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Como se reconstrói uma cidade devastada por uma catástrofe?

Por Bárbara Soalheiro 31 jan 2005, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h50

 

A regra número 1 é muito trabalho. “Em alguns aspectos, a vida dessas cidades nunca mais vai ser como antes”, diz Robin Hayden, do Centro de Excelência em Administração de Desastres e Assistência Humanitária (CE-DMHA, na sigla em inglês), um instituto americano empenhado em aprimorar as ações de emergência no mundo. Seus membros dão consultoria a governos e às organizações não-governamentais que atuam em áreas devastadas, treinam profissionais e pesquisam maneiras eficientes de lidar com as conseqüências de um desastre.

Uma das primeiras instruções do CE-DMHA é que não existe uma cartilha única de ações pós-desastres. “A reconstrução de uma cidade não é uma ciência exata. Tudo acontece de maneira caótica”, diz Hayden. Além disso, seria impossível desenhar um planejamento que pudesse ser usado em qualquer situação. “Cada lugar tem necessidades e recursos específicos, e isso demanda um plano de ação para cada caso”, diz Carlos Lopes, o representante da ONU no Brasil.

Algumas diretrizes comuns, no entanto, costumam guiar as ações de governos e organizações envolvidas com o processo. Uma delas é o planejamento da operação em quatro fases. Apesar de o tempo de duração dessas fases ser bem diferente em cada região afetada, a divisão ajuda a estimar custos e, assim, viabilizar ações. Outra preocupação em qualquer situação de emergência é envolver o governo local e a população, para evitar que a cidade caia num ciclo de dependência financeira e logística. “O melhor esforço de recuperação é aquele que envolve a própria comunidade. Isso reativa a economia local e é a única maneira de garantir a recuperação da cidade a longo prazo”, diz Hayden.

 

Tijolo por tijolo

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As ações que ajudam a recuperar uma cidade depois de um desastre natural

Fase 1 – Alívio

Duração ideal – Primeiros 15 dias / Socorro imediato. Procura eliminar ou reduzir os riscos de vida

Vítimas – Intensa operação de resgate: a prioridade é socorrer as vítimas e não a busca por sobreviventes. Alocação de desabrigados

Moradia – Alocação de desabrigados em assentamentos de emergência. Em 3 dias, é possível erguer tendas para 10 mil pessoas

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Comida – Uso dos estoques de comida e água, mantidos em quase todas as cidades do mundo pelo Programa Alimentar Mundial, da ONU

Saúde – Envio de médicos e enfermeiros voluntários para o local. Atendimento em hospitais de campanha, montados em tendas ou prédios públicos. Atendimento psicológico

Infra-estrutura – Remoção de escombros usando aparatos disponíveis. Na Indonésia, elefantes fazem o trabalho de escavadeiras. Telefones via satélite e rádios são usados na comunicação

Transporte – Se as vias de acesso estão interrompidas, helicópteros são os veículos mais úteis. Exércitos de diversos países enviam jipes, caminhões, aviões de carga e navios

Dinheiro – Utilização do fundo de emergência das organizações humanitárias e doações internacionais

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Fase 2 – Preparação

Duração ideal – Até 3 meses / Garantir conforto e viabilizar o envolvimento da comunidade

Vítimas – Identificação e enterro dos mortos: valas coletivas são usadas apenas quando há riscos para a sociedade. Em áreas turísticas, onde há muitos estrangeiros, há maior esforço de identificação

Moradia – Tendas dão lugar a casas pré-fabricadas temporárias, que têm de 12 a 20 metros quadrados e são construídas em áreas cedidas pelo governo. Instalação de fossas e latrinas

Comida – O dinheiro de doações é usado para comprar e distribuir alimentos. O ideal é que as compras sejam feitas na região, para diminuir custos e estimular o comércio local

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Saúde – Prevenção de epidemias: vacinação, tratamento imediato de sintomas como diarréia e cuidado excessivo com a água, mantida em tanques e testada com freqüência

Infra-estrutura – Atividades escolares são prioridade. Distribuição de recursos para a retomada das atividades de subsistência da população: sementes, barcos, rebanhos etc.

Transporte – Definição de rotas de acesso às regiões atingidas. Veículos militares de outras nações são utilizados em larga escala

Dinheiro – Intensa ajuda internacional para a região afetada e ONGs trabalhando no local. Cada organização cuida das próprias finanças, decidindo o destino do dinheiro

Fase 3 – Reação

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Duração ideal – Até 3 meses / Balanço da destruição, planejamento das ações futuras

Vítimas – Cadastro das famílias desabrigadas. Esforço de localização de parentes de crianças órfãs e de reunião de membros de uma mesma família

Moradia – Governo determina as normas de futuras construções, para amenizar o impacto de acidentes. As casas temporárias começam a ser modificadas por moradores usando materiais disponíveis

Comida – Substituição gradativa da distribuição de comida por cupons de alimentação, a fim de reativar o comércio local

Saúde – São montados hospitais temporários em contêineres, bem equipados e com capacidade para 60 leitos. Treinamento para profissionais de saúde locais

Infra-estrutura – O governo determina as prioridades de reconstrução. Início das obras de maior urgência, como orfanatos ou hospitais. As vias de acesso também começam a ser recuperadas

Transporte – Os veículos estrangeiros, assim como as tropas, começam a deixar a região. Quando as condições locais exigem, podem permanecer por mais alguns meses

Dinheiro – Já sem atenção da mídia, doações internacionais diminuem muito. É preciso divulgar a situação local, ainda longe da ideal. São feitas campanhas para atrair a imprensa

Fase 4 – Recuperação

Duração ideal – Até 4 anos / O objetivo é voltar à situação de antes do desastre

Vítimas – Encaminhamento de crianças órfãs para adoção ou instituições. Na Indonésia, por exemplo, é preciso viver na região há pelo menos 2 anos para adotar uma criança

Moradia – Empresas – de preferência locais – são contratadas por ONGs ou pelo governo para reconstrução das casas. Em contrapartida, elas são obrigadas a contratar mão-de-obra local

Comida – Com a retomada da economia, a provisão de comida em lojas e mercados se normaliza

Saúde – Reconstrução de hospitais e criação de centros de apoio psicológico. Os hospitais móveis, caso continuem em funcionamento, passam a ser gerenciados pelo governo do país

Infra-estrutura – Obras de reconstrução são executadas de acordo com a verba disponível. Elaboração de workshops com o objetivo de preparar a população para futuros desastres

Transporte – Obras de recuperação. Aeroportos têm prioridade, seguidos de estradas e pontes. A dinâmica é a mesma usada para a reconstrução de casas

Dinheiro – O Banco Mundial faz empréstimos a governos de países e cidades em reconstrução. O dinheiro pode ser repassado à população a juros baixos

 

Foto: GettyImages

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