praça (a catedral, o batistério e o cemitério) são assinados em diversos pontos por seus autores.A inclinação crescente desafia a compreensão dos historiadores e arquitetos. Tanto que até hoje, oito séculos depois da sua construção, existem duas correntes de opinião antagônicas entre os especialistas, que se combatem à força de livros e tratados. Para uns, a Torre foi construída inclinada de propósito, como um desafio arquitetônico e estético. Esta facção é liderada pelo decano dos catedráticos de História da Arquitetura da Itália, Guglielmo De Angelis d’Ossat. É certo que, depois de apenas três dos oito andares estarem concluídos, já se podia perceber a desigualdade da fundação sobre o solo de uma argila macia. Procurou-se compensar a inclinação construindo os andares um pouco mais altos no lado inclinado, o que só serviu para afundá-la ainda mais. Somente no século XIV, depois de várias interrupções, a Torre foi concluída, já pendente.

A situação ficou mais crítica no início dos anos 60, período do boom econômico na Itália. O aumento do consumo de água levou os pisanos a explorar com ânsia crescente poços cavados nas proximidades da Praça dos Milagres. No subsolo da praça, embaixo da Torre, a cerca de 60 metros de profundidade, existe um lençol freático. A exploração dos poços nos arredores fez com que o lençol sofresse profundas oscilações, rapidamente. Segundo os especialistas, a variação chegou a até 1 metro em poucos dias. No início dos anos 70, a prefeitura decretou o fechamento dos onze poços de 50 a 200 metros de profundidade encontrados num raio de 1000 metros em torno da Torre.O movimento se estabilizou. Um aqueduto chegou a ser financiado pelo governo, mas nunca foi construído. Atualmente, a exploração do lençol freático profundo não só continua, como aumentou. À espera de novas verbas para o aqueduto, que alimentaria a cidade com água vinda de longe, o professor Viggiani explicou qual seria possivelmente a conduta da comissão de especialistas: “Nossa proposta é impermeabilizar o subsolo na zona da Praça dos Milagres, isolando o lençol freático embaixo da Torre dos demais que alimentam os poços da cidade”. 

A idéia seria criar um diafragma que empacotasse o lençóis, possibilitando manter sob controle sua pressão interna.A solução de isolar hidraulicamente o subsolo da praça já tinha sido levantada em 1973, quando foi realizado um concurso público para projetos de estabilização da Torre. Nesse concurso, diversas soluções para reequilibrá-la foram apresentadas. A ambição de endireitar a Torre seduz a fantasia de muitos. Uma garota de Buenos Aires enviou um projeto que consistia em tirar terra aos poucos por baixo do alicerce do lado contrário ao da inclinação.O concurso selecionou os cinco meIhores projetos, misturados depois para dali sair uma solução final. A maioria das propostas previa a consolidação do alicerce com o uso de uma rede de estacas finas fincadas a grande profundidade. Um deles propôs a solidificação do terreno por meio da injeção de cimento e de aditivos químicos com aparelhos especiais. O projeto mais sofisticado pretendia endireitar parcialmente a Torre com uma tração feita por cabos ligados a estacas. 

Na fase atual, a única proposta pública de equilibrar a Torre foi feita pela empresa alemã DMT. Para Viggiani, que há trinta anos participa de comissões para salvar o monumento, se o caso fosse recuperar um edifício comum, o problema já estaria resolvido. “Pôr a mão numa obra de arte que atravessou mais de oito séculos de história é uma decisão mais difícil”, justifica. A ousadia da proposta da DMT para salvar a Torre de Pisa só se explica pela sua experiência rotineira em endireitar prédios, igrejas e chaminés na sua região. Essen, cidade onde está sediada, é apinhada de minas de carvão, e a instabilidade do terreno progrediu no mesmo ritmo voraz do consumo de energia exigido pela industrialização da Alemanha.No currículo da DMT está mais de uma centena de endireitamentos de edifícios, inclusive uma colossal chaminé de 120 metros de altura. Seu projeto prevê um corte da Torre logo acima dos alicerces com serras de diamante, do tipo usado para extrair blocos de mármore nas minas de Carrara, no centro da Itália. 

Em seguida, a parte superior da Torre, apoiada numa plataforma, deverá ser levantada por 160 macacos acionados por prensas hidráulicas, com movimentos graduais de 0,1 milímetro.O peso da Torre é 14 500 toneladas, e cada guindaste pode levantar até 100 toneladas. A variação de pressão na estrutura a cada momento será mantida sob controle por computador, que ajustará automaticamente a força das prensas. O lado contrário à inclinação deverá ser abaixado. A operação será repetida até que a parte inclinada seja levantada em 20 centímetros. Este espaço será preenchido com um material de grande resistência — mármore por fora e pedra de mármore e cimento por dentro. Talvez seja de cor clara, praticamente semelhante ao mármore da Torre, ou de cor mais escura, a fim de deixar claro que é uma restauração. Outra possibilidade é fazer o corte mais embaixo ainda, de modo que o enxerto não seja visto. Depois dessa operação, a inclinação da Torre deverá se reduzir a pouco mais de 4 metros, e sua sobrevivência estará assegurada por outros oito séculos.

 

 

 

 

Para saber mais:

Newton: gênio difícil

(SUPER número 2, ano 2)

 

O novo mundo de Galileu 

(SUPER número 5, ano 3)

 

 Veneza vai virar mar?

(SUPER número 1, ano 9)