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Acho que vi um ET

Nosso repórter passou três dias no Fórum Mundial de Contatados - evento que reúne pessoas que dizem ter feito contato com alienígenas. Veja o que ele descobriu

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h52 - Publicado em 13 jan 2014, 22h00

Ricardo Lacerda

 

 

“Quando eu tinha 5 anos, em 1964, acordei com o Gasparzinho na beira da cama”, disse a médica paulista Mônica de Medeiros. Apesar da afirmação engraçada, ninguém entre as mais de 400 pessoas do auditório deu risada. Estávamos num hotel em Cacupé, na costa de Florianópolis, onde acontecia o Primeiro Fórum Mundial de Contatados, um congresso de três dias que reuniu estudiosos, curiosos e muita gente que jura ter feito algum tipo de contato com seres alienígenas. O evento foi organizado por Ademar Gevaerd, editor da revista UFO e presidente de uma ong chamada Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores. O ciclo de palestras, que começou em uma sexta-feira à noite e terminou no entardecer de domingo, trouxe conferencistas da Argentina, dos EUA, do Peru e da Itália, além de gente de diversos Estados do Brasil.

No discurso de abertura, Gevaerd lamentou o fato de a ufologia nem sempre ser levada a sério, mas depois comemorou a liberação de documentos da Aeronáutica [veja texto anterior]. Em seguida começaram as palestras, que se sucederam em ritmo de maratona. “É normal eles [alienígenas] usarem o imaginário infantil”, diz Mônica, no palco, para explicar a suposta aparição de Gasparzinho. Depois, durante um café, ela me conta mais. Diz ter feito contatos frequentes com um gray, o tipo mais famoso de ET – aquele típico dos filmes, de aparência cinzenta, baixa estatura, cabeça ovalada e olhos esbugalhados. Aos 13 anos, de tanto a menina falar no assunto, os pais a levaram para fazer um tratamento espírita, que teve como consequência o sumiço dos alienígenas. Eles só voltaram a se manifestar quatro décadas depois, quando Mônica viu, segundo ela, uma humanoide de mais de dois metros de altura, com grandes olhos azuis, cabelo dourado e traje colante azul-cobalto. Foi quando ela recebeu telepaticamente a missão de divulgar na Terra a existência do povo de Plêiades.

Daquele dia em diante, Mônica passou a não comer carne – segundo ela, isso produz um ectoplasma mais limpo. Para se comunicar com Shellyana, a humanoide, ou com Zilok, o Gasparzinho, Mônica utiliza um chip. Ela pediu que eu encostasse o dedo atrás de sua orelha esquerda, e sentisse o que parece ser um pequeno caroço. É o suposto chip. Mônica trabalha como médium na Casa do Consolador – uma espécie de centro religioso, mas sem religião definida, localizado na Vila Mariana, em São Paulo. “Quando cheguei lá, falando de ETs, metade dos médiuns da casa foi embora e o movimento de pessoas caiu para 2 mil por mês. Agora já voltamos às 7 mil”, comemorou. Em sua apresentação, Mônica também falou sobre as crianças índigo – espíritos que, segundo ela, nascem em corpos com modificação genética e cujas principais características são a inteligência e a amorosidade.

Em outras palestras, várias pessoas subiram ao palco para relatar suas experiências de “avistamento”, “contatismo” e “abdução”. Avistamento é o simples fato de enxergar um objeto não identificado. Contatismo é o estabelecimento de um elo com outra espécie – como o recebimento de mensagens desses seres. A abdução acontece quando alguém supostamente é forçado a entrar em uma nave.

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O peruano Asís Univers é figura conhecida na cena ufológica mundial. Naquela sexta-feira, ele estava completando 39 anos, e era o único no evento a usar terno e gravata: quando não está avistando OVNIs no céu de Lima e arredores, tem uma bem- sucedida carreira como consultor de marketing. Já o italiano Antonio Urzi, que tem a mesma idade de Asís, é estilista em Milão. Ao contrário do peruano, não costuma deixar a esposa em casa. Dona de enigmáticos olhos azuis, Simona acompanha o marido nas viagens que eles fazem mundo afora desde 2003 – ano em que dizem ter filmado um disco voador pela primeira vez. Hoje, Urzi diz ter 5 mil vídeos arquivados. Ele veio ao evento contar suas experiências e capitanear uma “vigília ufológica”, atividade de observação do céu que deveria acontecer na noite de sábado no alto de um mirante – mas acabou cancelada, para decepção do público, por causa da chuvarada que despencou sobre a capital catarinense e não deu trégua até o dia seguinte.

Outras celebridades do evento foram o piloto gaúcho Haroldo Westendorff, que em 1996 teria avistado uma nave sobre a Lagoa dos Patos, nas proximidades de Pelotas (RS), e o ex-capitão da força aérea americana Robert Salas, que diz ter presenciado um episódio bizarro. Segundo ele, em 1967, OVNIs desarmaram dez ogivas nucleares na base militar de Great Falls, nos EUA. Salas teria sido obrigado pelo governo a não comentar o assunto, mas afirmou ter até documentos comprovando o causo. Já era quase meia-noite e o ufólogo Marco Antonio Petit, autor de livros como UFOs – Espiritualidade e Reencarnação, não largava o microfone. Segundo ele, o Brasil tem uma distinção: o registro da primeira abdução da história foi feito aqui no País. Teria sido em 1957, quando o agricultor mineiro Antônio Vilas-Boas relatou que fora obrigado a fazer sexo com uma extraterrestre fêmea – sim, uma eteia. O caso da transa intergaláctica ganhou fama mundial entre os ufólogos.

Bianca Oliveira é uma simpática senhora que não se cansa de contar a mesma história há mais de 40 anos. Em 1976, ela viajava do Rio de Janeiro a Belo Horizonte num Karmann-Ghia ano 65 conduzido por Hermínio Reis, então seu marido, quando se viu a bordo de uma nave espacial – com carro e tudo. Embora sua mãe tivesse falecido na antevéspera do fórum, Bianca fez questão de sair da pacata Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, para vir ao evento relatar sua experiência. Ela disse que ainda mantém contatos telepáticos com Karran, o humanoide que a recepcionou ao longo de dois dias para lá de anormais. Durante a palestra de Bianca, o silêncio só era quebrado pelas risadas dela mesma. “Eu e Hermínio éramos Testemunhas de Jeová, então ele começou a exorcizar aquele diabo ali mesmo, e eu achava que ele ia desaparecer, mas não desaparecia”. O diabo, no caso, seria o tal Karran. No início, o casal ficou com medo do anfitrião. Mas acabaram se dando bem e conversando bastante – com a ajuda de capacetes que faziam tradução simultânea entre o português e o idioma alienígena.

Embora a própria Bianca risse, a plateia manteve a seriedade. Não houve qualquer traço de ceticismo no ar. E isso já era de se esperar. Na abertura do fórum, quando Gevaerd pediu que as pessoas que já tiveram algum contato com ETs se manifestassem, mais da metade do auditório levantou a mão.

Um novato na turma
Passei os três dias do evento junto com os participantes. Vi as palestras, fiz as refeições e até dormi com eles – fiquei hospedado em uma espécie de alojamento junto com membros da chamada “equipe UFO”, formada por pessoas que contribuem com a revista UFO. Entre eles havia um jovem doutorando em antropologia cujo objeto de estudo é justamente a comunidade ufológica brasileira, um sociólogo e um policial civil com experiência em perícia criminal – a quem cabe, nas horas vagas, a responsabilidade de analisar fotos e vídeos envolvendo supostos OVNIs. “Mais de 95% do que chega até nós é furada”, disse. O restaurante do hotel servia carne de panela, peixe a escabeche, arroz, feijão, fritas, uma saladinha acanhada e pudim de sobremesa. “Great food”, opinou o americano Robert Salas. Ao lado dele, a psiquiatra Wellaide Ceccim reclamou da falta de opções para atender sua dieta vegana.

Na plateia, encontrei o mineiro Leonardo Martins, que está desenvolvendo uma tese de doutorado em Psicologia na USP sobre a sanidade mental de quem se diz contatado ou abduzido. Em seu mestrado, Martins comprovou que essas pessoas sofrem, sim, de transtornos mentais – mas na mesma proporção que os indivíduos considerados normais. Ver discos voadores, portanto, não é necessariamente um sinônimo de loucura.

Mas que parece, muitas vezes parece. Ao longo dos três dias do evento, ouvi uma teoria mais insólita do que a outra em conversas de corredor, de almoço ou de cafezinho. Por exemplo: o astronauta brasileiro Marcos Pontes só teria ido ao espaço graças a um acordo entre o governo brasileiro e a Nasa. A agência de exploração espacial dos EUA teria levado daqui dois cadáveres de ETs de Varginha – um dos quais, veja só, supostamente teve a autópsia feita pelo famoso legista Badan Palhares. Mas nada supera a teoria de que a nova ordem mundial está ligada ao Clube de Bilderberg e aos Illuminati, um grupo formado por líderes que se reúnem todo ano secretamente na Califórnia – e têm seus corpos controlados por seres extraterrestres conhecidos como Reptilianos. “Sabe aquele seriado A Família Dinossauro?”, me perguntou uma senhora que garante estudar o caso há mais de duas décadas. “Sei, claro”, respondi. “Pois é, eles são iguaizinhos ao Dino da Silva Sauro”. Como admitiu o próprio Gevaerd: “No universo da ufologia, a presença de alguns malucos faz parte da paisagem”.

Foto: GettyImages

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