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Celebridades palpiteiras

Por Redação Superinteressante Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
30 jun 2004, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h49
  • Furio Lonza*

    Outro dia, estava zapeando como sempre a TV e me deparo com a Luciana Gimenez falando sobre o massacre no Carandiru. Virei. Noutro canal, a Adriane Galisteu especulava sobre a possibilidade de recuperação dos rappers dependentes químicos. Virei. Na MTV, uma “vijei” com os peitos tatuados dava dicas sobre sexo a adolescentes absolutamente alucinados, que perguntavam sobre ejaculação precoce, sexo anal, tamanho do pênis, camisinha, suruba. Antes que eu encontrasse a Fafá de Belém falando sobre a lei da gravidade, desliguei.

    Nos jornais, celebridades de vários quilates e calibres escrevem diariamente sobre tudo, desde islamismo até o saldo da balança comercial. Na TV, pagodeiros são questionados sobre a economia informal, dançarinas de axé music falam sobre a alimentação mais apropriada aos golfinhos, modelos que pesam 30 quilos opinam sobre o Fome Zero. Na maior calma, eles falam do Oriente Médio, criação de camarões, futebol, BID, tipo assim, tá ligado? Dão a impressão de estarem num boteco à beira-mar beliscando batatinhas chips e bicando um chope sem colarinho.

    A pergunta é simples: por que a mídia passou a achar que qualquer um pode expressar opiniões leigas sobre assuntos técnicos e eruditos só porque são celebridades? Que cabedal ou estofo cultural têm cantores, modelos, apresentadoras de televisão ou humoristas para deitarem & rolarem sobre assuntos da atualidade, sem conhecerem a fundo temas complexos & delicados? E que estrago isso pode fazer na cabeça do povo?

    Pintou um assunto polêmico e lá está o Caetano Veloso falando pelos cotovelos sobre a matança de marimbondos no Pará ou a Fernanda Young opinando sobre o aumento abusivo do seu Plano de Saúde. A quem interessa saber o que a Marisa Orth diz sobre a invasão do Iraque? Já a Regina Casé é um caso patológico. Com seu estilo brejeiro, ela defende a preservação do mico-leão-dourado e indigna-se com a pesca predatória em Manaus.

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    Hoje, qualquer um pode meter o bedelho em tudo e, o que é pior, usa a coluna do jornal em proveito próprio. No mesmo texto, o cara analisa a desastrosa política do governo, fala do seu poodle que ele ama de paixão, diz que a Fernanda Lima é o seu objeto do desejo e, de quebra, ainda elogia o último disco do Zeca Pagodinho.

    O Diogo Mainardi é um assunto de polícia. Entende de Getúlio Vargas, decodificação do DNA, Brecht, clonagem da Dolly. Se você procurar no dicionário a palavra petulância, vai encontrar a foto dele.

    Teve uma época na imprensa brasileira em que as atividades profissionais eram estanques: quem escrevia sobre política era formado em sociologia, com pós-graduação na Sorbonne; quem escrevia sobre economia era economista com passagem em Harvard ou Berkeley; a arte ficava a cargo de estudiosos, críticos, pesquisadores. Quem escrevia os editoriais eram caras com tempos de estrada, tinham entrevistado personalidades nacionais e estrangeiras, possuíam bagagem.

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    Arnaldo Jabor é provavelmente a maior herança da era Collor. Quando o cinema brasileiro entrou em colapso, o Jabor disparou a falar e não parou mais. Ele é um deus grego, suas opiniões são disputadas a tapa, repetidas nas rodinhas de boteco, glamourizadas. No Jornal Nacional, ele fala sobre tudo, cria metáforas, comete simbioses e entropias, é retórico, implacável, obsessivo. Como cineasta, deveria limitar-se a seu ofício.

    Mas não. Eles todos extrapolam, não conseguem se controlar, estão por cima da carne-seca. Se dão o direito de falar ao pé do ouvido do público, como uma vovozinha caseira que destila sabedoria em conversas ao redor da fogueira. São um misto de cronistas, editorialistas e fofoqueiros e atendem pelo pomposo título de opinion makers. Eles sorriem pelo canto dos lábios, franzem a testa, são irreverentes, tudo para eles é emblemático, endógeno, virtual, aparecem na TV, escrevem nos jornais e revistas, são celebridades, dão entrevistas em talk shows, publicam livros, são ecléticos. Pior: têm toda a liberdade, ganham uma baba, são endeusados pelo povinho letrado, querem ser reconhecidos pelas ruas em que passam, vivem para dar opiniões mas, em geral, não teriam a mínima credibilidade num país sério.

    * É escritor e garante que só opina sobre o que conhece

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